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Número 815,

Sociedade

Editorial

O invulgar Antônio Ermírio

por Mino Carta publicado 29/08/2014 05h54
Sóbrio, austero, inimigo da ostentação, generoso, reconhecia: “A elite brasileira é egoísta demais, só pensa nela mesma, e o resto que continue como resto”
Masao Goto Filho
Antonio Ermírio

“Meu pai e meu avô são meus heróis, no meu pequeno mundo”

Entre os herdeiros dos três grandes empresários que protagonizaram a industrialização de São Paulo nos começos do século passado, o único que prosseguiu no caminho traçado pelo avô e pelo pai, e ampliou extraordinariamente seus alcances, foi Antônio Ermírio de Moraes, a contar, por bom tempo, com a contribuição do irmão, José Ermírio, falecido anos atrás.

As três figuras históricas a que me referi são um italiano, Francisco Matarazzo, um escocês, Jorge Street, e um português, Antonio Pereira Inácio. É este o avô dos Ermírio de Moraes da Votorantim, pai de Helena, casada com José Ermírio sênior, primeiro a continuar a obra do sogro sem descurar de incursões pela política.

Antônio Ermírio, formado em engenharia com louvor, especialista em metalurgia, termodinâmica e matérias que tais, também teve seus momentos dedicados à política, como candidato ao governo do estado de São Paulo, e ainda à literatura teatral. Escrevi a respeito dele ao cabo de uma longa entrevista publicada há dezenove anos em CartaCapital: “Se a ideia é o empresário entre aspas, Antônio Ermírio não combina com a ideia”.

Esclarecia ao descrever o entrevistado: “O que balança debaixo dos olhos do entrevistador é um enorme sapato direito de largo uso e brilho de recordação remota. A partir dele, percorre-se a topografia de uma figura maciça envolta em tecidos de escassa linhagem, cortados com ambição mínima, até alcançar o nó frouxo da gravata anódina”. E acrescentava: “Antônio Ermírio jamais brilhou pela elegância das roupas e jamais fez questão de brilhar”.

Deste ponto de vista, personagem à sua própria revelia de uma sociedade disposta a ostentar, ele foi totalmente invulgar, a ponto de dirigir seu próprio carro, veículo comum, e dispensar escolta. Os elogios fúnebres costumam ser carregados de retórica recheada de elogios. Pois fujo de uma e outros ao declinar a verdade factual quando digo de sua vida sóbria, e até austera, e da sua generosidade como mecenas de importantes iniciativas sociais.

Também não há como discutir sua capacidade empresarial, e como sábio inovador em diversos campos de sua competência. Mesmo assim, empenhava-se para manter o senso das medidas. Por exemplo, quando insistia em não se levar a sério na qualidade de teatrólogo. Amiúde, até exagerava: dezenove anos atrás perguntei se o pai e o avô eram seus “heróis”, respondeu: “No meu pequeno mundo, são”. Era sincero. Haverá quem duvide, eu não.

Ao mesmo tempo, podia manifestar ideias fortes, e com absoluta franqueza. Indaguei, em certa ocasião, se entendia que a chamada elite tivesse culpas em cartório em relação aos atrasos de um país que não os merecia. Respondeu: “A elite brasileira tem uma grande culpa, ela é egoísta demais, imediatista pensa nela só, o resto que continue como resto”. Concluiu: “E está cada vez mais egoísta”.

Conheci Antônio Ermírio faz muitos anos. Quando dirigia a revista Senhor, da Editora Três, não hesitamos em premiá-lo como empresário do ano em 1984. Entrevistei-o várias vezes, sem falar das conversas sem compromissos. E peias, obviamente. CartaCapital e eu perdemos um excelente amigo.


PS: Não fosse o Brasil o país da casa-grande e da senzala, a JBS Friboi já estaria na mira do Ministério Público depois da nossa reportagem de capa da semana passada e da documentação apresentada, irretorquível. Não se daria também que a mídia deixasse de fornecer eco às denúncias de CartaCapital. Impávida, com atitude de intenções suspeitas, a JBS Friboi solicitou espaço para seus anúncios nesta edição 815, três páginas ímpares sequenciais. Foram recusados, como serão quaisquer outros que porventura da mesma empresa queiram inserção neste semanário.