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Número 814,

Economia

Análise / Paul Krugman

A difícil luta da Europa

por Paul Krugman — publicado 29/08/2014 05h55
O BCE tem de lidar com um contingente poderoso de falcões monetários
Grupo P7 Mais Europa/Flickr
BCE

Por que a Europa se saiu tão mal na recuperação pós-crise?

Há apenas alguns meses, os defensores europeus da austeridade estavam preocupados  em se autocongratular e declaravam que a modesta recuperação no Sul  do continente justificava os seus atos. Mas agora as notícias parecem sombrias, com a produção industrial estagnada e bons motivos para se temer mais um escorregão na recessão.

Isso ocorre enquanto muitos dados nos Estados Unidos sugerem um crescimento mais forte. Então por que a Europa se saiu tão mal? Possivelmente há vários fatores.

Primeiro, a austeridade fiscal, um empecilho muito grande. Os Estados Unidos também tiveram bastante austeridade, por meio do sequestro do orçamento do governo e cortes estaduais e locais. Usando a medida do FMI de balanços estruturais, você descobre que a Europa de fato se endureceu mais comparada aos EUA. Mas não é uma diferença tão grande – talvez 2,5 pontos de PIB potencial.

Também se pode afirmar que os fundamentos da Europa são consideravelmente piores. Se você está preocupado que a estagnação secular esteja deprimindo a taxa de juros real natural – a taxa consistente com o pleno emprego – e acha que a demografia é grande fator, a Europa parece mesmo terrível.

A Europa precisa impedir que as expectativas de inflação declinem. No entanto, o Banco Central Europeu teve muito menos sucesso que o Federal Reserve em impedir a queda da inflação esperada.

E isto reflete antigas opções de políticas e o que elas dizem sobre as tendências institucionais. Nos EUA, Janet Yellen, a presidenta do Fed, e seus associados foram bastante claros de que estão preparados para assumir alguns riscos de inflação mais alta para evitar o “cenário de pesadelo” de aumentar as taxas e a economia enfraquecer de novo. Na Europa, entretanto, o cenário de pesadelo aconteceu em 2008 e, incrivelmente, em 2011. E os sadomonetaristas do Banco de Compensações Internacionais e outros lugares continuam tendo muito mais influência na Europa do que nos EUA.

Eu não acredito que a atual administração do BCE seja tão diferente da chefia do Fed em seu entendimento das políticas que deveriam fazer. Mas a primeira tem de lutar contra uma economia mais fraca em seus fundamentos subjacentes, história negativa e um contingente muito mais poderoso de falcões monetários. É realmente bastante assustador.

O recente artigo de Robert Draper na The New York Times Magazine sobre a possibilidade de um “momento libertário” atraiu muitos questionamentos sobre as supostas evidências de pesquisas. Como indicou Jonathan Chait, comentarista da revista New York, as pesquisas independentes sugerem que os jovens americanos são na verdade muito mais a favor do governo que os mais velhos.

Mas existe um problema ainda maior: a visão libertária da sociedade que temos de fato tem pouca semelhança com a realidade. Mike Konczal, um membro do Instituto Roosevelt, examinou um exemplo específico: a ideia em moda entre os libertários de que se podem melhorar muito as coisas ao substituir o Estado de Bem-Estar por uma renda básica garantida.

Como escreveu Konczal, essa ideia repousa na crença de que o Estado do Bem-Estar é uma confusão loucamente complexa de programas ineficientes, e que a simplificação economizaria dinheiro suficiente para pagar por subvenções universais que não dependem da situação financeira pessoal nem são condicionadas a infortúnios. Mas o grosso dos gastos do Estado assistencialista vem de um punhado de grandes programas, e estes são razoavelmente eficientes, com baixos custos administrativos.

O custo da burocracia, em geral, é vastamente superestimado. O pagamento de funcionários representa apenas 6% dos gastos federais, exceto defesa, e somente uma fração dessa compensação vai para os burocratas.

Isso vale também para a regulamentação, embora seja mais difícil quantificar. Certamente há regulamentos do governo dispendiosos e desnecessários – mas nem perto de quanto os libertários querem acreditar.

O libertarismo é uma cruzada contra problemas que não temos, ou pelo menos não na medida em que os libertários querem imaginar. Em nenhum lugar isso é mais bem ilustrado do que na política monetária, em que muitos libertários estão decididos a fazer o Federal Reserve parar de imprimir dinheiro de maneira irresponsável – o que ele não está fazendo.

O libertarismo não oferece uma agenda política funcional. Se de algum modo acabássemos tendo um governo libertário, ele rapidamente se veria incapaz de cumprir qualquer de suas promessas. Não estamos prestes a ter um momento libertário nos EUA. E isso é bom.