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Número 813,

Política

Poder

O fim do “inquérito italiano”

por Redação — publicado 19/08/2014 15h19, última modificação 19/08/2014 15h21
Mais uma invencionice de Daniel Dantas, reproduzida no Brasil, é engavetada
Antonio Cruz/ABr
Daniel Dantas

A Justiça italiana mandou arquivar o inquérito que apurava supostos subornos pagos pela Telecom Italia no Brasil

Uma das maiores farsas montadas pelo banqueiro Daniel Dantas caiu definitivamente por terra. A Justiça italiana mandou arquivar em março o inquérito que apurava supostos subornos pagos pela Telecom Italia no Brasil. No auge da disputa pelo controle da telefonia no País e de seus problemas com o Judiciário brasileiro, Dantas evocou a existência de uma investigação italiana sobre pagamento de propina. Na versão do banqueiro, a operadora pagava seu desafeto Luís Roberto Demarco e este distribuía dinheiro a policiais, juízes, políticos e jornalistas. O intuito seria perseguir Dantas e obrigá-lo a sair dos negócios.

O inquérito é surreal em sua essência. São listadas testemunhas inexistentes, locais, fatos e datas errados e documentos irrelevantes. Tudo indica que Dantas aproveitou outra investigação a envolver a Telecom Italia para criar um factoide em Milão e usá-lo no Brasil. Apesar da inconsistência, o banqueiro valeu-se de sua influência para transformar a papelada tosca em um escândalo nacional. Contou com o apoio inestimável de seus assessores de imprensa disfarçados de jornalistas em alguns dos principais jornais, revistas e tevês do País. Nascia o mito do “inquérito italiano”, cantado em verso e prosa.

A pressão da mídia dantesca e o trabalho nos bastidores realizado por seus advogados convenceram desembargadores a solicitar a anexação do tal inquérito em investigações contra o dono do Opportunity. A manobra serviu, no mínimo, para adiar processos em curso que complicariam a vida de DD.

No despacho de março, o juiz Giuseppe Gennari, baseado no parecer da Procuradoria de Milão, mandou arquivar o caso por absoluta falta de provas. A Telecom Italia, reconhece, ajudou Demarco a custear advogados em uma disputa judicial onde ambos enfrentavam Dantas. Tudo legítimo.

O mais impressionante: o banqueiro havia adotado estratégia semelhante no fim dos anos 90 em outra pendenga com Demarco, dessa vez nas Ilhas Cayman. Apoiou-se em papéis furtados e testemunhos falsos. A Justiça de Cayman o obrigou a se retratar, conforme lê-se no documento ao lado. Dantas parece sofrer do vício da impunidade. Um dos sintomas é a obsessiva repetição de manobras fraudulentas.  Pudera: ninguém tem costas tão quentes no Brasil quanto ele.