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Número 815,

Internacional

França

A França dá uma guinada à direita

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 08/09/2014 04h32
François Hollande rende-se à Alemanha e ao setor financeiro e troca a última voz crítica em seu governo por um banqueiro
Bertrand Langlois / AFP
François Hollande

Para calar as dissidências internas, Hollande e Valls chamaram Macron

E a quarta vez, desde a posse em maio de 2012, que o presidente François Hollande dissolve seu governo para reformular o ministério. Mas essa mudança é particularmente decisiva por confirmar e aprofundar a guinada à direita de março de 2014, quando Manuel Valls substituiu Jean-Marc Ayrault no cargo de primeiro-ministro. Desde então, as promessas de baixar a idade da aposentadoria, aumentar impostos de empresas, criar empregos e enquadrar o setor financeiro foram abandonadas em favor do corte de 50 bilhões de euros nos gastos públicos, redução de 40 bilhões nos impostos empresariais e flexibilização das demissões.

Desta vez, a cabeça mais importante a rolar foi a do ministro da Economia, Arnaud Montebourg, advogado e funcionário público de carreira que era ministro da Indústria desde a posse de Hollande e acumulou essa pasta com as da Economia e da Tecnologia da Informação em março. Representava a ala esquerda do partido e teve 17% dos votos ao disputar as primárias socialistas com cinco concorrentes. Ficou em terceiro, atrás de Hollande, centrista e cauteloso, e de Martine Aubry, que adotou uma linha intermediária. Foi o único pré-candidato a se distanciar explicitamente do liberalismo e propor a “desglobalização”, a “quebra das tábuas da lei da OMC” e uma “revolução industrial verde”. Em entrevista ao jornal Libération, disse que “os bancos deveriam ser cortados aos pedaços e têm responsabilidade pela derrocada do sistema financeiro” e prometeu controlá-los e desinflá-los. Recebeu votos também de eleitores da Frente de Esquerda, pois a primária foi aberta a não filiados.

Não representava uma esquerda distributivista tradicional, mas acreditava, como os desenvolvimentistas latino-americanos, em justiça social por meio de protecionismo e intervenção no setor produtivo. Durante sua participação no governo Hollande, Montebourg quis estatizar a transnacional siderúrgica Arcelor Mittal quando esta descumpriu compromissos e fechou dois altos-fornos na Lorena, mas não teve apoio do presidente. Tentou combater a desindustrialização pela promoção do rótulo “Made in France”. Neste ano lutou para impedir a aquisição da francesa Alstom pela General Electric e conseguiu um decreto que ampliou o poder de veto do Estado sobre investimentos estrangeiros em setores estratégicos. Ao mesmo tempo, criticou o abandono das promessas da campanha presidencial socialista de renegociar as medidas de austeridade impostas por Angela Merkel e Nicolas Sarkozy e o tratado europeu. A gota d’água foi a entrevista ao Le Monde no sábado 23, na qual considerou essa política “uma aberração econômica, um absurdo financeiro e um desastre político” que impede a recuperação e abre as portas à ultradireita. Acompanham-no ao ostracismo o ministro da Educação, Benoît Hamon, e a ministra da Cultura, Aurélie Filippetti.

O presidente e seu premier não poderiam ter sido mais enfáticos em seu desejo de tranquilizar Merkel e o setor financeiro. Para substituir Montebourg, escolheram o banqueiro Emmanuel Macron, diretor do banco de investimento Rothschild  até 2012 e um artífice da virada conservadora. Não é filiado ao PS, jamais foi candidato, apesar da promessa de Hollande de não nomear ministros não testados pelas urnas, e atacou a promessa de campanha de Hollande de elevar o imposto de renda  dos mais ricos como fazer da França “uma Cuba sem o sol”. Desde o início do governo era chefe do gabinete da Presidência, um dos cargos mais poderosos no ministério.   No novo cargo, sua primeira proposta foi acabar com a semana de 35 horas, vigente desde 1998.

Ao ejetar do governo a ala esquerda do Partido Socialista e, de quebra, seus aliados do Partido Verde, que abandonaram a coalizão governista, Hollande rende-se à “tonyblairização” do centro-esquerda europeu que se propagou do Reino Unido para a Alemanha, Espanha, França, Portugal e Itália, mas até agora tinha poupado a França. Com isso oferece ao setor financeiro um discurso mais coerente, mas corre o risco de perder o apoio de parte da bancada governista, hoje com uma estreita maioria no Parlamento: 305 de 577 assentos (considerada a retirada dos Verdes, que têm 17). Valls terá de testá-la com um voto de confiança em seu programa, o que prometeu fazer em setembro ou outubro.

Igualmente importante é se terá um voto de confiança do eleitor. A popularidade de Hollande era 61% ao iniciar o governo há dois anos e meio, apesar da falta de carisma. Hoje é de 17%, a pior da V República francesa. Em menos de cinco meses como primeiro-ministro, Valls caiu de 58% para 34%, pouco acima dos 28% de Ayrault às vésperas da demissão.

Tudo indica que continuarão a descer a ladeira. A Alemanha, que continuou a crescer quando grande parte da Europa entrava em recessão, está agora estagnada, vítima da austeridade imposta por ela mesma aos vizinhos. A Itália voltou a entrar oficialmente em recessão e a recuperação dos demais países afetados pela crise continua frágil e ilusória, como mostra a recente falência do Grupo Espírito Santo em Portugal. Isso torna ainda mais difícil a França sair de sua própria estagnação e desfazer o atual clima de pessimismo.

A revista The Economist festejou Macron como “um rosto novo numa equipe antiga”, capaz de indicar que o governo é “sério ao se mostrar mais amigável para com os negócios e mais alinhado com o resto da social-democracia europeia”. Mas analistas menos comprometidos ao viés do mercado financeiro, entrevistados pelo New York Times, viram na manobra mais um sinal de enfraquecimento. Ao mudar o governo sem mudar de política, livrou-se da dissenção dentro do ministério, mas perde parte da base de apoio e mostra-se incapaz tanto de desafiar Merkel e os banqueiros quanto de satisfazê-los inteiramente. Os setores industrial e financeiro continuam a preferir a direita autêntica a uma imitação improvisada.

A direita convencional sofre, porém, uma crise tão grave quanto os socialistas ou mais. Está dividida, falida como partido depois de abusar do caixa 2 e com as lideranças comprometidas pelos casos milionários de corrupção que fizeram Nicolas Sarkozy passar uma noite na prisão e ameaçam sua ex-ministra Christine Lagarde, atual chefe do FMI. Como alertou Montebourg, a ultradireita antieuropeia liderada por Marine Le Pen, cujo partido foi o mais votado nas eleições europeias deste ano, caminha para vencer as eleições presidenciais e parlamentares de 2017. Talvez antes, se o voto de confiança a Valls fracassar.

Os europeus se cansam de votar no “mal menor” para constatar sua incapacidade de pôr freios ao desmantelamento do Bem-Estar Social e cada vez mais abandonam os partidos tradicionais. Várias correntes que crescem ante a erosão do bipartidarismo entre centro-direita e social-democracia característico do pós-Guerra. No Reino Unido, o partido xenófobo UKIP é o terceiro nas pesquisas, assim como na Espanha o recém-fundado Podemos, formado a partir da nova esquerda dos “indignados”, e na Itália o peculiar “Cinco Estrelas”, uma espécie de extremismo de linguagem centrista. Na Grécia, em um estágio mais avançado de colapso econômico, a extrema-esquerda do Syriza liderou a eleição europeia e a terceira força foram os neonazistas do Aurora Dourada. A única coisa que todos têm em comum é a promessa de demolir ou transformar radicalmente a União Europeia. Se o atual rumo continuar, é difícil imaginar outro desfecho a não ser sua eventual ascensão ao poder e a divisão da Europa entre movimentos inconciliavelmente opostos. Com a França, salvo reação da esquerda hoje difícil de imaginar, alinhada ao que houver de mais reacionário.

*Reportagem publicada originalmente na edição 815 de CartaCapital, com o título "Direita, volver"