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Número 814,

Sociedade

Agência Pública

Ditadura usou armas químicas em São Paulo

por Natalia Viana e Anne Vigna — publicado 27/08/2014 15h15, última modificação 27/08/2014 15h19
Em 1970, no Vale do Ribeira, a Força Aérea Brasileira usou bombas de Napalm contra a VPR de Carlos Lamarca
Reproduções Jornal O Globo / Biblioteca Nacional e Luciano Onça

Pedro passos, o Seu Pedrico, tem os causos de vida e a memória coalhados de bombas. São os resquícios dos bombardeios realizados em 1970 pela ditadura nas matas onde nasceu e se criou, no município de Cajati, Vale do Ribeira, a 200 quilômetros de São Paulo. Ao longo dos anos, encontrou muitos pedaços dessa história que não está nos livros didáticos. Da última vez, achou uma carcaça de uma bomba incendiária enquanto roçava um sítio à margem do Rio do Aleixo: uma chapa de aço, colorida pela ferrugem e pelo musgo, de cerca de 60 por 40 centímetros, em cujo centro um cilindro maciço de metal, de cerca de 5 centímetros de diâmetro, traz o número 528. Em julho deste ano ele guiou a reportagem até o lugar. Pela primeira vez destroços das bombas de Napalm atiradas pela Força Aérea Brasileira foram recolhidos no local. “Eu nunca tinha visto nada parecido”, diz Seu Pedrico, com a data da megaoperação militar ainda na cabeça, do fim de abril ao início de maio.

A “Operação Registro” foi a maior mobilização da história do II Exército. Foram empregados 2.954 oficiais, entre integrantes do Centro de Informações do Exército, regimentos de infantaria e paraquedistas das forças especiais, policiais militares e rodoviários de São Paulo e do Dops, além da Marinha, para vasculhar a área e capturar nove integrantes da organização Vanguarda Popular Revolucionária comandados pelo capitão Carlos Lamarca. A VPR havia instalado dois centros de treinamento de guerrilha na região.

Segundo o relatório escrito pelo comandante do II Exército, general José Canavarro Pereira, mantido em segredo até o ano passado, a FAB participou por meio da hoje extinta 1ª Força Aerotática, comandada pelo brigadeiro Hipólito. Foram enviados, em 20 de abril, quatro helicópteros, dois deles com poder de fogo, e quatro aviões T-6 “armados”. O relatório menciona ainda aeronaves B-26, sem especificar a quantidade. Os bombardeios na região não se preocuparam em garantir a segurança dos camponeses. A única medida adotada foi a proibição dos moradores locais de entrar na floresta onde estavam os roçados, a caça e o palmito. “O Exército, eles vieram de carro primeiro”, lembra o sitiante Nelson Vieira, hoje com 68 anos, um dos guias dos soldados pelas trilhas na mata. “Então pra nós aqui eles falaram: ‘Ninguém vai pro sítio. Não vão pra lá que o negócio nós vamos queimar esse mundo aí, porque nos vamos pegar esse povo. Se vocês tiverem lá também vocês vão morrer’.”

Adilson Vieira Alves tinha 8 anos quando aconteceu a operação. Ainda lembra com exatidão impressionante da primeira vez que viu os caças da FAB: “A gente tava carpindo uma roça de alho bem em cima do morro, meus pais trabalhando e eu brincando. Aí comecei a observar no horizonte uma formação, parecia que era urubu, mas não era. Comecei a escutar o barulho do helicóptero, tu tu tu tu, aí comecei a falar pra eles, ‘olha aquelas coisas lá, não é passarinho não’. E o barulho diferente que a gente não era acostumado. Aí veio essa formação do helicóptero, sobrevoou, passou por cima da gente, meu pai falou ‘acho que é coisa grave, é da polícia, acho melhor nós ir embora’. Passaram bem baixinho e logo em seguida vieram os aviões. Aí os aviões fizeram esse rasante, e começaram a jogar bomba, nesse mesmo dia. A gente via que eles faziam assim e começavam a descer. Parecia ovo que eles soltavam... Aí a gente escutava o barulho do estrondo.”

Seu irmão mais velho, Oscar, 20 anos à época, completa: “Era um botijão grande que caía, explodia. Era perigoso aquilo, fazia um estrago, cortava árvore dessa grossura, arrancava... Você tá vendo negócio vindo lá de cima, que não tem um lugar certo de cair, aí nos passemos muito medo daquilo, que se um avião deles joga um tanto de coisa lá de cima quem vai saber onde vai cair né? Aí foi a pior parte que nós passemos”, diz. “Era uma guerra mesmo.”

É difícil precisar exatamente durante quantos dias as áreas vizinhas ao rancho dos Vieira Alves foram bombardeadas, ou a quantidade exata de bombas lançadas. O primeiro registro oficial de bombardeio a vir a público, o relatório secreto do II Exército, relata que a missão maior da FAB era a “inquietação do inimigo através de bombardeios e tiros de metralhadoras”. Mas é econômico ao detalhar os ataques aéreos. Em 30 de abril de 1970, diz o texto, “a partir de 1030 horas iniciou-se o bombardeio da área com os T6 e B26”. Além disso, relata que em 4 de maio, “a partir das 1200 a I FAT bombardeou o centro da área”.

Mas em 28 de abril, uma terça-feira, o Jornal do Brasil estampava a manchete “Exército fecha cerco a reduto da guerrilha” e trazia a reportagem à página 19, que detalhava: “Desde sexta-feira, aviões da FAB estão lançando bombas incendiárias sobre pontos da floresta na região do Vale do Ribeira onde estariam cerca de 20 guerrilheiros pertencentes à Vanguarda Popular Revolucionária (...). Nos bombardeios, realizados principalmente na área onde se localizam jazidas de minérios, em Cajati, distrito de Jacupiranga, aviões da FAB estariam despejando grande quantidade de Napalm, gasolina gelatinosa incendiária. Os bombardeios começaram na tarde de sexta-feira (dia 24), depois que as forças governamentais conseguiram determinar a área provável da localização dos guerrilheiros, levantada por grupos de reconhecimento dos quais estariam participando civis conhecedores da floresta. A utilização de bombas incendiárias seria a única fórmula encontrada pelos militares para fazer com que os guerrilheiros deixem os seus refúgios, que são de acesso difícil”. A reportagem repercutiu internacionalmente e no dia seguinte o Los Angeles Times publicou um texto abaixo do seguinte título: “Napalm usado em local de esconderijo de rebeldes brasileiros”.

Do outro lado da caçada, o sargento José Araújo Nóbrega, um dos oito guerrilheiros que ao lado de Lamarca procuravam escapar do cerco militar, observava de longe as bombas. “Eu não sei qual era o critério deles. Acho que eles imaginavam que a gente tava homiziado numa região e eles bombardearam aquela região por suposição, mas a gente havia mesmo passado por ela. Houve um local lá próximo à região ali da capelinha, depois de Cajati. Tem um vilarejo lá em cima no alto do morro, que próximo dele eles bombardearam. Eles imaginaram que a gente tivesse lá.”

O cerco terminou em 1º de junho com a captura de quatro guerrilheiros, José Lavecchia, Edmauro Gopfert e os sargentos Darcy Rodrigues e Antônio Nóbrega, que se perderam na estrada. Os outros cinco, após matar um policial, o tenente Alberto Mendes Júnior, em um episódio tristemente notório, conseguiram escapar do cerco em um caminhão do Exército rendido, rumo a São Paulo. Lamarca seria assassinado no ano seguinte no interior da Bahia.

Apesar dos pequenos frutos diante de tanta mobilização, o desempenho das tropas recebeu elogios rasgados do general Canavarro Pereira: “Conseguimos, de modo magnífico, realizar uma positiva integração do Exército, Aeronáutica e Marinha, reforçando a confiança mútua já existente entre nós. Parece-nos que a Operação Registro deixou um saldo francamente favorável”, escreveu.

“Esses fragmentos das bombas confirmam o que sempre foi dito. Houve bombardeio em uma região tão perto de São Paulo, indiscriminado, contra a população local, inclusive”, afirma Ivan Seixas, coordenador da Comissão da Verdade da Assembleia Legislativa de São Paulo. “Para nós que estamos reparando a verdade, é muito importante contar essa história, por mais crua que seja.”

*Reportagem originalmente produzida pela Agência Pública. A íntegra está em www.apublica.org

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