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Número 815,

Cultura

História

A fome de filmar de Roberto Rossellini

por Orlando Margarido — publicado 11/09/2014 04h54
A gênese da visita do cineasta italiano ao Brasil para adaptar a obra de Josué de Castro, em projeto jamais concluído
Reprodução

No início de agosto de 1958, desembarcava no Rio de Janeiro um comunista determinado a filmar a fome no País em plena vigência da política desenvolvimentista de Juscelino Kubitschek. Era assim, como uma mancha à honra nacional, que o quinhão conservador da imprensa carioca anunciava a chegada de Roberto Rossellini à então capital federal. Afirmava-se que, depois de internacionalizar a miséria italiana no pós-guerra em filmes como Roma Cidade Aberta, o cineasta pretendia mostrar ao mundo a nossa. Em parte, a mídia não se equivocava.

Homem de esquerda, Rossellini viajou interessado em adaptar Geografia da Fome, livro referencial do médico e sociólogo pernambucano Josué de Castro publicado uma década antes, seguido de outro, Geopolítica da Fome, em 1951. Seria etapa de projeto maior dedicado ao tema em outros continentes. Não caía bem naquele momento, porém, propagar mazela nacional, e começaria aí uma estada com escalas ainda no Recife, em Salvador e São Paulo recheada de passagens folclóricas, encontros com dignitários locais e um desapontamento pelo filme nunca realizado.

Mais de meio século depois, o episódio rende uma crônica de atributos um tanto imaginados, outros comprovados, a ponto de gerar estudos acadêmicos, uma literatura picaresca e a tentativa de reaver a ambição séria pelo cinema. Quando chegou, Rossellini havia se separado pouco antes da atriz Ingrid Bergman. A fama de mulherengo e boêmio e a controvérsia pelo documentário agitaram conservadores, a imprensa e os políticos. O Globo perguntava o que vinha fazer o diretor no Brasil senão uma obra comunista para “mostrar ao mundo que o país do futuro de Stefan Zweig é na verdade do presente, da miséria e da fome”. O Jornal do Brasil conclamava o diretor a se entusiasmar por O Guarani, de Carlos Gomes, em vez de se interessar por livro “de pouca repercussão”.

Na política, o ataque veio de Carlos Lacerda, na reação a “uma burguesia progressista que concorda em abrir para o comunismo as portas da sociedade”, e terminava por chamar o médico de charlatão. “Não era uma visita propícia naquele momento em que o País queria se ver e ser visto como moderno”, afirma o professor e pesquisador baiano José Umbelino Brasil. “Rosselini incomodava, ainda mais associado à obra de Castro, homem de esquerda, cassado pelo golpe militar quando embaixador e obrigado a se exilar”.

O estudioso se detém sobre o projeto nunca realizado e a passagem tumultuada do cineasta para um pós-doutorado que planeja publicar em livro, intitulado Geografia do Filme – A Viagem de Rossellini. Sua fonte primária são as cartas trocadas entre o diretor e o autor antes da vinda ao Brasil. O cineasta havia retornado da Índia, onde concluíra dez episódios de tevê sobre a nação. Com o painel, tinha em mente apresentar o Terceiro Mundo, lembra Umbelino, não como em desenvolvimento, como se queria entre os países ricos, mas ainda em nível de miséria.

Há variantes de como a obra de Castro teria chegado ao conhecimento do diretor. Umbelino levanta a hipótese de que Sergio Amidei, roteirista de diversos filmes de Rossellini, recomendou-lhe uma versão francesa. Antes, outro italiano do núcleo original do neorrealismo e amigo de Castro, o roteirista Cesare Zavattini, fora a escolha inicial para tratar o texto. Um entusiasta do cinema, o médico havia procurado diretores como Charles Chaplin e Luis Buñuel. “Meu pai era um cinéfilo e sabia bem o que fazia quando buscou esses nomes”, aponta Josué Fernando de Castro. “Ele gostaria de ter sido um realizador e este projeto compensava um pouco a frustração.”

De outro herdeiro, Renzo Rossellini, produtor de cinema na Itália, vem uma versão diferente. Em entrevista por e-mail, o primogênito do cineasta relembra que, jovem, veio visitar parentes emigrados para o Brasil, conheceu o livro e o levou entusiasmado ao pai. “Quem me recomendou a leitura, assim como de Os Sertões, foi Gilberto Freyre”, diz. “Quando voltei, descobri que havia uma tradução italiana. Meu pai então pensou em realizar iniciativa semelhante àquela na Índia. Como Amidei era colaborador frequente, possivelmente tivessem conversado a respeito.”

A proposta de Rossellini encontrou forte pressão no Rio de Janeiro. Se ali o impacto foi negativo, na terra de Castro se tornou orgulho local e o diretor virou celebridade. “Ele vem ao Recife quando nova vertente de cineclubismo e de crítica cinematográfica se sintoniza com o cinema recente italiano, rivalizando com conservadores que não gostavam do neorrealismo”, explica Paulo Cunha, outro estudioso pernambucano e orientador de Umbelino. “Essa turma enxergava em Castro um aliado à modernização.” Cunha acaba de publicar A Imagem e Seus Labirintos, sobre o chamado Ciclo do Recife, entre os anos 1930 e 1964, incluindo a passagem do diretor. “Visitas de estrangeiros, como ocorreu com Orson Welles no Ceará e no Recife, tinham traço provinciano e de legitimização de tradições e personalidades, como o beija-mão a Freyre.” Ele se refere à visita à casa de Apipucos, onde o cineasta toma do licor de pitanga do escritor acompanhado do pintor Di Cavalcanti, a quem conhecera no Rio de Janeiro, e do poeta Carlos Pena Filho. Escoltado por Castro até no sertão pernambucano onde veria o cenário desenhado por Geografia da Fome, Rossellini não esteve com o médico neste compromisso, pois havia animosidade histórica entre ele e o autor de Casa Grande & Senzala.

A agenda de Rossellini na cidade tornou-se folclórica até mesmo por suas palavras. “Vim fazer um filme sobre a fome e não paro de comer”, disse. Suas idas a restaurantes e bares alimentaram lendas contrárias ao comportamento sério e reservado, segundo relatos. Em 2005, uma delas tornou-se ficção no livro do jornalista Cícero Belmar, Rossellini Amou a Pensão de Dona Bombom, relato do périplo e da ida imaginada à zona do meretrício e a relação com prostitutas. A publicação seria adaptada ao cinema por Paulo Caldas, filme ainda em processo de financiamento por coprodução europeia, mas agora a ambição é outra. Viaggio in Brasile, drama com inserções documentais, deve iluminar o propósito maior da visita e da filmagem não realizada. “Queremos recuperar situações como a ida dele ao mangue para conhecer os homens-caranguejo, capítulo emblemático do livro”, explica Caldas.

Parceiro na produção e zeloso da figura do pai, Renzo espera restituir a função original da viagem do cineasta. “Gostaria de lembrar o grande amor dele pelo País, a sua descoberta de uma região tão carente como o Nordeste, o amor e a misericórdia por um gigante da cultura e beleza como é o Brasil.” Ele comenta a desilusão do pai com o projeto inconcluso e diverge da interpretação de Umbelino, para quem tal fracasso ocorreu pela recusa de Rossellini em assinar um contrato a pedido de Castro. “Ele saiu da Itália sem um produtor, sem qualquer garantia de dinheiro para adquirir Geografia da Fome.” Para Renzo, o legado positivo do episódio foi Rossellini ter conhecido o Cinema Novo e diretores como Glauber Rocha, que como repórter do carioca Diário de Notícias entrevistou o cineasta, em uma das poucas vozes de boa acolhida.

No caso de Castro, seu sonho em parte se realizou em um filme de 1958 baseado na obra. O Drama das Secas foi dirigido por Rodolfo Nanni, que relembra ter apresentado seu amigo Di Cavalcanti ao italiano. Mais tarde, ouviria de Rossellini sobre o pintor: “Parece que nos conhecemos há 200 anos”. Esses e outros fatos do período, o diretor de O Saci incluirá nas memórias que lança em breve, mantendo em constante revisão um episódio cercado pela mitologia no fértil imaginário do cinema nacional.

*Reportagem publicada originalmente na edição 815 de CartaCapital, com o título "A fome de filmar"