Você está aqui: Página Inicial / Revista / E o mercado criou o dilmômetro / Cine tostão
Número 810,

Cultura

Cinema

Cine tostão

por Orlando Margarido — publicado 10/09/2014 17h50
Com dinheiro escasso, uma nova geração de cineastas sai a campo
Divulgação
Pingo D'Agua

Em "Pingo D'Agua", Taciano Valério discute a produção cinematográfica, numa produção de pesquisa pessoal e literária

Para garantir o sustento da família e cursar a faculdade de cinema, o então professor de história Aly Muritiba (foto abaixo) passou a trabalhar como agente penitenciário em Curitiba, inesperada experiência que se tornaria tema central dos filmes do diretor de origem baiana. Menos ordenada é a trajetória do goiano Adirley Queirós. Filho da primeira leva de imigrantes a Brasília, o funcionário público foi alçado do universo musical do rap a longas-metragens críticos à situação da Ceilândia. Por sua vez, a formação mais tradicional do paraibano Taciano Valério não o impediu de se lançar em uma pesquisa de linguagem e um olhar social a partir de Campina Grande e Caruaru. Essa variedade geográfica é apenas uma das orientações de uma recente turma que instiga com um cinema criativo e fora do eixo convencional de produção no País.

Se os anos 60 foram orientados na independência por jovens da classe média que pegaram a câmera, subiram o morro ou saí-
ram em caravana pelo Brasil, agora não é mais de grupos e agremiações de estilo comum que se fala. Visto de longe, o Cinema Novo, ou o dito Marginal, diz muito pouco a esses realizadores, que se diferenciam na idade e na classe social. De perto, porém, são comparáveis quanto ao empenho em lidar com o precário. “Se temos dinheiro, ótimo. Se não, fazemos do mesmo jeito”, diz Muritiba a CartaCapital.

Sua estreia no longa-metragem é sintomática. A Gente é o fecho de uma trilogia do cárcere. Com A Fábrica, ele ficcionaliza um drama sobre familiares de detentos, e em Pátio documenta os presos. A Gente apresenta um estudo híbrido sobre os agentes penitenciários em seu cotidiano na cadeia paranaense, onde o diretor atuou, e os leva a representar a si mesmos, iniciativa comum dessa nova leva de produções. Com sete anos de ofício, Muritiba estava à vontade entre colegas, mas por preferir suspender a licença não remunerada que gozava para se reintegrar à equipe. “Não poderia buscar o material que queria se não estivesse perto deles todo o tempo.”

O filme custou 50 mil reais, dinheiro emprestado por uma emissora local, que também cedeu a câmera. Com o mesmo orçamento rodou Pátio, selecionado no ano passado para a Semana da Crítica do Festival de Cannes. “Muitas vezes um valor acaba servindo para dois ou três filmes.” É assim com a ficção O Homem Que Matou Minha Amada Morta, que captou 1,4 milhão de reais por meio de prêmios e leis de incentivo estaduais. Enquanto dá aulas, Muritiba toca uma produtora com mais dois sócios, organiza o festival anual Olhar de Cinema e desdobra o raro orçamento para as próximas empreitadas.

O crítico e espécie de padrinho dessa nova geração Jean-Claude Bernardet costuma, antes de analisar pressupostos comuns ao movimento, denominar a turma como aquela do sem-edital. Diretores que vão à luta sem contar com financiamento público. A exceção do novo projeto de Muritiba confirma a regra. Incorporar ao tônus criativo a falta de recursos é outra característica dessa geração, assim como tirar vantagem da liberdade nascida do advento do digital, tecnologia que Queirós aproveita para examinar com desenvoltura a periferia. Faz de maneira diferente de Cristiano Burlan, gaúcho radicado em São Paulo, ao reencontrar o Capão Redondo onde cresceu para resgatar uma tragédia familiar em Mataram Meu Irmão. Queirós, aos 44 anos, busca um ajuste de contas, o que não deixa de incluir seus quatro irmãos e um pai que largou a roça para ser vendedor na rodoviária da Novacap.

Sua mira, no entanto, é mais ampla. Contempla os que ergueram e foram excluídos do plano piloto brasiliense, quando, em 1971, o governo criou a Campanha de Erradicação de Invasões. O projeto transferiu os supostos invasores de áreas nobres para terras distantes, as chamadas cidades-satélites. Depois de curtas-metragens como Rap – O Canto da Ceilândia Dias de Greve, reveladores de uma cultura local, o cineasta foi diretamente ao ponto, em 2012, com o longa de estreia A Cidade É uma Só?, em que investiga como se deu o processo e recria alguns expedientes para tanto, a começar pelo jingle da época ironizado no título. Um documentário em que são inseridos personagens ficcionais, a exemplo de um candidato às eleições de sigla inventada e sem recursos, como é a produção.

Sem chorar miséria, Queirós usa da paródia e atenta ao jeito original da população de lidar com a carência. Daí cinema de gênero mais evidente no filme seguinte. Em Branco Sai Preto Fica, uma original ficção científica leva a 2070 um estado-limite de segregação, no qual é exigido passaporte aos moradores das regiões periféricas para entrar em Brasília, com direito a toque de recolher. De novo se lança mão de personagens fictícios, mas à custa de certa condição real. Foi como um corpo estranho que Queirós se viu, quando venceu barreiras e ingressou na Universidade de Brasília, em 1998, para estudar audiovisual. “Descobri que ninguém nos enxergava, professores e alunos. E como falar de Brasil se ninguém nos vê logo ali, a poucos quilômetros? Faço cinema para que nos vejam.”

O ex-jogador de futebol de times pequenos assume um conceito de vingança na proposta de seus filmes. Num discurso elaborado, diz que não faria essa distopia que é o novo filme sem conhecer a literatura fantástica de Ernesto Sábato ou ver filmes de Quentin Tarantino, mundo esse que se abriu na faculdade.

O cinema chegou tarde a alguns nomes dessa turma. Muritiba, nascido, em 1979, no sertão baiano, só entrou numa sala de projeção aos 18 anos, em São Paulo. A passagem universitária, mesmo que tardia para alguns, tem seu peso. Taciano Valério (foto ao lado), que acaba de finalizar o doutorado a partir de Pedro Almodóvar, não intencionava a área até precisar registrar depoimentos no trabalho de finalização do curso de Psicologia em Campina Grande. Escrevia contos considerados cinematográficos. Aos 35 anos, soma cinco curtas e três longas. Estes formam uma trilogia, batizada de “sem cor”, mais aparentada pelo partido experimental e estético do que temático. Há relações, além do preto e branco, entre Onde Borges Tudo Vê, sobre um cego e uma provável edição rara de Jorge Luis Borges, Ferrolho, história de um jovem marginalizado que invade casas como vingança social, e Pingo d’Água, a respeito do próprio fazer do cinema e o mais aberto a interferências dos atores, marca da concepção de Valério. “Incorporo aos filmes as discussões e rancores do elenco.” É uma produção de pesquisa pessoal, referências literárias e cinematográficas. Mas que não perde de vista uma conotação social, como em Ferrolho, painel dos contrastes de tradição e mazelas da peculiar  Caruaru, para onde o diretor se mudou interessado nessa conjuntura.

Para um cinema de expedientes tão avessos às convenções paga-se o preço da pífia veiculação no circuito comercial. A maior vitrine para lançamentos e troca de experiências são os festivais, e o mais aglutinador é a Mostra Tiradentes. Neste ano, a escolha de um júri formado pela crítica recaiu sobre A Vizinhança do Tigre, de Affonso Uchoa, que confirma o preceito tão caro à turma do documentário de representação ao contemplar jovens da periferia de Contagem, na grande Belo Horizonte. Da capital mineira, inclusive, surgiu um dos primeiros espasmos desse movimento com filmes como O Céu Sobre os Ombros, assumida referência para Muritiba. O diretor Sérgio Borges é um dos integrantes da produtora Teia, para onde convergem projetos internos e parcerias com coletivos como o cearense Alumbramento. Exemplo de que a perspectiva não é apenas a de alargar as fronteiras de linguagem do cinema, mas as culturais e de diversidade.