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Número 809,

Política

Rosa dos Ventos

O PT esqueceu o passado?

por Mauricio Dias publicado 19/07/2014 08h42
Em busca da governabilidade, o partido perdeu suas características mais combativas. É com isso que Dilma terá de lidar
Renato Araujo
Lula

Lula sabe fazer autocrítica

O Partido dos Trabalhadores disputa este ano a sexta eleição presidencial. Sofreu três derrotas, uma vez para Collor e duas para FHC, e conquistou três vitórias, duas vezes com Lula e uma com Dilma.

A disputa de 2014 será a quarta derrota ou a quarta vitória?

Para o PT, a eleição de agora tem sido, essencialmente, diferenciada das outras e se afigura mais difícil, por uma série de razões. Os positivos dispensam explicação. Os negativos podem esclarecer, no entanto, as dificuldades para a reeleição de Dilma.

A soma de erros acabou com a feição inicial de um partido nascido com forte enraizamento social, com participação de militantes e visto pela sociedade com muita credibilidade. Isso favorecia a manutenção de um discurso fortemente agressivo contra os adversários em todos os quadrantes do País.

Esses méritos, ou quase todos, que encantavam uma larga porção de eleitores, foram perdendo força ao longo do caminho. Essa transformação é marcada pela vitória alcançada na eleição de 2002, quando Lula bateu o tucano José Serra.

Sitiado por empresários, banqueiros e tosquiado pela mídia conservadora, o PT se viu obrigado a fazer dois movimentos estranhos ao perfil vindo do berço. Primeiro, convidou um empresário, José Alencar, para compor a chapa como vice. Na sequência, adotou forte compromisso com as regras econômicas tradicionais para aquietar os adversários, aqui e além-mar, e amenizar os obstáculos na travessia da planície para o Planalto.

A partir daí, o governo petista, mais do que o partido, deu uma guinada para o centro em razão das alianças construídas para fortalecer a base governista no Congresso. Ficou forte de um ponto de vista e fraco de outro. Um número imenso de partidos, porém, sem coesão, sem identidade.

Esse foi o resultado da junção de partidos situados em campos ideológicos distintos. Fez conquistas e concessões. Conseguiu adotar medidas francamente favoráveis para a população mais pobre. E não teve sucesso, por exemplo, em adotar uma nova lei para os meios de comunicação, onde não se vê, ao contrário do que propaga a oposição e os próprios aliados, proposta de interferência no direito de informar.

A militância embotou-se. Dispersou-se decepcionada com o jogo do poder que, além dos petistas, contava com alguns aliados sem a categoria exigida na competição.

De qualquer forma, tudo ia mais ou menos bem até estourar o chamado “mensalão”, que representava, de fato, ilícitos de caixa 2. Quase que o governo Lula vai para o beleléu. Alguns quadros políticos e milhares de militantes, no entanto, fizeram as malas e deram adeus.

Tais alianças podem ser entendidas e resumidas no abraço em Paulo Maluf.

O sucesso eleitoral justificava as decisões. Pelo menos a curto prazo. Só que a conta pode estar chegando agora, após 12 anos de domínio no comando máximo do poder.

Mas o partido ainda tem um trunfo. Além dos méritos do governo Dilma, segue com ela o maior e mais importante líder político do País. Em fase de discreta autocrítica, Lula prega mudanças internas para apagar as deformações decorrentes do ato de governar. Em recente entrevista a CartaCapital, o ex-presidente comprometeu-se com isso:

“O PT erra quando tenta entrar na mesmice dos outros partidos (...) Quero ajudar o PT a voltar ao seu leito natural (...) voltar à sua tradição política”.