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Número 814,

Economia

Análise / Luiz Gonzaga Belluzzo

As dores europeias

por Luiz Gonzaga Belluzzo publicado 28/08/2014 06h05
As condições concretas da vida sucumbem ao comando dos mercados financeiros contemporâneos

A zona do euro patina entre o baixo crescimento e a recessão. Os arautos da austeridade calam, mas não cedem nem concedem. Incomodados e constrangidos pelos ditames e caprichos dos mercados e de seus poderes, os políticos europeus limitam-se a resmungar protestos, acenar com melhorias que não acontecem ou simplesmente deixam-se arrastar pela força das “coisas”.

As discussões travadas no âmbito da União Europeia têm-se limitado, no âmbito da esquerda restante, às estratégias de recuo. São tentativas desesperadas de defender as últimas trincheiras do Estado de Bem-Estar Social, sob o fogo cerrado dos liberais que clamam por políticas de “competitividade”.

À direita, os dissidentes mais extremados do establishment não estão, como de hábito, inclinados a perplexidades e sutilezas. A palavra de ordem é, como sempre, encontrar os bodes expiatórios: os imigrantes, os costumes, a disseminação de ideias desagregadoras como a legalização do aborto, a tolerância com o homossexualismo.

A extrema-direita europeia debate-se entre a realidade dos impulsos “cosmopolitas” do mercado e os incômodos da Grande Revolução da Indiferença: o movimento dos capitais inquietos entrega-se, sem descanso, aos trabalhos da dissolução de todos os vínculos territoriais, nacionais, de classe, de grupo, da família etc.

A Europa sofre, assim, as dores do processo de “abstração real”. As condições concretas da vida sucumbem ao comando dos mercados financeiros contemporâneos, pródigos em proezas e desastres. Dinheiro que produz dinheiro é esse processo em estado puro, adequado a seu conceito, livre da materialidade do mundo em que sobrevivem os cidadãos comuns atormentados pelo trabalho e pelas durezas do cotidiano.

As novas formas financeiras contribuíram para aumentar o poder das corporações internacionalizadas sobre as grandes massas de trabalhadores, permitindo a “arbitragem” entre as regiões e nivelando por baixo a taxa de salários. As fusões e aquisições acompanharam o deslocamento das empresas que operam em múltiplos mercados.

Esse movimento não só garantiu um maior controle dos mercados, mas também ampliou o fosso entre o desempenho dos sistemas empresariais “globalizados” e as economias territoriais submetidas a regras jurídico-políticas dos Estados Nacionais.  A abertura dos mercados e o acirramento da concorrência coexistem com a tendência ao monopólio e debilitam a força dos sindicatos e dos trabalhadores “autônomos”, fazendo periclitar a sobrevivência dos direitos sociais e econômicos, considerados um obstáculo à operação das leis de concorrência. Restringem, portanto, a soberania estatal e impedem que os cidadãos, no exercício da política democrática, tenham capacidade de decidir sobre a própria vida.

As reformas realizadas nas últimas décadas sob os auspícios da finança cuidaram de transferir os riscos para os indivíduos dispersos e desorganizados, ao mesmo tempo que concederam à grande empresa o apoio do Estado e de sua força coletiva para enfrentar a concorrência globalizada. (Nos tempos de crise, os governos cuidaram de sustar as perdas, que seriam provocadas pela catastrófica desvalorização da riqueza.)

A intensificação da concorrência entre as empresas, no espaço global, não apenas acelerou o processo de concentração de riqueza e de renda como submeteu os cidadãos às angústias da insegurança. Os efeitos do acirramento da concorrência entre empresas e trabalhadores são inequívocos: foram revertidas as tendências à maior igualdade observadas no período que vai do fim da Segunda Guerra Mundial até meados dos anos 1970 – tanto no interior das classes sociais quanto entre elas. Na era do capitalismo “turbinado” e financeirizado, os frutos do crescimento concentraram-se nas mãos dos detentores de carteiras de títulos que representam direitos à apropriação da renda e da riqueza.  Para os demais, perduram a ameaça do desemprego, a crescente insegurança e a precariedade das novas ocupações, a exclusão social.

Hanna Arendt, nas Origens do Totalitarismo, abordou as transformações sociais e políticas na era do capitalismo tardio e da sociedade de massa. A economia dos monopólios promoveu a substituição da empresa individual pela coletivização da propriedade privada e, ao mesmo tempo, a “individualização do trabalho”, engendrada pelas novas modalidades tecnológicas e organizacionais da grande empresa. A isso juntou-se a conversão ao regime salarial das profissões outrora conhecidas como liberais. A operação impessoal das forças econômicas produziu, em simultâneo, o declínio do homem público e a ascensão do “homem massa, cuja principal característica não é a brutalidade nem a rudeza, mas o seu isolamento e sua falta de relações sociais normais”.

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