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Número 807,

Sociedade

Legado

O garimpo grandioso de Delfim Netto

por Ana Ferraz publicado 10/07/2014 09h39
Biblioteca da FEA-USP recebe acervo de 300 mil itens amealhados pelo ex-ministro durante 70 anos
Marcos Méndez
Antonio Delfim Netto

Delfim passa horas em sebos mundo a fora, onde captura preciosidades

No fim dos anos 1980, o morador de uma cobertura nos Jardins recebeu a visita do engenheiro que projetou o prédio. O profissional tinha um alerta a fazer: os cerca de 50 mil livros que o condômino acumulara ameaçavam colocar em risco as estruturas do edifício. Era preciso parar de ampliar o acervo. Tratava-se de uma exigência aparentemente incapaz de ser cumprida por quem se iniciara aos 14 anos na veneração por obras impressas. Apesar do diagnóstico alarmante, o morador decidiu ficar. Saiu a biblioteca, transferida para um sítio comprado em Cotia, onde foi cuidadosamente distribuída por um espaço de 500 metros quadrados e pé-direito de 5 metros.

O dono do acervo, que hoje beira 300 mil itens, é Antonio Delfim Netto. O adolescente nascido de família modesta do bairro paulistano do Cambuci era office-boy na Gessy quando conheceu Ayrton Alves de Aguiar, médico de sólida formação intelectual que orientou as primeiras leituras do garoto ávido por conhecimento. De poucos recursos financeiros, recorreu aos sebos. Transcorridos mais de 70 anos desde as aquisições iniciais, o trabalho de uma vida de garimpagem mudou novamente de endereço. A Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo inaugurou na quarta 2 a Biblioteca FEA-USP, onde o acervo de Delfim Netto se une às obras locais, num total de quase 500 mil itens. As instalações têm 7 mil metros quadrados, 3 mil deles reservados aos livros de Delfim, dispostos em estantes deslizantes.

A portentosa coleção do professor, ex-ministro e ex-parlamentar, e também colunista de CartaCapital, não tem obras raras ou primeiras edições. “É uma biblioteca de trabalho”, esclarece o economista Paulo Yokota, ex-aluno e amigo há 50 anos de Delfim, seu sócio em organizações empresariais e, por aproximação, também ele garimpeiro de sebos durante décadas de viagens a trabalho. “O acervo tem coisas que não existem em nenhuma outra biblioteca do mundo”, garante. Entre as preciosidades estão a enciclopédia de Jean Le Rond D’Alembert e Denis Diderot, do século XVIII, e a Collezione Custodi, “a provar que no século XVI havia muitos economistas italianos, muito antes de Adam Smith e outros clássicos do Reino Unido”.

Yokota não se preocupa em soar hiperbólico quando diz que ele e Delfim frequentaram todos os sebos do mundo. Um dos destinos especiais foi Kanda, um bairro inteiro de Tóquio dedicado ao comércio de livros novos e usados. A cada visita, após viajar 23 horas e enfrentar a diferença de fuso, assim que desce do avião Delfim se enfurna nos labirintos borgianos, onde passa até cinco horas de pé a folhear clássicos de economia política. “Ele não se cansa. Lê cerca de dez horas por dia.”

Delfim nunca cogitou parar de comprar livros. Mantém contato com editores de diversos países e adquire de 40 a 50 volumes por semana. “É paixão”, sentencia Yokota. “Se não folhear não se sente satisfeito. Ele não gosta de ler no computador.” O próprio colecionador não tem tanta segurança quanto ao diagnóstico e às vezes chega a desconfiar de sofrer de compulsão. Eduardo Frin, responsável pelo acervo durante os últimos 18 anos em Cotia, é testemunha da intensa relação do economista com o objeto de adoração. “O professor gosta de manusear o livro, cheirar o papel. É um prazer sensorial.” O fiel escudeiro está integrado à equipe da universidade que cataloga o material. “O destino do acervo, antes centralizado na figura de Delfim, nos preocupava. Agora ele volta para a sociedade.”

Chefe-técnica da biblioteca da FEA durante 20 anos, Dulcineia Dilva Jacomini participou ativamente de todo o processo de transferência. “Foram quase três meses de mudança.” Ela conhece a ligação afetiva do professor com a universidade e havia tempos ouvia falar da intenção do ex-ministro de doar o acervo. “A decisão deve ter sido dolorida, por isso tratamos tudo de forma que ele não sinta tanto a perda. Reproduzimos sua sala, trouxemos  mobiliário e objetos pessoais. A ideia é que ele venha aqui de vez em quando.”

“No dia em que os livros começaram a ir embora ele ficou abalado, mas disfarçou. É como um filho que sai de casa”, compara Yokota. Para o amigo, transferir o acervo à universidade foi um processo natural. “Delfim viu professores famosos morrer e as bibliotecas se tornarem um estorvo à família. Aos 86 anos, está muito bem, mas não tem herdeiros. É uma forma de gratidão com a universidade.”

Perto de 50% dos livros versam sobre economia. Antropologia, filosofia, história, geografia e ciência compõem o restante do acervo. “As revistas científicas são importantes, porque pesquisam o que depois vai virar matéria-prima ou produto”, afirma Yokota. Delfim costuma pinçar artigos de periódicos sobre temas que lhe interessam, encadernar e catalogar. “Tudo o que ele encontrou sobre câmbio na Argentina, por exemplo, juntou num volume. Ele consulta a bibliografia de cada livro interessante que lhe cai nas mãos, o que não constar da biblioteca nós vamos atrás.”

A reverência do professor emérito da FEA por livros parece ser contagiante. Partiu de Solon Luís Pereira, motorista que há décadas acompanha Delfim, a solução para higienizar e preservar os 300 mil volumes. Preocupado com o risco de deterioração do papel, pôs-se a pesquisar plantas resistentes a pragas. Ao constatar a eficácia da mamona nesse quesito, usou o arbusto para desenvolver uma essência  vaporizada sobre os livros. A iniciativa foi tão bem-sucedida que especialistas da USP estão de olho na tecnologia.

*Reportagem publicada originalmente na edição 807 de CartaCapital, com o título "Um garimpo grandioso"

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