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Número 809,

Cultura

Teatro

Juca de Oliveira faz primeiro monólogo de Rei Lear

por Ana Ferraz publicado 25/07/2014 03h49, última modificação 25/07/2014 09h45
Aos 79 anos, Juca de Oliveira enfrenta o desafio de interpretar seis personagens em adaptação da peça de Shakespeare
João Caldas
Rei Lear-Juca de Oliveira

"Os obstáculos me pareciam tão intransponíveis que cheguei a cancelar o projeto", diz o ator Juca de Oliveira, 79 anos

lia e Melpômene, as musas da comédia e da tragédia cujos préstimos a mitologia grega por vezes cede aos mortais, nunca deixaram de atender aos apelos de Juca de Oliveira. Às vésperas de encarnar Lear, o velho monarca vítima da ganância das filhas, uma pane nas cordas vocais exigiu silêncio absoluto do veterano ator e dramaturgo. O ensaio aberto foi cancelado, a fonoaudióloga chamada em regime de urgência. “Para um ator é uma grande tragédia”, escreveu, impedido de falar.

Mas as herdeiras de Zeus provaram seu apreço pelo intérprete que sempre as reverencia. A partir de sexta 18, Juca de Oliveira mergulha de corpo e alma na peça Rei Lear, que especialistas como o prestigiado diretor e ensaísta inglês Peter Brook consideram a maior e mais difícil tragédia escrita por William Shakespeare.

Esta é a quarta vez que Juca de Oliveira participa do riquíssimo universo dramático criado pelo bardo inglês. “Fiz Marco Antônio em Júlio César (1966), Ricardo em Ricardo III (1975) e Othello (1982). Na minha idade, a caminho dos 80 anos, só me sobravam Falstaff e Lear.” A experiência de 60 anos de profissão, entre teatro, tevê e cinema, não o impediu de “ficar apavorado” diante da possibilidade de entrar na pele do rei bretão que decide dividir o reino. Antes, desafia as três filhas a declarar publicamente qual o ama com mais devoção. A mais velha, Goneril, e a do meio, Regan, se desdobram em adulações. Diante da falsidade das irmãs, Cordélia, a caçula, limita-se a dizer que ama o pai de forma verdadeira. Dominado pela ira, Lear renega a filha mais nova, justamente aquela cuja afeição é desprovida de interesses, e divide o país entre as outras duas e seus maridos.

A figura do monarca confuso, angustiado, insano e cercado de inescrupulosos de olho nas terras bretãs havia muito rondava o imaginário do ator. Ganhou contornos mais realistas num encontro com Geraldo Carneiro, no ano passado, a propósito de uma palestra sobre os textos líricos de Shakespeare. Ao sugerir ao poeta uma tradução de Rei Lear, Juca de Oliveira foi surpreendido com a informação de que este trabalhava numa adaptação de um monólogo da peça. Em seguida veio o convite para o papel. “Fiquei em pânico, mas topei na hora. Liguei para Elias Andreato, com quem havia trabalhado, que também disse sim à proposta. E aqui estamos vivendo esta paixão das paixões.”

Durante pesquisa para o papel, Juca de Oliveira deu-se conta de que nenhum ator até agora interpretou um monólogo de Lear. “Procurei primeiro entre os ingleses, excepcionais atores. Não havia tal monólogo. Meu pânico aumentou. Os obstáculos me pareciam tão instransponíveis que a certa altura, arrasado, cancelei o projeto.” A retomada do desafio atribui a três fatores: “A maravilhosa adaptação de Carneiro, o fato de eu ter praticamente a mesma idade de Lear (o ator tem 79 anos) e minha paixão pelo palco”. Além do protagonista, Juca de Oliveira dá vida às herdeiras do monarca, ao Bobo, a consciência do rei, o único capaz de lhe chamar atenção aos erros sem perder o pescoço, e ao nobre Kent, assessor do rei. “São seis personagens. A grande maravilha é que você não sabe o que vai acontecer, pois pela primeira vez é encenado como espetáculo-solo. São as maluquices de Geraldo Carneiro.”

Na adaptação, o roteirista mineiro, que Juca de Oliveira considera “nosso mais inspirado poeta e tradutor de Shakespeare”, decidiu fazer um recorte sobre os momentos centrais da tragédia. “Claro que há reduções e supressões que podem provocar alguma estranheza a um especialista. Mas em contrapartida, talvez tenhamos o personagem mais próximo de nós, em geral avassalados por sua grandeza. Aqui, Lear é sujeito e narrador de sua própria história. E vemos que o que parecia monstruoso na violência de seu tempo é cada vez mais parecido com os monstros da sociedade contemporânea.”

O intérprete, tocado pela força do texto desde o primeiro contato com a obra, quando estudante na Escola de Arte Dramática da Universidade de São Paulo, aposta na atualidade das palavras de Shakespeare. “Hoje, com a disparada da longevidade, os filhos modernos, clones de Goneril e Regan, expulsam de casa os velhos pais e os encarceram em asilos até a morte. Puro Shakespeare. Puro Rei Lear.”

Durante as pesquisas para a empreitada (a peça tem o apoio do Banco Itaú, Laboratório Cristália e da Prodesp), Juca de Oliveira direcionou o olhar analítico para interpretações antológicas de brasileiros e estrangeiros: Paulo Autran (direção de Ulysses Cruz, 1996) e Raul Cortez (Ron Daniels, 2000), Eric Porter (Trevor Nunn, 1968), Orson Welles (Peter Brook, 1953) e Laurence Olivier (Michael Elliott, 1983). “Gostei mais de Orson Welles.” Em performance histórica, Welles, então com 38 anos, põe a figura poderosa e a profunda voz de barítono a serviço do combalido Lear, cujas escolhas erradas o conduzem à inominável tragédia. Embora com tecnologia precária se comparada à que dispõe a tevê hoje, com poucas opções de câmera e gravada ao vivo, a produção para a série da CBS Omnibus é considerada um marco na teledramaturgia. Brook optou por enxugar o texto para 90 minutos. Focou o drama familiar do soberano e deixou de fora o enredo secundário, trama espelhada que envolve a decadência do conde de Gloucester, traído pelo filho ganancioso.

Combinação de mito, lenda e história, Lear era um personagem familiar para os espectadores do século XVII. A historiadora inglesa Rebecca Brown, especialista em Shakespeare, cita o livro Chronicles of England, Scotland and Ireland (segunda edição de 1587), de autoria de Raphael Holinshed, em que o autor narra a história de um velho monarca bretão que de forma insensata divide o reino entre as três filhas. Uma versão da mesma história consta de Mirror for Magistrates, popular compêndio em versos que descreve a queda de grandes homens, editado em 1574. O poeta elisabetano Edmund Spenser inclui a trajetória do monarca no poema The Faerie Queene, impresso em 1590.

De acordo com estudiosos, Shakespeare provavelmente escreveu O Rei Lear em 1604, no intervalo entre duas outras grandes tragédias, Othello e Macbeth. Rebecca, colaboradora da Royal Shakespeare Company, acredita que as diversas influências e inspirações contribuíram para Shakespeare criar um texto rico e complexo que trata das grandes forças motrizes da humanidade, entre as quais ódio, amor, compaixão, lealdade, cobiça, ingratidão e traição. “Meus professores costumavam dizer: quando quiserem saber algo sobre a trágica aventura do homem sobre a Terra, leiam Shakespeare”, relembra Juca de Oliveira.

Liberto do fantasma do silêncio obsequioso e recém-entronizado como Lear, o ator está preparado para a tremenda demanda emocional que o personagem exigirá ao longo de três meses de temporada paulistana. Numa das cenas de grande potencial dramático, depois de ser rechaçado pelas duas filhas que personificam o mal, Goneril e Regan, o rei desafia as forças da natureza. Sai em meio à tempestade, convoca os ventos a criar destruidoras ondas gigantescas, arranca os cabelos brancos, brada aos céus que ponham fim à humanidade. Em pleno transe de fúria e desejo de vingança, acaba por discernir as verdadeiras intenções de cada uma das filhas e finalmente se dá conta da vulnerabilidade humana.