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Número 814,

Política

Rosa dos Ventos

A emoção e o sonho

por Mauricio Dias publicado 23/08/2014 06h26
Ao assumir o controle da campanha, Marina desfaz compromissos assumidos por Eduardo. Ao cabo, corre o risco de acordar sozinha
Antonio Cruz/Agência Brasil
Marina

Marina Silva, diante da comoção causada pela morte de Eduardo Campos, virou protagonista das eleições

Durante cinco dias, entre a manhã da quarta-feira 13 e o domingo 17, uma parte da população brasileira acompanhou, impactada, a cobertura do acidente que vitimou Eduardo Campos. O fim trágico do ex-governador de Pernambuco e, então, candidato a presidente da República foi narrado com emoção pelos apresentadores e repórteres de rádio e televisão.

Eduardo tinha acabado de cumprir a jornada de entrevistas noturnas no Sistema Globo e, portanto, ampliado a divulgação maior do nome dele País afora. Ainda não era muito conhecido e, por isso, precisava projetar a candidatura.

Não era um líder político cuja morte pudesse, naturalmente, provocar comoção no País. Compare-se com os desaparecimentos trágicos de dois gigantes da política brasileira, Getúlio Vargas (1954) e Juscelino Kubitschek (1976).

Eduardo, de vida ceifada aos 49 anos, estava apenas começando. Nesse sentido, a dimensão do acontecimento foi ampliada por interesses políticos. Era preciso evitar a vitória do PT no primeiro turno. Com Aécio Neves empacado em 20% das intenções de voto, foi multiplicada a tristeza natural que a tragédia provocou. Assim, a emoção virou comoção. Imediatamente, o nome de Marina Silva, vice de Eduardo Campos, virou protagonista do episódio. Ela seria a substituta.

O faro da mídia, conservadora e oportunista, deixou Aécio Neves em banho-maria. Para vencer Dilma, a oposição, mais uma vez, propagou o que a imprensa queria. Na pior das hipóteses, garantia o segundo turno. Qual a causa disso?

Tudo, menos o PT. Tudo, menos Dilma. Esse é o alvo do vice-presidente do PSDB, Alberto Goldman, capaz de transformar adversários políticos em inimigos.

“Nossos inimigos são Dilma, Lula e o PT. Nossa campanha é contra o PT.”

A emoção, entretanto, não elege ninguém, salvo se houver uma sustentação política considerável. Eis dois exemplos.

Aqui o jogo começa a embolar para Marina Silva. Emoção construída pelo acaso não se sustenta na política, se o objetivo for o de chegar ao poder. E dizem que é.

Embora filiada temporariamente ao PSB, um partido de representação média na Câmara, 35 deputados, Marina tem compromisso com militantes, os chamados “marineiros” espalhados pelo Brasil. Tem o dever de criar uma nova agremiação, a Rede Sustentabilidade, portadora de uma “nova política”, com novos métodos, contra os vícios da “velha política”.

Para isso será preciso mudar o discurso, o comportamento e, mais ainda, passar a engolir sapos e, na caminhada, interpretar pragmaticamente a instigante cena de jabutis nas forquilhas.

Ao dar o sim ao PSB, Marina impôs algumas condições e controlou o núcleo da campanha. Baixou também alguns vetos sobre alianças que Eduardo havia construído, como os casos de Geraldo Alckmin (SP), cujo vice é do PSB, Paulo Bornhausen (SC), Heráclito Fortes (PI), e Vanderlan Cardoso (GO), onde ele tem aliança de sangue com Heloisa Helena (PSOL). No Rio de Janeiro, ela não aprovou os compromissos assumidos por Eduardo com o deputado Romário, candidato a senador, e com o senador Lindbergh Farias (PT) candidato a governador. Entre outros atritos.

Marina não vive a política. Vive um sonho. Quando acordar, pode estar sem ninguém.