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Número 812,

Cultura

Literatura

George Packer, ao vivo do caos

por Francisco Quinteiro PIres — publicado 18/08/2014 04h08
O jornalista George Packer mostra como ao longo de 30 anos o patrimonialismo suplantou a meritocracia nos EUA
George Packer

George Packer se moveu para relatar as desigualdades nas vidas comuns

O autor de Desagregação – Por dentro de uma nova América é um jornalista que evita mídias sociais e smartphones. Alega ter medo de tornar-se um viciado em informação e, à semelhança de um dependente de crack, adiar atividades fundamentais, como alimentar o próprio filho. Para entender a realidade, ele precisa estar disponível, sua capacidade de concentração não pode ser tragada por horas dedicadas à verificação de e-mails ou à visita a sites como o Twitter. Quando viaja e fica sem acesso à internet, prefere telefonar para a esposa, a quem pede para conferir o correio eletrônico. Ele entende que os jornalistas correm o risco de substituir a leitura de obras fundamentais pelas fofocas abundantes em circulação na rede mundial de computadores.

Esse comportamento permitiu a George Packer escrever Desagregação, um painel social e econômico dos Estados Unidos das últimas três décadas, contemplado com o prestigioso National Book Award de melhor livro de não ficção de 2013. Repórter da revista The New Yorker, Packer é opositor do jornalismo preguiçoso. Ele desconfia da reportagem que apresenta um falso equilíbrio e evita conclusões sobre os fatos, por mais claras que sejam. A seu ver, o país onde nasceu tem se tornado desigual por obra de uma elite cada vez mais irresponsável. A plutocracia e o patrimonialismo suplantaram o exercício da meritocracia. Uma de suas tarefas como jornalista seria entender o impacto desse fenômeno no cotidiano de pessoas comuns.

“Durante a cobertura jornalística da crise financeira e imobiliária de 2008, os relatos mais importantes se referiam aos indivíduos que ocupavam o topo, como os banqueiros e os executivos. Movidos pela ideia de que os bancos eram muito grandes para falir: se quebrassem, abalariam a economia de maneira irreversível, os autores de livros e reportagens esqueceram os proprietários que perderam casas e as famílias que se tornaram sem-teto”, diz Packer a CartaCapital. “Para contar as histórias, exigia-se a presença de celebridades.”

Packer dá uma pista sobre quem são as vítimas da crise quando compara os indivíduos por ele entrevistados para redigir Desagregação a personagens do escritor Raymond Carver. Os contos de Carver, escreve o jornalista, “tratam de pessoas sem sucesso”, representantes de uma classe assalariada empobrecida e acuada. Em uma entrevista, o contista norte-americano ofereceu sua visão a respeito dos seres presentes na sua obra. “A maioria dos meus personagens gostaria que suas ações tivessem algum peso. Ao mesmo tempo, eles chegaram a uma situação, como muitos outros, em que sabem que não têm nenhum poder. As coisas antes tratadas como importantes ou pelas quais se aceitava morrer não valem agora nem um centavo. É em relação às suas próprias vidas que eles sentem frustração, vidas que testemunham o desmoronamento. Querem acertar as coisas, mas não são capazes.”

Desagregação (Companhia das Letras, tradução de Pedro Maia Soares) revela a história de um país cujas instituições se corromperam. Não por acaso, a edição norte-americana reproduz na capa uma bandeira dos EUA em decomposição pintada pelo artista Jasper Johns. A brasileira exibe na parte frontal uma fotografia colorida de um acidente automobilístico tirada por William Eggleston. Em ambas, a sugestão é de que o sonho norte-americano se transformou em uma tragédia de difícil assimilação.

“Uma explicação simples para o que ocorreu com a América seria a seguinte: os financistas tornaram-se todo-poderosos e, com isso, os cidadãos ficaram impotentes”, diz Packer. O repórter marca como o início do declínio a primeira posse do presidente Ronald Reagan, em 1981, e a onda conservadora gerada pelo político. Um republicano tido como “moderado” diante da atual polarização do cenário político dos EUA, Reagan foi, acredita Packer, “o presidente mais influente” das últimas cinco décadas ao ter defendido o excepcionalismo norte-americano e a diminuição do papel do Estado na vida dos indivíduos.

Durante os dois mandatos de Reagan, os efeitos da desindustrialização, como o aumento do desemprego e o encolhimento dos salários, fizeram-se sentir. Os norte-americanos, porém, demoraram a notar a corrosão de um estilo de vida celebrado desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Packer afirma que a aceitação da falência de certas promessas é contrária aos hábitos mentais da América. “Os integrantes da classe média nunca esperam que a situação interna do país lhes seja desfavorável. Eles acreditam com inocência nas instituições e têm um respeito irrestrito pela autoridade. Daí ser lenta a tomada de consciência sobre um establishment injusto.”

Os presidentes Clinton e Reagan que corroeram o modo de vida conhecido desde o pós-guerra

Dois eventos políticos recentes, segundo Packer, abalaram essa passividade. O movimento Occupy Wall Street e o aparecimento do Tea Party mostram que parte da população norte-americana se arriscou a protestar contra as condições do país. “Guardadas as diferenças, eles miraram a elite. O primeiro reclamou da concentração de renda e enfatizou o conflito entre o 1% e os 99%. O segundo tem criticado o que considera a atuação indevida do Estado e alega serem integrantes progressistas do governo os responsáveis pelo rebaixamento da qualidade de vida.”

De acordo com Packer, os conservadores radicais do Tea Party surgem em um ambiente disfuncional, cujo representante maior é Newt Gingrich. Quando se elegeu para o Congresso pela primeira vez, em 1979, Gingrich antecipou uma atitude hoje habitual. “Ele adora contaminar o ar com retórica. Ele atua para aniquilar projetos, não para oferecer novas ideias.” Gingrich parece mais um palestrante motivacional que vingou em uma atmosfera política marcada pelo lobismo crescente e por doações de campanha multimilionárias. O povo exibe um desprezo difuso pelo poder em Washington, D.C., porque o governo teria se corrompido nas mãos de ideólogos desdenhosos de instituições voltadas para o interesse geral dos cidadãos.

Gingrich é um dos integrantes da elite apresentados por Packer em Desagregação. O jornalista alterna breves perfis biográficos de gente comum e de poderosos. Dean Price, dono de um posto de gasolina à beira da falência no Sul, e Tammy Thomas, operária afro-americana de Youngstown nascida numa família problemática, dividem espaço com o rapper bilionário Jay-Z e o executivo Robert Rubin. Enquanto exercia o cargo de secretário do Tesouro do governo de Bill Clinton nos anos 1990, Rubin articulou a desregulação do mercado financeiro causadora da crise de 2008.

A estrutura narrativa de Desagregação assemelha-se à da trilogia U.S.A., de John Dos Passos. Nos romances Paralelo 42 (1930), 1919 (1932) e O Grande Capital (1936), todos publicados pela editora Benvirá, Dos Passos descreveu a luta de classes que marcou a vida dos vencedores e dos perdedores do capitalismo nos EUA das primeiras três décadas do século XX. Sua obra foi tratada como antiamericana, saiu de catálogo e raramente era ensinada em cursos de Literatura a partir dos anos 1940. “Embora pertença com Hemingway, Fitzgerald e Faulkner ao grupo dos quatro grandes escritores da primeira metade do século passado, Dos Passos não chegou tão bem aos dias de hoje.”

Quando Dos Passos publicou a trilogia U.S.A, os EUA sofriam as graves consequências da Grande Depressão iniciada no fim dos anos 1920. Na década seguinte, terminada a Segunda Guerra Mundial, os norte-americanos enredaram-se na promoção de um otimismo fanatizador em relação ao progresso socioeconômico da nação. A causa do fracasso se originaria no indivíduo e não no país. Por isso, mostra Packer em Desagregação, é mais fácil atualmente um cidadão culpar-se quando as coisas vão mal do que protestar contra uma elite que tem tornado o sonho norte-americano uma possibilidade pertencente a um passado cada vez mais remoto.

*Reportagem publicada originalmente na edição 812 de CartaCapital com o título "Ao vivo do caos"

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