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Número 815,

Sociedade

Brasiliana

A Maré por dentro

por Antonello Veneri — publicado 05/09/2014 03h33
Na favela ocupada pela Força Nacional, um ensaio fotográfico capta a intimidade dos moradores
Antonello Veneri
Complexo da Maré

Priscilla, atriz e psicóloga

Camila trabalha em uma lanchonete da Nova Holanda, Complexo da Maré, durante a madrugada. Seu filho vai nascer daqui a alguns dias e se chamará Sneijder, em homenagem ao camisa 10 da seleção holandesa de futebol. Camila gostaria que Sneijder nascesse na Holanda e tenta, com o apoio do marido, viajar ao país europeu. Ao anunciar o sonho, sorri.

Muitas vezes paro na lanchonete onde Camila trabalha e ela sempre exibe o sorriso firme. Até na madrugada em que o Exército disparava tiros nas ruas, todo mundo corria, Chico Buarque tocava na tevê e a fumaça do gás lacrimogêneo invadia a lanchonete. Sneijder, tenho certeza, independentemente de onde nascer, será uma criança feliz.

Os militares patrulham o show

Conheci a Maré em setembro de 2013 acompanhado de integrantes de uma ONG paulista, a Lua Nova. Durante uma semana fiquei hospedado na comunidade Parque Maré, umas das 16 do complexo. Estava em um albergue próximo à “divisa da favela”, uma rua entre os territórios de duas facções rivais. Foram dias de confronto entre o tráfico e a polícia. Tiroteios por todos os lados.

Os meus vizinhos abriram, porém, as portas de casa e pude conhecer o cotidiano da Maré. Quando o pessoal da ONG foi embora, resolvi ficar mais. Tive uma ideia simples: contar, por meio de fotografias, a vida das famílias. Conversei com o músico Henrique Gomes,  o projeto tomou forma e ganhou até um nome, “Interiores da Maré”.

Certo dia, exatamente na frente da porta da casa da família que iria fotografar, um Caveirão do Batalhão de Operações Especiais estava estacionado. Um pouco mais adiante, desenrolava-se um confronto entre policiais e traficantes. Entramos rapidamente no quintal. Cinco mulheres, de 4 a 60 anos, e um menino nos esperavam, atenciosos. Do lado de fora, tiros e violência. De dentro, hospitalidade e esperança.


Seu Antônio, pedreiro e músico da banda "Os Três forrozeiros"

Talvez a experiência mais forte que vivi na Maré nesse período não tenha sido ouvir os sons das patrulhas noturnas ou dos conflitos, mas um show de rock na Baixa do Sapateiro. Durante o evento organizado por músicos locais, a cada 15 minutos os tanques, jipes e motocicletas do Exército desfilavam entre o público e os artistas, em uma atmosfera surreal.

“Quem é de fora pensa que estamos acostumados a esse tipo de violência. Na verdade, não há como se acostumar com esse tipo de coisa. Resistimos, não nos acostumamos”, diz Priscilla Monteiro, atriz e psicóloga. “Quando começa um tiroteio, as crianças interrompem as brincadeiras e se deitam no chão, em silêncio. Quando os tiros cessam, eles voltam a brincar. As mães acompanham seus filhos à escola, os velhos continuam a jogar dominó e tudo começa outra vez.”

E não estamos em Gaza ou na Síria.