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Número 809,

Economia

Análise / Paul Krugman

A velha política disfarçada

por Paul Krugman — publicado 23/07/2014 02h55
Os republicanos tentam se dissociar dos problemas da economia, mas não apresentam algo novo

Em reportagem de capa para The New York Times Magazine, o escritor Sam Tanenhaus perguntou recentemente: “O Partido Republicano pode ser um partido de ideias?” Ora, não. Esta é mais uma edição de respostas simples para perguntas simples.

Mais especificamente, os “conservadores da reforma” sobre os quais Tanenhaus escreveu parecem, em geral, oferecer ideias supostamente novas para parecer oferecer novas ideias. E não há muitas. Você consegue encontrar alguma coisa no artigo que pareça uma nova ideia importante, e não uma pequena modificação do atual catecismo conservador? Eu não.

Toda noção de que novas ideias são o material da política é extremamente exagerada. Governar não é como vender smartphones; a forma subjacente dos problemas que você tem de enfrentar muda muito lentamente, e os pontos básicos do debate político são muito estáveis.

Em particular, o debate central na política americana não mudou em décadas, nem deveria. Os liberais querem uma rede de segurança social forte, financiada por impostos relativamente altos, especialmente sobre as altas rendas. Os conservadores querem muito menos rede de segurança e impostos muito mais baixos para os afluentes.

Trinta e cinco anos atrás, os conservadores produziram um novo argumento: a afirmação de que altos impostos e benefícios generosos estavam produzindo um atraso tão grande na economia que até os americanos de menor renda ficariam melhor se cortássemos tudo aquilo. E eles conseguiram a maior parte do que queriam – impostos muito mais baixos para as altas rendas e o fim do bem-estar social como o conhecíamos, mas não dos grandes programas para a classe média.

Mas o crescimento deixou de decolar enquanto a desigualdade disparava, de modo que a renda das famílias típicas cresceu muito mais lentamente depois da revolução conservadora do que antes.

Até aí foi aquela grande ideia. Existe alguma coisa parecida no horizonte? Não – e não está claro por que você deveria esperar algo desse tipo. O que é certo é que modificar as políticas pelas bordas não vai fazer muita diferença.

E suspeito que em algum nível os conservadores da reforma sabem disso. O ponto de suas propostas de modificação é menos alcançar resultados do que permitir que o Partido Republicano se dissocie da crescente desigualdade e das rendas estagnadas, sem modificar sua posição política fundamental. E é improvável que esse truque funcione.

Tenho acompanhado parte da discussão sobre os serviços de carros conectados por smartphones como Uber, Lyft, e tenho algumas ideias nada originais. Não as li em outro lugar, mas certamente estão por aí. Portanto, isso é em parte para referência.

O grande benefício dos novos serviços ocorrerá se possibilitarem que muita gente não precise comprar seus próprios carros. E poderia dar certo.

Se você mora em um lugar sem transporte público excepcionalmente bom, é muito difícil viver sem um carro. Mas, para a maioria das pessoas, ter um carro é um grande desperdício. É um equipamento caro que fica parado na maior parte do tempo, exige estacionamento, precisa de manutenção e é um grande estorvo em todo lugar.

Por isso, serviços de motoristas confiáveis e de rápida resposta poderiam liberar muitas pessoas de dedicar tantos recursos a algo que elas só usam de vez em quando. E reduziria a necessidade de investir em um capital que fica ocioso a maior parte do tempo.

A hora do rush é um problema evidente. Mas é aqui que entra o apreçamento conforme a demanda. Se viajar durante as horas de pico é mais caro, as pessoas terão um incentivo para evitá-los. Então se imagina uma sociedade que ainda depende de carros para se transportar, mas consegue fazê-lo com um número de veículos significativamente menor.

Os carros não são os únicos produtos de consumo duráveis em que um esquema parecido poderia funcionar. Os moradores de Nova York não precisam de geladeiras tão grandes quanto os dos subúrbios, porque é muito fácil ir até a esquina comprar alimentos; os pedidos de entrega em domicílio poderiam produzir um efeito semelhante fora da cidade. Mas os carros são, certamente, o grande prêmio.

Tenho certeza de que isto já foi elaborado por alguém em algum lugar. Mas me divirto pensando a respeito.

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