Você está aqui: Página Inicial / Revista / E o mercado criou o dilmômetro / A economia da crise
Número 810,

Economia

Análise/Luiz Gonzaga Belluzzo

A economia da crise

por Luiz Gonzaga Belluzzo publicado 02/08/2014 06h19
A dívida bruta da Zona do Euro deve chegar neste ano a 95,9% do PIB

O jornal valor publicou, na segunda-feira 21, entrevista com William White, ex-economista-chefe do Banco de Compensações Internacionais. White sacou um cartão amarelo para as políticas monetárias ultraexpansionistas executadas pelos bancos centrais dos países desenvolvidos.

Na avaliação do economista, as bolhas de ativos formam-se em todos os lugares. Não está claro, diz White, se esse avanço é suficiente para um recomeço do consumo e do investimento. Ele ressalta que os níveis de investimento estão extremamente baixos para os padrões históricos em todas as economias avançadas. Isso ocorre em boa medida pelo fato de as empresas olharem para o futuro e toparem com uma massa de consumidores endividados.

À persistência de altos índices de alavancagem privada junta-se um desconfortável panorama do endividamento público. Não há indícios de melhora das finanças dos governos, a despeito das teimosas esperanças na austeridade. A dívida bruta dos governos da Área do Euro subiu de 88,2% do PIB em 2011 para 95,2% em 2013, com projeção para 95,9% em 2014.

A relação dívida/PIB aumentou em quase todos os países que se encalacraram nas delícias do crédito abundante. O baixo crescimento das receitas fiscais decorrente do anêmico desempenho das economias e as taxas de juro reais, ainda que cadentes, combinam suas forças para infundir potência à expansão do débito público.

Na contramão dos auspícios dos “austeristas” que apostam na conquista de confiança dos mercados, quem habita luxuosos escritórios prefere sair à cata de oportunidades de ganhos de curto prazo, jogando com diferenciais de juros e expectativas de surtos de valorização-desvalorização das moedas dos emergentes.

Tem razão White em suas considerações sobre as políticas monetárias ultraexpansionistas. As generosas injeções de liquidez e as taxas de juro muito baixas não conseguem reanimar o emprego e a geração de renda nas economias centrais, ao mesmo tempo que favorecem a alavancagem nos mercados de ativos. As bolsas estão “bombando” e os rendimentos dos títulos de dívida encolhem diante da valorização dos papéis. Nos ditos emergentes, cresce o passivo das empresas denominado em moeda estrangeira.
As dificuldades que ora afetam as economias centrais e suas políticas econômicas têm origem na “reestruturação conservadora” do fim dos anos 70 do século passado. Nas duas primeiras décadas do pós-Guerra, nos Estados Unidos e na Europa, as políticas econômicas foram concebidas para promover o crescimento do emprego e da renda, atenuar a flutuações cíclicas e garantir a inclusão dos cidadãos e os direitos sociais.

As cargas tributárias progressivas e o gasto público subiram rapidamente em quase todos os desenvolvidos. Os déficits fiscais eram excepcionais e passageiros, as taxas de investimento privado elevadas e as taxas de inflação, muito baixas. Os próprios níveis de endividamento do setor privado como proporção do PIB evoluíam satisfatoriamente, pois as taxas de crescimento elevadas do produto, da renda e dos lucros permitiam a “absorção” da dívida contraída pelas empresas e famílias.

A chamada estagflação que se seguiu ao primeiro choque do petróleo, os desarranjos no balanço de pagamentos do Estados Unidos e o consequente enfraquecimento do dólar favoreceram o avanço das propostas liberalizantes que preconizavam a redução de impostos para os ricos “poupadores” e a flexibilização dos mercados de trabalho. Os sistemas de tributação progressiva eram acusados de desestimular a poupança e debilitar o impulso das empresas ao investimento, enquanto os sindicatos teimavam em prejudicar os trabalhadores ao pretender fixar a taxa de salário “fora do preço de equilíbrio”. As reformas deveriam ser levadas a cabo em um ambiente macroeconômico no qual a política fiscal estivesse encaminhada para uma situação de equilíbrio intertemporal sustentável.

A prodigalidade de isenções e favores fiscais para as camadas endinheiradas e para as empresas fez pouco ou quase nada para elevar a taxa de investimento nos desenvolvidos. O aumento da “poupança” dos ricos e das grandes empresas suscitou, porém, o avanço da desigualdade e o ingurgitamento da esfera financeira. Atendidos os clamores dos “mercados” pela liberalização das contas de capital, os “poupadores” financiaram a farra do endividamento das famílias, empresas e governos.

O crescimento tornou-se cada vez mais dependente do crédito fácil e das bolhas de ativos. Para juntar ofensa à injúria, os capitais escapam dos impostos nos paraísos fiscais ou migram para as regiões de baixos salários e impostos quase inexistentes. Mais fôlego para a desigualdade.

registrado em: , ,