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Número 814,

Sociedade

Análise / Vladimir Safatle

O brasileiro do século

por Vladimir Safatle publicado 26/08/2014 05h10
Com Celso Furtado, a economia era reflexão sobre a produção da riqueza em seu sentido mais amplo
Marcello Casal Jr/ABr
Celso Furtado

Refletir sobre a produção de Celso Furtado nos leva a encarar com tristeza o que as universidades brasileiras fizeram com a economia

Neste momento em que se inicia uma nova campanha eleitoral para presidente da República, não há lançamento editorial mais bem-vindo que a publicação de Obra Autobiográfica, do economista Celso Furtado, em edição cuidadosa organizada por Rosa Freire de Aguiar. O retorno de tais obras às livrarias talvez permita que uma nova geração conheça este que, ainda hoje, é o intelectual brasileiro mais traduzido, com 53 traduções em línguas que vão do inglês ao sueco, polonês e farsi. Uma curiosidade biográfica que indica com clareza o reconhecimento da originalidade e importância de sua obra.

Descobrir a formação, as preocupações e habilidades de Celso Furtado nos leva a encarar com tristeza o que as universidades brasileiras fizeram com uma disciplina como a economia. Nas mãos de Furtado, a economia era um setor das ciências humanas indissociável de profunda reflexão histórica e de compreensão estrutural das relações globais de poder. Por isso, ela era a base para toda e qualquer crítica social. O resultado foram realizações como sua tese a respeito da Formação Econômica do Brasil. Talvez o caso mais bem realizado, na literatura econômica do mundo todo, de uma obra capaz de aliar análise do processo histórico de formação nacional e considerações sobre as dificuldades do desenvolvimento econômico.

Mas com Celso Furtado a economia era também reflexão sobre a produção da riqueza em seu sentido mais amplo, e neste ponto sua condição de economista aliava-se à sua grandeza como homem público. Pois Furtado sabia que não era o caso de falar apenas da produção do que se estoca e do que se consome, mas produtividade da criatividade humana nos campos da cultura. Ele sabia mais do que todos não haver crescimento sem desenvolvimento das potencialidades criativas da vida social. É esse desenvolvimento das potencialidades que deve orientar a verdadeira reflexão econômica.

Dificilmente encontraremos algo tão distante da formação instrumental e financista que hoje nossos alunos recebem nos cursos de economia deste país, para quem uma consideração dessa natureza parecerá quase um devaneio poético. Por isso, quem mais desconhece Celso Furtado são, atualmente, os economistas, principalmente esses que acreditam que pensar um país é operação feita com a mesma racionalidade de quem gerencia carteira de investimentos. Afinal, o que esperar de uma ciência humana recalcitrante que acredita hoje garantir suas cartas de nobreza vendendo-se como setor aplicado das, vejam só vocês, “ciências matemáticas”?

Quem teve a honra de conhecer Furtado e ouvi-lo falar concordará que seu traço mais impressionante não era apenas sua lucidez analítica implacável que lhe permitia enxergar os problemas que quase todos preferiam ignorar. O que mais impressionava era como uma figura praticamente lendária como ele, que havia participado ativamente dos momentos mais ricos da história deste país, era animado por um desejo límpido de perguntar, de ouvir outras experiências, por mais que seu interlocutor fosse um simples estudante vivendo com o dinheiro do carro que sua namorada vendera. Essa era, talvez, sua maior lição e o maior ensinamento aos que o conheceram: o desejo de continuar a descobrir, a generosidade de quem pergunta.

Talvez isso explique um pouco do que animou sua vida singular, marcada pela capacidade em mesclar o que qualquer outro ser humano separaria, ou seja, pragmatismo e desejo. Que um de seus livros autobiográficos se chame A Fantasia Organizada, eis algo que diz muito. Pois haveria melhor definição da verdadeira atividade intelectual do que esta, a saber, a capacidade de organizar a fantasia? Capacidade de se deixar tocar pela fantasia, de sempre continuar tendo a força de fantasiar mundos possíveis, mas de não se contentar em compensar a miséria da vida cotidiana com elaborações fantasmáticas. Ao contrário, organizar a força transformadora da fantasia, fazê-la habitar a prosa seca do conceito para, ao conciliá-la com o que anteriormente parecia o seu oposto, abrir o espaço à verdadeira transformação.

Por isso, neste tempo em que poucos ousam realmente organizar a produtividade da fantasia, nada mais aconselhável do que reler a vida de Celso Furtado e sua genialidade.