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Cultura

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O inglês John Oliver torna-se o novo astro da sátira

por The Observer — publicado 15/09/2014 03h54
Em sua série na HBO, comediante dá uma nova direção, mais agressiva, ao humor voltado à política nos EUA
Wikimedia communs

*Por Edward Helmore

Primeiro foi o ex-diretor da Agência Nacional de Segurança, o general Keith Alexander. Perguntaram-lhe se apoiaria a mudança do nome e logotipo da agência para Mr. Tiggles, um filhote de gato de aparência adorável. Depois veio a General Motors, criticada por pôr em risco os clientes. E se seguiram a idiotice de negar a mudança climática, a pena de morte, a neutralidade na internet (o princípio de que todos os dados na rede devem ser tratados igualmente), o amor do ditador sírio Bashar al-Assad pela canção I’m too Sexy, de Right Said Fred, e em junho, antes do início da Copa, uma arenga de 12 minutos sobre a Fifa, chamando-a de “maligna como uma charge” e comparando-a a um videoclipe de virar o estômago, Two Girls One Cup.

A HBO lançou Last Week Tonight, com John Oliver, e a cada edição do programa, no domingo à noite, o comediante de 37 anos, nascido em Birmingham, Inglaterra, criado em Bedford, educado em Cambridge e que fez nome no The Daily Show com Jon Stewart, tornou-se mais conhecido como o astro da contracultura na tevê. Os amigos o definem como um brincalhão, mas talvez seja mais que isso. Analistas falam sobre uma nova direção, mais agressiva, para a sátira política nos EUA. No início de junho, Oliver convidou os espectadores a registrar sua oposição a uma internet em duas velocidades, que permitiria uma velocidade maior para certos usuários na Comissão Federal de Comunicações. Na manhã seguinte, o site da comissão ficou sobrecarregado de tráfego e travou.

O sucesso notável de Oliver contraria as tendências recentes. Depois que o ex-editor de tabloides Piers Morgan foi demitido da CNN, houve advertências de que a mídia dos Estados Unidos estava intoxicada de sotaques britânicos e supostos esnobismos. Mas a autodepreciação de Oliver é desarmante e lhe cai bem. Quatro milhões de espectadores sintonizam o programa toda semana e mais 2 milhões o assistem online no dia seguinte.

“Não travamos o site deles, essa é uma acusação terrível”, disse Oliver ao âncora da CBS Charlie Rose. “Apenas orientamos os espectadores para o site e lhes dissemos por que deveriam estar irritados com ele, e eles foram em manadas.” Oliver afirma que o programa é uma obra em progresso, os redatores ainda não decidiram por um formato. Mas a ideia básica está definida: pegar temas do noticiário da semana e transformá-los em comédia de propaganda política, cuja única agenda é o riso.

“Não é de surpreender”, diz um executivo de tevê. “Ele tem um dom tradicional de inglês para dizer aos americanos o que devem fazer.” Mas para muitos espectadores é a disposição de Oliver a forçar os limites o que o diferencia dos analistas políticos. “Ele oferece um apelo explícito à ação que é único”, diz Dannagal Young, professora de sátira e psicologia de humor político na Universidade de Delaware. “Ele interage com um tema, não se limita a comentar ou emitir um julgamento amplo.”

Young diz que os satiristas contemporâneos relutam em comprometer sua posição como forasteiros. A sátira política, indica, é uma arte tradicionalmente situada fora do espectro político. Mas ela diz que a esquerda fica frustrada com satiristas como Stephen Colbert e (o ex-chefe de Oliver) Jon Stewart, adeptos de identificar problemas, mas que raramente entram em confusão.

Há quatro anos, Colbert e Stewart apresentaram o Rally to Restore Sanity (Chamado à Restauração da Sanidade), que atraiu 250 mil espectadores ao Mall, em Washington. Mas, onde locutores de rádio de direita, provavelmente, usariam o palco para a ação política de base, os dois âncoras passaram. “Foi realmente apenas um festival de música e comédia”, diz Young. “Os espectadores ficaram frustrados. Queriam ser chamados para fazer alguma coisa. Stewart e Colbert haviam usado algo que desejavam intensamente, uma voz da razão, falar a verdade para o poder, mas sem serem solicitados a fazer algo, sentiram-se em suspenso.”

Com um percurso profissional caracterizado por um timing eficaz, Oliver chegou à HBO depois de sete anos no Daily Show, que incluíram três meses no lugar de Stewart como âncora no último verão. “Ele aprendeu no colo de Stewart”, diz o executivo de tevê. “Oliver é um pouco mais malicioso, um piadista que gosta de usar sua posição privilegiada para conduzir o público à bandalheira.” O desempenho de Oliver como âncora impressionou tanto os chefes da HBO que lhe ofereceram um horário (depois de Game of Thrones) sem as restrições de conteúdo, geralmente adotadas na tevê.

Last Week Tonight tornou a tevê tão surreal que só se classifica como comédia. Oliver poderia conseguir ainda mais, não somente por estar na HBO, mas por, como estrangeiro, não ser considerado de esquerda ou de direita. A jocosidade de Oliver lhe dá licença para criticar o que em apresentadores como Bill Maher ou Piers Morgan passa como agressivo, predicatório ou tão dirigido politicamente a ponto de defender uma ou outra causa. “Faz parte de sua força”, diz Young. “Ele não provoca reações ideológicas imediatas. Ele trata de indivíduos e poder, não de política. Sua força está na capacidade de ser brincalhão, de fazer o cidadão sentir-se inteligente, chamar atenção para coisas que talvez não tenha notado e lhe dar crédito por isso.”

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