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Número 812,

Cultura

Literatura

Jerusa Pires Ferreira traça o caminho do conto russo ao cordel

por Alvaro Machado — publicado 10/09/2014 18h02
Professora reúne traduções inéditas, em prosa, dos poemas 'O Czar Saltan' e 'O Trovador Kerib'
Gustavo Lourenção

A vasta rússia também abriga sertões, agrestes “a combinar encantamento e horror”, na expressão da baiana Jerusa Pires Ferreira, que percorreu essas plagas para inteirar-se de detalhes de sua rica literatura e desvendar um enigma: por que o sertanejo do Nordeste brasileiro identifica-se às histórias russas a ponto de recontá-las e adaptá-las com tanto esmero em sua tradição oral e publicações populares desde os anos 1950?

Em linguagem quase antiacadêmica, clara e saborosa, como se retraçasse o voo de uma maravilhosa fênix caucasiana até o pouso em cajueiro do Sergipe, as respostas estão no mais recente livro da autora, professora e tradutora, Matrizes Impressas do Oral – Conto Russo no Sertão. “É o resultado de meus interesses da vida inteira, pois nunca mudei de personalidade e segui o caminho que a vida cedo indicou.” Guarnecido de fac-símiles de folhetos de cordel, xilogravuras e ilustrações, tanto garimpadas como novas (de Tainá Nunes da Costa), o volume surge com traduções inéditas, em prosa, dos poemas O Czar Saltan (recolhido por Aleksandr Púchkin) e O Trovador Kerib (de Mikhail Lérmontov), assinadas pelo consorte da pesquisadora de 76 anos, o venerável professor Boris Schnaiderman.

Aos 97 anos, o criador do Departamento de Russo da USP traduz com estilo inimitável: “Três donzelas à janela teciam de noitinha já mais tarde”, reza a abertura de Saltan. O ucraniano e a baiana uniram-se legalmente em 1986, após uma década de colaborações universitárias. “Ao fazer o doutorado em São Paulo, me disseram que somente uma pessoa poderia conversar sobre as coisas que eu estudava. Fui à sua casa e na mesma hora ele determinou a procedência das estranhas histórias de cordel que eu levava.”

Era 1978, e Boris mapeou o Cáucaso para que Jerusa refizesse caminhos percorridos 200 anos antes pelo poeta nacional da Rússia, Púchkin. Qualifica-se, porém, “peregrina desde criança”, em busca dos temas que sempre a fascinaram: “Eu me chamo Sertão e mundo.” Na década de 1950, a tradicional sociedade baiana, no entanto, não admitia esse tipo de saídas. “Fui proibida de estudar aos 19 anos, quando me casei e tive dois filhos seguidos.” A “adoração pelos livros e pelas formas” não esmoreceu. “Passava os domingos estudando latim e gramática comparativa com professora particular.”

A Escola de Música da Universidade Federal da Bahia, próxima à sua casa e onde pontificavam Hans-Joachim Koellreut-
ter e Walter Smetak, fortalecia, por outro lado, a paixão pela música, que ela ainda cultiva ao piano e à guitarra antiga. Não poderia perder, assim, a chance de carona com o marido engenheiro durante bolsa de estudos em Lisboa e, com 22 anos, foi sentar-se, sem matrícula formal, em frente dos “maiores mestres portugueses do século passado”, quando entendeu de fato “a natureza das transições entre Idade Média, Renascimento e Barroco”. A “clandestinidade intelectual”, como define, foi consolidada formalmente em 1975, em Urbino, Itália, após a conclusão de curso de Letras, em Salvador, e a separação do primeiro marido.

Em estágio no Centro Internazionale Scienze Semiotiche, conviveu com o filósofo francês Jean-François Lyotard e outros grandes teóricos, russos e europeus. “Também me embebi da obra dos pintores nascidos naquela comuna amuralhada, Rafael Sanzio, Paolo Uccello e Piero della Francesca, e descobri uma coisa maravilhosa chamada Semiótica da Cultura, pela qual optei e na qual permaneço.” A disciplina franqueou-lhe “outros fluxos de conhecimento” e, em 1977, conheceu, em São Paulo, o linguista suíço-canadense Paul Zumthor, do qual viria a traduzir quase toda a obra ensaística, o que tomou boa parte de sua trajetória de estudos e ainda lhe ocupa tempo considerável.

“Quando o conheci, ele tinha idade para ser meu pai, pois em 2015 completaria 100 anos. Nos tornamos amigos-irmãos. Reconheci imediatamente aquela atitude de anular a hierarquia desagradável entre popular e erudito e passei, como ele, a transversalizar. Zumthor pensava a literatura medieval em termos de gesto e de corpo e, por isso, sofreu muitas restrições dos eruditos.”

Traduzidas por Jerusa, obras como A Letra e a Voz e Performance, Recepção e Leitura alimentam, cada vez mais, bibliografias de cursos de artes cênicas. “Ele veio ao Brasil conhecer a pessoa com a qual se correspondia e esperava encontrar um rapaz, considerando Jerusa algo como o nome judeu Gersha. Gostava de rock e, numa das visitas ao País, conheceu Caetano e Gil na casa de Haroldo e Augusto de Campos.” Ao visitar a fazenda da família Pires Ferreira, em Feira de Santana, o intelectual “logo identificou os latifúndios nordestinos à organização social do Medievo europeu”.

A percepção do linguista perfaz uma das respostas possíveis à questão da aproximação entre as culturas russa e nordestina levantada por Matrizes Impressas. De outro lado estão impressos que maravilharam gerações de leitores a partir de 1950: “As edições ilustradas dos ‘mais belos contos’ russos, poloneses etc. transitaram mais tarde também em volumes populares, de selos como Avec e Quaresma, e o poeta de cordel as apanhou e recriou”, explica Jerusa. A essa “arquimatriz do saber universal” a professora tem se dedicado, a alimentar, ainda, “adesão integral à universalidade”, inaugurada com o aprendizado, aos 15 anos, da primeira língua estrangeira, o alemão. O idioma rende trabalhos como a compilação comentada da tipologia faustiana na literatura mundial, a surgir em livro. Temas de seu pós-doutorado, as obras derivadas do personagem tomam um quarto inteiro nos fundos de seu apartamento, no bairro paulistano de Higienópolis: “O Fausto mora aí atrás”.

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