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Número 810,

Internacional

Entrevista

O genocídio negado

por Gianni Carta publicado 28/07/2014 04h18
Magid Shihade, professor da universidade de Birzeit, na Cisjordânia, sustenta que os palestinos nada têm a ver com o holocausto porque são os europeus que devem pagar por esta tragédia
Magid Shihade

"A comunidade internacional não dirá que Israel está cometendo genocídio, embora esteja" diz o professor da Universidade de Birzeit, Magid Shihade

Magid Shihade, professor de Relações Internacionais da Universidade de Birzeit, na Cisjordânia, atualmente a lecionar sobre Oriente Médio e Ásia do Sul na Univerdaide da Califórnia, em Davis, vê as negociações de paz entre Israel e Palestina com ceticismo. Para o acadêmico, Israel fará o possível para impedir a existência do Estado da Palestina. E o Hamas será colocado à deriva pelo Egito. Shihade aplica uma tese já defendida no seu úlitimo livro, No Just a Soccer Game. “O Estado israelense é um Estado colonial judeu voltado a afirmar a supremacia racial”, diz. E, neste caso, aliado ao Egito, com o qual mantém relações desde 1979.

CartaCapital: A chamada “comunidade internacional” diz que Israel vai bem.

Magid Shihade: Essa “comunidade internacional” é um jargão enganoso.  Ela decide termos como “genocídio”. E não dirá que Israel está a cometer genocídio contra os palestinos, embora esteja.

CC: Israelenses como Benjamin Netanyahu e outros de seu governo, como o ministro do Exterior, Avigdor Lieberman, são tão racistas quanto os nazistas?

MS: São todos guiados pelo sionismo, ideologia racista e colonialista. Essa ideologia remonta a 1948 (com a fundação do Estado de Israel). É uma ideologia baseada na desapropriação de outras pessoas, deslocalização, e na supremacia dos judeus sobre os povos palestinos nativos.

CC: O Holocausto foi uma tragédia. Matou 6 milhões de judeus. Mas o mundo não se dá conta que durante a Nakba, de 1948-1949, árabes palestinos foram deslocados. Diferenças à parte, por que a Nakba não é celebrado como o Holocausto?

MS: O Holoscausto é um evento europeu, e eles, europeus, precisam pagar por isso, não os palestinos. Os palestinos não têm nada a ver com ele. Isto é, novamente, um reflexo do racismo Ocidental.

CC: Acredita que Netanyahu iniciou esta guerra atual porque não podia aceitar a nova união entre o Fatah e o Hamas?

MS: Sim. Além disso, Netanyahu quer tirar proveito da atual instabilidade da região. E o ataque contra Gaza pode reabilitar o Hamas, que estava em baixa, devido ao seu não apoio à Síria. Vale não esquecer que o Hamas e outros grupos islamitas precisam do apoio de árabes. O motivo? Essas imagens nutrem as fobias dos ocidentais.

CC: O premier de Gaza, Ismil Haniyeh, é ingênuo ao pensar que o Hamas pode se aliar ao Fatah, enquanto Netanyahu continua a colonizar a Cisjordânia?

MS: No fim das contas, apesar da união de abril entre Hamas e Fatah, o Hamas não aceitará a reconciliação com o Fatah, a menos que o Hamas domine a política da Palestina. Ambas, lembre-se, são legendas que visam à dominação política. O Hamas entrou nessa negociação com o Fatah porque está marginalizido pela Síria (apoiou os sunitas contra Bashar al-Assad e o Irã e o Hezbollah, contra Assad).

CC: Mas negociar com o Egito e seu líder Al-Sisi, que acabou com a Irmandade Muçulmana, seria estranho para o Hamas, não?

MS: De fato. Al-Sisi fez o que pôde para erradicar a Irmandade Muçumana de Mohamed Morsi. Creio que os líderes ocidentais veem no Cairo um aliado contra os líderes do Hamas.