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Número 808,

Política

Copa do Mundo

S.O.S. em campo

por Mino Carta publicado 11/07/2014 03h45, última modificação 11/07/2014 18h01
Ao contrário do que pretendiam a mídia e a oposição, a Copa provou que os maiores problemas do Brasil ficam no gramado. Por Mino Carta
The Asahi Shimbun/Getty Images
Torcida

Quando trila o apito, a nação demonstra toda a sua puerilidade

Uma criança que chora por culpa do pai dá pena. Com o pai, como haveria de ser, não aprendeu que o futebol é apenas um jogo e que a pátria não calça chuteiras, além de ser o derradeiro refúgio dos covardes, conforme o doutor Johnson. Pela lição paterna, deveria entender a justa dimensão do ludopédio, e hierarquizar a sua importância na relação com outras questões propostas pela vida, embora esteja longe de ser pecado perceber graça e arte no trato da bola.

Há situações que não se dão por ocaso. As crianças choram na arquibancada, mas a nação em peso habilita-se à puerilidade. Sou de um tempo em que Pedro Luís Paoliello e Mario Moraes formavam, desde o imediato Pós-Guerra até meados dos anos 60, a mais ouvida e celebrada dupla radiofônica das transmissões futebolísticas. Pedro Luís, locutor insuperável, conheci, já sessentão, cavalheiro impecável. Moraes, comentarista de voz pastosa, pensador do esporte bretão, não conheci. Lembro ambos, com saudade.

Ao cabo da partida, Moraes analisava os jogadores por duas lentes: tecnicamente e taticamente. Hoje a ele perguntaria, meu comentarista preferido, sucinto e certeiro nas apreciações, que diria a respeito do desempenho da Seleção Canarinho na fatídica semifinal de 8 de julho de 2014, contra o time teutônico. Muito teutônico, ao som de Wagner, a bem da verdade factual. Ouço-o sentenciar: tecnicamente abaixo de medíocre, taticamente um desastre. Deste específico ponto de vista, me seduz enxergar nos jogadores a criança mal ensinada pelo pai. E penso em Felipe Scolari, a encarar a tragédia entre atônito e perplexo.

Haverá quem evoque, a favor dele, Scolari campeão em 2002. Pois naquela seleção os craques autênticos sobravam, e o time jogou como sabia, a dispensar técnicos. O mesmo aconteceu em 1958, quando os jogadores impuseram a Vicente Feola a escalação e inventaram por conta própria um esquema, o 4-3-3 que poderia tornar-se 4-2-4, destinado a revolucionar o futebol mundial. O qual, nos últimos 56 anos, mudou muito. Mudou demais.

Dinheiro em proporções exorbitantes adentrou o gramado e uma quadrilha passou a comandar a Fifa, instruída a contento por um brasileiro, João Havelange. Jules Rimet, aquele frágil senhor que entregou a taça em 1950, tadim, não tinha a mais remota possibilidade de imaginar seu atual sucessor, Joseph Blatter. Totò Riina não se sairia melhor do que Blatter. Só que Riina está na cadeia.

Sobe à memória, do longínquo passado, uma foto de Djalma Santos, campeão em 58 e 62, a carregar as chuteiras embrulhadas em papel jornal, e logo sobrevém de chofre a imagem de David Luiz em lágrimas ao sair de campo. No microfone que prorrompe debaixo de sua boca trêmula, soluça: “Eu queria apenas a felicidade do meu povo, a alegria de todos”. Mario Moraes afirmaria dele: tecnicamente razoável, taticamente nota zero. E no mais, que dizer do zagueiro recém-adquirido pelo PSG por 50 milhões de libras: hipócrita ou parvo? Ou reuniria em um único ser humano as duas características?

Moraes e Pedro Luís não se permitiam concessões e aí está outra comparação: raríssimos, ao longo desta Copa, os comentários sensatos. Em contrapartida, a enchente impetuosa das informações dispensáveis a tomar inexoravelmente todos os espaços disponíveis, como se nada mais houvesse a ser noticiado além do festival da bola, e os comentários amiúde equivocados, como se o objetivo fosse levar a plateia a acreditar no impossível e a estimular-lhe a imbecilização. A campanha da Seleção foi pífia e a semifinal imerecida. Em dois jogos, contra Croácia e Colômbia, os canarinhos gozaram da colaboração decisiva dos juízes. No jogo contra o Chile, os fados haviam acordado de excelente humor. O outro encontro foi o empate com o México. Neymar mostrou seus limites de criança mimada. Esporádicas as avaliações isentas, responsáveis, de sorte a preparar a plateia para o desenlace melancólico.

Enredado pelas recordações, enveredei por reflexões pretensamente técnicas. Cabem outras mais significativas, e são políticas, e também sociológicas, se quiserem, sem a mais pálida intenção de escrever um tratado. A Copa teve o condão de deixar claro que o problema do Brasil não estava fora dos estádios, e sim no próprio gramado. Este Campeonato Mundial exibiu um país bem diferente daquele anunciado. A assistência global viu uma boa organização em um recanto civilizado, deste ângulo digno da melhor contemporaneidade, na contramão das circunstâncias previstas alhures e, mais ainda, por aqui.

A quem aproveita? Ao País. A todos nós. Não falta, entretanto, quem queira tirar vantagem no bem e no mal. Ouvimos nos últimos meses contraditórias versões a respeito de quem se valeria da situação para favorecer seus interesses, proclamadas em ambientes diversos e sustentadas pela mídia nativa. A Copa sela o enterro de Dilma. Nada disso, Dilma pretende usar a Copa em seu benefício. Perdão, perdão, boi na linha: o desfecho da Copa trabalha contra Dilma. Há mesmo alguns, desvairados, a afirmar que a derrota, acachapante, diria Mario Moraes, sofrida contra a Alemanha, é culpa da Dilma.

CartaCapital esforçou-se para sustentar, amparada nas aulas que a história costuma ministrar aos menos desavisados, que resultados futebolísticos e eleitorais seguem por caminhos próprios e não se cruzam. Mesmo assim, preparemos nossos corações para assistir a mais uma quermesse de sandices a respeito. Registre-se que, de fato, o Brasil oferece uma prova de sua contingente decadência futebolística e outra, muito mais importante, de um inesperado grau de maturidade, embora misturado com a puerilidade nacional quando trila o apito.

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