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Número 810,

Saúde

Entrevista

Vencer o câncer, preservar a voz

por Riad Younes publicado 31/07/2014 02h42
Tratamentos que aliam radioterapia e quimioterapia têm reduzido a necessidade de cirurgias na garganta
Fernado Maluf

O oncologista Fernando Maluf, um dos maiores especialistas na área, afirma: há novas drogas mais eficazes e modos mais efetivos de tratar tumores na garganta

Quando foi diagnosticado com câncer na garganta, o presidente Lula teve precocemente decretada sua aposentadoria como orador. Sua voz, seus discursos famosos seriam coisas do passado. Anos depois, Lula está mais saudável que nunca e faz discursos por toda a parte. Recentemente, o tratamento de câncer da região de cabeça e pescoço teve mudanças drásticas, com menor agressividade e mutilação associadas a maior eficiência. A experiência nacional com esse tipo de tumor é uma das maiores do mundo. O doutor Fernando Maluf, oncologista do Hospital São José, é considerado um dos maiores especialistas da área. Ele presidirá a sessão do Congresso Americano de Cabeça e Pescoço, em Nova York, dedicada ao tratamento e à cura dos pacientes com câncer, sem cirurgia, preservando o órgão, a voz e a qualidade de vida. Conversamos com o doutor a respeito.

CartaCapital: Esse tipo de câncer é bastante comum?

Fernando Maluf: Muito comum, representa o terceiro tumor mais comum em países subdesenvolvidos. E os cânceres de laringe são um dos tumores mais frequentes dessa região.

CC: E quais seriam as principais causas desse fenômeno?

FM: O tabagismo e o álcool são os grandes responsáveis pela maioria dos tumores de cabeça e pescoço, especialmente quando associados. Aí o risco de desenvolver um câncer de laringe, por exemplo, é de 40 a 100 vezes maior. Poluição e infecções pelo vírus HPV também podem contribuir para o aparecimento do câncer de laringe.

CC: No Brasil, os pacientes são diagnosticados com doença em fase precoce?

FM: Infelizmente, não. Pelo menos um, em cada dois pacientes, é diagnosticado com a doença já avançada, tanto no local inicial do câncer como por metástases nos gânglios da região do pescoço.

CC: Como se trata um câncer em situação tão avançada?

FM: O tratamento mais tradicional era a cirurgia, que, no caso dos tumores de laringe, chama-se laringectomia total. O objetivo, claro, é a cura, mas existe por parte dos pacientes grande temor, pois a remoção da laringe implica uma série de consequências. O paciente tem de utilizar a traqueostomia, um orifício na região anterior da garganta, visível aos olhos de todos e que causa um impacto importante na qualidade de vida, afetando a estética e a funcionalidade. Tais pacientes comumente se queixam de alteração da capacidade de se comunicar, na voz, metálica, na deglutição e na interação social.

CC: A medicina avançou nos últimos anos?

FM: Muito. Nas últimas duas décadas, os tratamentos que incorporaram a quimioterapia associada à radioterapia modificaram esse cenário. As chances de cura se tornaram similares entre pacientes tratados com quimioterapia e radioterapia e os operados. Um grande número de estudos comprovou esses resultados e desenvolveram protocolos mais eficazes. Há novas drogas quimioterápicas mais eficazes e modos mais efetivos de combiná-las à tecnologia avançada da radioterapia moderna.

CC: Qual é a eficiência desse tipo de tratamento?

FM: Estudos recentes, com seleção rigorosa dos candidatos, demonstram que mais de 70% a 80% dos pacientes têm seu tumor erradicado sem a necessidade
de cirurgia.

CC: Esses tratamentos são bem tolerados pelos pacientes?

FM: É importante alertar que os tratamentos com quimioterapia e radioterapia têm efeitos colaterais, podendo ser bastante intensos, como a inflamação das mucosas da cavidade oral e garganta e a irritação da pele. Além disso, esses tratamentos devem ser feitos em centros especializados com equipes multidisciplinares e acesso à tecnologia moderna.

CC: Avanços interessantes para os portadores desses tumores graves...

FM: Sem dúvida. Os pacientes com tumores de cabeça e pescoço apresentam hoje um horizonte mais esperançoso do que o vislumbrado no passado. Em razão da complexidade desses tratamentos, os pacientes devem procurar centros de excelência para que a missão de ter o tumor erradicado, sem cirurgia ou mutilação, seja conquistada com poucos efeitos colaterais. Curar sem mutilar hoje é, felizmente, possível para pacientes com câncer avançado de laringe.

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