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Número 812,

Sociedade

Olimpíadas 2016

No COB, Nuzman adota o estilo Havelange

por Rodrigo Martins, Samantha Maia — publicado 21/08/2014 04h37
Há 19 anos o cartola se agarra ao poder no Comitê Olímpico Brasileiro, da mesma forma como fez o amigo João Havelange, ex-presidente da Fifa
Alex Ferro/ Rio 2016
Carlos Arthur Nuzman

Ninguém tem coragem de enfrentar Carlos Arthur Nuzman, o dono dos esportes olímpicos

Faltam dois anos para as Olimpíadas e as autoridades celebraram o fato de a maior parte dos projetos estar licitada ou em andamento. O otimismo permeou as declarações dos principais atores envolvidos na organização do megaevento, a começar por Carlos Arthur Nuzman, entronizado na chefia do Comitê Olímpico Brasileiro há 19 anos. “Tenho orgulho de ver que podemos construir o maior e mais complexo evento da humanidade”, discursou na segunda-feira 4. Recebeu um efusivo elogio de Gilbert Felli, diretor-executivo do Comitê Olímpico Internacional: “Neste momento, as expectativas aumentam, mas vemos que o trabalho está sendo realizado e estou confiante”.

Nem parece que, há apenas quatro meses, o vice-presidente do COI, John Coates, vislumbrava a pior experiência de organização da história das Olimpíadas. Rumores de uma possível troca da cidade-sede ganharam asas na mídia internacional. De acordo com os dados oficiais, 71% das instalações para os Jogos estão licitadas, um investimento de 6,5 bilhões de reais, 4,2 bilhões privados. Os prazos de conclusão deixam, porém, margem de erro mínima. Entre as obras pendentes, destacam-se as estruturas usadas nos Jogos Pan-Americanos de 2007, como o Estádio Olímpico João Havelange (que não se perca pelo nome), o Engenhão, e o Parque Aquático Maria Lenk.

Escaldados pelas críticas sobre o aumento de gastos no Pan e na Copa do Mundo em relação ao previsto inicialmente, os organizadores das Olimpíadas divulgam apenas os preços de contratos assinados. A cautela é compreensível. Orçado em 390 milhões de reais, o Pan custou aos cofres públicos a exorbitante cifra de 3,3 bilhões, e até hoje os processos por desvios e superfaturamento correm nos tribunais.

Assim como o Pan, a organização da Rio 2016 foi confiada a Nuzman, à frente do COB desde 1995. Formado em Direito, ele foi jogador da seleção brasileira de vôlei de 1962 a 1968. Pouco depois, em 1975, elegeu-se presidente da Confederação Brasileira de Voleibol. Agarrou-se ao cargo por duas décadas. Nuzman aproximou o marketing ao esporte, e com esse capital conseguiu conquistar importantes vitórias na modalidade. Foi com essa fama que chegou à chefia do COB, e lá se mantém há 19 anos, a despeito do pífio desempenho do País nos últimas Olimpíadas.

Em outubro de 2012, o cartola conquistou o quinto mandato consecutivo. Como de praxe, não enfrentou nenhum concorrente. A chapa única só recebeu voto contrário do presidente da Confederação Brasileira de Desportos no Gelo, Erick Maleson. Ele tentou articular uma candidatura de oposição, mas diz que mesmo os dirigentes insatisfeitos se calam, por medo de retaliações. O estatuto do comitê nacional favorece a perpetuação de quem está no poder. É criação de Nuzman uma cláusula a exigir que qualquer candidato à presidência do COB esteja há pelo menos cinco anos na entidade.

À frente do comitê olímpico, Nuzman exerce um modelo de gestão semelhante ao do amigo Havelange, que ditou os rumos do futebol mundial e nativo por quatro décadas, até ser flagrado num multimilionário esquema de corrupção desbaratado por um tribunal suíço. Amigos e familiares têm sempre preferência em seus nebulosos negócios. Em 2004, a delegação brasileira nas Olimpíadas de Atenas usou uniformes assinados pela estilista Mônica Conceição, cunhada de Nuzman. No Pan de 2007, a Ticketronics foi selecionada para vender os ingressos da competição. Por trás da empresa, estava o empresário Alexandre Accioly, sócio em outra firma do então diretor-técnico do COB, Marcus Vinícius Freire. O diretor-geral de Operações do Comitê Organizador Rio 2016, Leonardo Gryner, é antigo parceiro de negócios, que assinou contratos de prestação de serviços de marketing com o comitê olímpico no passado.

Desde 2007, arrasta-se um inquérito civil no Ministério Público do Rio de Janeiro para apurar como o Pan ficou quase dez vezes mais caro que o previsto. “Houve muitos créditos suplementares, sem nenhum imprevisto que justificasse tanta mudança. Isso costuma ocorrer quando os projetos básicos são falhos ou deficientes”, afirma a promotora Patrícia do Couto Villela. “A qualidade das obras também deixou muito a desejar, como se pode ver no caso do Engenhão.”

O estádio olímpico foi licitado, em 2003, por 87,3 milhões de reais. Com os numerosos aditivos e contratos de complementação das obras, foi entregue ao custo de 396 milhões. O gasto mais de quatro vezes superior ao orçamento inicial não assegurou a qualidade da edificação. Em março de 2013, com apenas seis anos de uso, foi interditado. A cobertura do estádio ameaçava ruir em caso de ventos fortes.

As obras de reforço da estrutura, custeadas pelo consórcio responsável pela construção do estádio, devem terminar no fim deste ano. Para os Jogos Olímpicos, o Engenhão receberá mais 15 mil assentos provisórios pagos pela prefeitura.

Outro “legado” do Pan é o Parque Aquático Maria Lenk, investimento de 85 milhões de reais, quase o dobro do previsto. Subutilizada após o fim torneio, a instalação será fechada para reformas de adaptação, a fim de receber as competições em 2016. A previsão é de que as obras sejam iniciadas no final do ano.

No Complexo do Maracanã, outro foco de apreensão. Para o Pan de 2007, suas instalações passaram por uma reforma de 304 milhões de reais. Somente o estádio de futebol consumiu mais 1,2 bilhão de reais nos preparativos da Copa do Mundo. Agora, o ginásio do Maracanãzinho e o Parque Aquático Júlio Delamare terão que passar por novas adaptações para 2016. Será a terceira grande reforma do complexo em menos de uma década.

Os exemplos de desperdício não param por aí. O Velódromo construído por 14 milhões de reais para o Pan foi desativado. Outro está em construção no Parque Olímpico da Barra por 113 milhões de reais, com previsão de entrega para o fim de 2015.

“Parte da estrutura do Pan será usada para a Olimpíada, mas nunca foi pela população. O Maria Lenk permaneceu todo esse tempo subutilizado, sem abrir as portas à comunidade. O velódromo foi demolido. O Engenhão está interditado”, enumera o deputado estadual Marcelo Freixo, do PSOL. “Como o Brasil pretende se tornar uma potência olímpica dessa forma? A maioria das escolas públicas nem sequer tem quadras esportivas.”

O nebuloso histórico do Pan alimenta as desconfianças. “Como acreditar que as coisas serão diferentes, se as pessoas
que estão organizando as Olimpíadas são as mesmas?”, indaga o jornalista Juca Kfouri, um dos principais críticos da farra dos cartolas com dinheiro público. “Antes do Pan, prometeram despoluir a Baía de Guanabara e a Lagoa Rodrigo de Freitas. Nada foi feito. Falaram sobre uma nova linha de metrô. Depois desconversaram, valendo-se do argumento de que a Organização Desportiva Pan-Americana não exigia legado de mobilidade.”

Agora, as autoridades insistem que o cenário é diferente. Estão previstos 24 bilhões de reais para mobilidade urbana, saneamento, controle de enchentes e despoluição da Baía de Guanabara e da Lagoa de Jacarepaguá. Dois corredores de ônibus de alta performance foram inaugurados na cidade, o TransOeste e o TransCarioca, um total de 95 quilômetros. Um terceiro, batizado como TransOlímpica, ligará os dois principais polos de competições, Deodoro e Barra, deve ser entregue até o primeiro semestre de 2016. A Linha 4 do metrô, por sua vez, ligará a zona sul à Barra da Tijuca ao custo de 8,79 bilhões de reais.

São inegáveis os benefícios. Mas as intervenções têm sido criticadas por quem as entende como um aprofundamento das desigualdades sociais na cidade e na região metropolitana. “Há uma evidente concentração de investimentos na zona sul, na Barra da Tijuca e na Zona Portuária”, critica Orlando dos Santos Júnior, pesquisador do Observatório das Metrópoles, ligado à UFRJ.

A prefeitura do Rio lançou mão de uma Parceria Público-Privada para revitalizar sua zona portuária. Após a demolição do horrendo viaduto da Perimetral, a meta é construir 4 quilômetros de túneis e abrir uma via expressa às margens da Baía de Guanabara. Para viabilizar as obras, Paes leiloou Certificados de Potencial Adicional de Construção, que permitem a verticalização dos edifícios na região. A Caixa Econômica Federal arrematou o lote por 3,5 bilhões de reais e passou a revendê-los. Além de atrair negócios, diz o prefeito Eduardo Paes, a obra vai ampliar a oferta de moradias.

“O problema é que, até agora, só se fala em escritórios luxuosos e apartamentos de alto padrão”, diz o urbanista Orlando Júnior. De fato, um dos primeiros negócios foi firmado com a multinacional Tishman Speyer, que pretende erguer duas torres comerciais. O Centro e a zona portuária têm menos de 300 mil habitantes, 5% da população da cidade, mas concentra quase 40% das oportunidades de emprego.

A criação de uma nova centralidade na Barra também é controversa. Com a abertura das vias expressas na zona oeste, a tendência é de expansão da mancha urbana. Embora a cidade cresça menos de 0,8% por ano, entre 2000 e 2010, a população da Barra da Tijuca cresceu 47,4%, segundo o IBGE. O mesmo ocorreu em bairros próximos, como Recreio dos Bandeirantes (118,9%) e Jacarepaguá (56%).

A despeito das evidências, Paes refuta a tese de que as obras olímpicas favorecem aos grandes investidores imobiliá-
rios. “Tem de ter muito pouco conhecimento da geografia da cidade para achar que os investimentos não beneficiam as áreas mais pobres.”

Outro tema que tira o gestor do prumo são as remoções por conta de obras ligadas aos megaeventos esportivos. O Comitê Popular da Copa e das Olimpíadas estima que 3 mil famílias foram removidas, mas a prefeitura só reconhece as 600 que estão sendo retiradas da Vila Autódromo, vizinha ao novo Parque Olímpico. Os demais, diz Paes, foram realocados por viver em áreas de risco ou em decorrência de obras de mobilidade. Boa parte dessas famílias acabou assentada em bairros da zona oeste. Algumas unidades habitacionais foram construídas em áreas dominadas por milícias. Mas muitos resistem à ideia de mudar para um apartamento do programa Minha Casa, Minha Vida ou questionam as indenizações oferecidas pela prefeitura.

“Não faz sentido nos tirar daqui, não estamos no caminho das instalações esportivas”, queixa-se a diarista Maria da Penha Macena, de 49 anos, que migrou da Paraíba com a família na infância. Ela morou por 20 anos na favela da Rocinha, até conseguir comprar um terreno na Vila Autódromo, às margens da Lagoa de Jacarepaguá. “Eles só querem remover a vizinhança humilde da Barra. As Olimpíadas não passam de um pretexto.”

*Reportagem publicada originalmente na edição 812 de CartaCapital com o título "E o ouro fica com Nuzman"