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Número 812,

Sociedade

Black Bloc

Procura-se Bakunin

por Nirlando Beirão publicado 16/08/2014 08h50, última modificação 16/08/2014 09h03
Quem é o perigoso foragido que faz a cabeça dos black blocs do Rio e mundo afora
Domínio Público

Está coberta de razão a polícia do Rio ao se mobilizar, por determinação judicial, para a captura do suspeito Bakunin, de prenome não sabido e suposta nacionalidade estrangeira, criatura reconhecidamente de alta periculosidade, bastando para isso uma rápida consulta à sua folha corrida de anarquista, inimigo das instituições, da fé e da família, com vasta literatura publicada em prol de seus propósitos subversivos.

Embora não exista registro material, fotográfico ou documental de sua presença efetiva nas recentes ações de baderna, depredação e vandalismo na cidade do Rio ou em outros focos de insurgência no rastilho dos protestos que pipocam no País desde junho do ano passado, o citado Bakunin goza de notória proeminência intelectual entre os militantes do chamado coletivo Black Bloc, sendo sistematicamente citado pelos ditos-cujos nas conversas telefônicas interceptadas pelos afiados ouvidos da Lei. Não cabe às autoridades senão dar fim à nefasta ação desse indigitado elemento. Citado no inquérito de mais de 1,2 mil páginas finalmente liberado para os advogados dos 23 acusados, Bakunin ainda não foi indiciado. Está foragido.

Consta que certo Mikhail Bakunin, de cidadania russa, faleceu em seu exílio em Berna, na Suíça, a 1º de julho de 1876, aos 62 anos, e por lá estaria bem morto e enterrado, mas sempre convém desconfiar das dissimulações e artimanhas desses notórios agentes da desordem. Tal Bakunin se dizia “filósofo”, o que denuncia, obviamente, sua indisposição para o trabalho e para a vida social num quadro de normalidade, como é também o caso, está comprovado nos autos judiciais, de seus discípulos cariocas, mesmo aqueles que se intitulam “advogados” ou “universitários”.

O mencionado Bakunin investiu-se de tamanho menosprezo pelos fundamentos da sociedade que achava meio careta aquele seu contemporâneo alemão igualmente barbudo e pretensamente revolucionário chamado Karl Marx. Se Marx ansiava por transformar o Estado com a energia vital do proletariado, para Bakunin o Estado tinha de ser pura e simplesmente aniquilado (leia quadro).

Como é nas redes sociais que muito da ação política – e também um inútil blá-blá-blá – se desenvolve hoje em dia, seria fatal que esse obscuro episódio viesse a repercutir no Facebook. Um “Bakunin Suspeito” criou seu perfil, anunciando-se, em despiste manhoso, “personagem fictício”. Felizmente as forças da Ordem estão atentas. Apresenta-se assim o personagem: “Sou suspeito de uma acusação no Rio de Janeiro, resolvi fazer melhor que Jesus, estou voltando dos mortos para responder esse pessoal”. Este “Rio de Janeiro” denuncia um forasteiro à Cidade Maravilhosa (lá se diz Rio, simplesmente), a menção ao Cristo só podia vir de um herege e a intenção de provocar a Justiça é cristalina. Até a quarta-feira 6, o perfil já tinha mais de 20 mil likes.

Comentário de uma Regina Cláudia:

– Estou muito emocionada por conhecer você. Parabéns por estar vivo!

Resposta de Bakunin Suspeito:

– Só morro junto com a luta pela liberdade.

Continua a Regina Cláudia:

– Sério, estou honrada. Só não vou conversar muito para evitar que meu nome caia no inquérito. Sabe como é, a Abin tá de olho.

(A Abin, como se sabe, é a agência federal de inteligência, a CIA cabocla.)

Como sempre acontece na web, nem todos internautas souberam respeitar a relevância do episódio. “Bora marcar um chopp!”, propôs uma Simone. “Bakunin Suspeito é russo e não toma chopp, só vodca!”, corrigiu Arthur Buendia. Um Geraldo Garcia decidiu se precaver: “Sei não... pra mim isso é jogada de marketing desse Bakunin para voltar às manchetes. Estava meio esquecido, enterrado até... e agora está na mídia. Daqui a pouco sai candidato ou lança um CD”.

É uma praxe, sabe-se bem, a tentativa de desmoralização da polícia e dos magistrados pelos desordeiros e arruaceiros – sejam estes vivos ou mortos. A propósito das medidas paliativas do golpe de 1964, que alguns mal-intencionados de hoje tentam comparar com as ações de sanitização antibaderna agora empreendidas, vale lembrar que também no passado tentou-se ironizar e ridicularizar a atuação da Lei.

Naquela época da ditadura, procedeu-se à apreensão de farto material subversivo e, entre livros e panfletos, estavam obras como A Capital, de Eça de Queirós, e O Vermelho e o Negro, de Henri-Marie Beyle, vulgo Stendhal. Os eternos insatisfeitos quiseram argumentar que as citadas cores de Stendhal não tinham nada a ver nem com o comunismo nem com a anarquia, seriam meras citações simbólicas de um ficcionista. Alegou-se, outrossim, que o livro de Eça teria sido confundido com a obra quase homônima, não fosse pelo artigo, do comunista Marx. Pode ser, mas também pode não ser. A polícia está certa. Melhor prevenir do que remediar.

Faz todo sentido, portanto, que os recentes procedimentos de busca e apreensão nas casas dos supostos discípulos do suspeito Bakunin, no Rio, não tenham poupado o saca-rolha do Felipe Carvalho, o grampeador e a bandana do Nirvana da advogada Eloisa Samy, o protetor bucal e o caderno da Galinha Pintadinha da militante Elisa Quadros, aliás Sininho.

Quanto ao assinalado Bakunin, sua eventual captura pela polícia carioca não será o pior a lhe acontecer. Muito mais nefando seria a possibilidade de ele vir a ser levado realmente a sério pelo esquadrão insurreto da Sininho – que, aliás, detesta ser chamada de Sininho. Os frangotes e as lolitas black blocs estão tão absorvidos com suas próprias façanhas e tão excitados com a certeza de revolucionar o mundo, que não têm tempo nem alcance para entender o que o referido Bakunin teria a lhes ensinar. Como diria o próprio Bakunin, no seu patois de exilado, une occasion manquée.