Você está aqui: Página Inicial / Revista / Campanha eleitoral, a largada / No Iraque e na Síria, o califado do século XXI
Número 807,

Internacional

Iraque

No Iraque e na Síria, o califado do século XXI

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 17/07/2014 04h03
O novo regime não é apenas uma instituição medieval, e é o seu lado pós-moderno que o torna mais perigoso
AFP
ISIS

Militantes festeja a fundação do califado em Raqqa, na Síria. O desejo é estendê-lo por três continentes

Muitos noticiaram a “proclamação de um Estado Islâmico” pela organização antes conhecida como “Estado Islâmico no Iraque e Levante” sem notar a contradição. Na verdade, o grupo se intitulou “Estado Islâmico no Iraque” desde outubro de 2006 e acrescentou o Levante à sua reivindicação em abril de 2013. A novidade é muito mais séria: riscar a delimitação geográfica do nome oficial sinaliza a pretensão de ser o único “Estado Islâmico”, como indica um mapa que circula entre seus simpatizantes nas redes sociais. Nele, o mundo muçulmano (salvo Bangladesh, Malásia e Indonésia, aparentemente esquecidos) e partes hoje não muçulmanas da Europa e África aparecem como seus futuros domínios, dividido em províncias cujos nomes e limites fazem tabula rasa das entidades e fronteiras legadas pela era colonial.

Além disso, ao proclamar seu líder Abu Bakr al-Baghdadi como califa, ou seja, sucessor de Maomé e líder único do Islã, o “Estado Islâmico” se arroga também um caráter sagrado e autoridade religiosa para executar quem o rejeite. Essa é a mensagem central da proclamação de 29 de junho (primeiro dia do Ramadã), recheada de citações do Alcorão. Depois de se compararem com os conquistadores islâmicos do Império Persa e da maior parte do Império Bizantino, os jihadistas afirmam que restaurar o califado é uma obrigação religiosa e seria pecaminoso não cumpri-la, razão pela qual seu conselho “elegeu” para o cargo Al-Baghdadi, agora “califa Ibrahim” (seu verdadeiro primeiro nome), e exige que todos os muçulmanos jurem fidelidade e deem apoio ao suposto descendente da família do Profeta. Mais que isso, declara inválidos todos os demais emirados, reinos, Estados e organizações (inclusive a Al-Qaeda), a serem extintos à medida que suas forças os alcancem. Aos que romperem suas fileiras ameaça com “partir-lhe a cabeça à bala e estripá-lo, seja quem for”, palavras literais.

A ingenuidade da mídia também se revela no espanto com o “sistema de estilo medieval”. A existência de um califado no século XXI não seria, em si, mais espantosa que a do papado ou das monarquias britânica, espanhola e japonesa, instituições igualmente medievais, se não fosse a intolerância extrema para com infiéis e dissidentes. E, se abandonarmos os falsos estereótipos sobre a Idade Média, veremos como isso é muito menos medieval do que moderno.

“Califa”, “sucessor” em árabe, foi o título dos substitutos de Maomé na liderança do Islã a partir de seu sogro Abu Bakr (do qual o líder do Estado Islâmico tirou o pseudônimo). Quando do assassinato em 661 de Ali, quarto califa e primo do Profeta, a disputa da sucessão criou o cisma entre os xiitas, partidários de seu filho Hassan, e os sunitas, que seguiram Muawiyah, ex-ministro de Maomé sem ter com ele parentesco próximo nem ser um convertido de primeira hora. Após a vitória deste, o califado, até então eleito por um conselho e de caráter tanto religioso quanto guerreiro, tornou-se hereditário e predominantemente político.

A dinastia Omíada levou o Império Árabe à sua maior extensão, de Portugal ao Paquistão, mas se tornou impopular entre os muçulmanos por privilegiar os árabes (e mais ainda o próprio clã) em relação aos convertidos de outras origens e mesmo desencorajar as conversões em prol da receita pública, pois os infiéis pagavam imposto extra. Em 751, um movimento revolucionário partiu da Ásia Central para derrubar os Omíadas e pôr em seu lugar os Abássidas. Estes fundaram Bagdá e estiveram à frente da civilização islâmica em seu período mais próspero, mas o império começou a se dividir, a começar pela parte mais ocidental, para onde fugiu o último omíada e cujos descendentes fundariam um califado rival em Córdoba.

Enquanto os Omíadas usavam uma bandeira branca, os abássidas adotaram uma bandeira negra, da qual aquela usada pela Al-Qaeda e pelo novo Estado Islâmico é uma variante. Tiveram seu período mais brilhante com o califa Harun al-Rashid, protagonista de muitos dos contos das Mil e Uma Noites e contemporâneo e aliado de Carlos Magno. Um de seus filhos e sucessores, Al-Mamun, tentou centralizar tanto o poder político quanto o religioso em suas mãos e criou uma instituição chamada mihna para perseguir os ulemás que contestassem sua versão do Islã, que relativizava o Alcorão e punha a razão acima do precedente sagrado. Essa “inquisição muçulmana” durou de 833 a 851, quando foi abolida pelo califa Al-Mutawakkil I. Desde então, o califado foi apenas uma liderança político-militar e a teologia e a jurisprudência sunitas foram independentes e plurais. Há quatro escolas principais, todas prestigiadas.

Importa também notar que tanto em Bagdá quanto em Córdoba os cristãos, judeus e algumas outras minorias religiosas eram respeitados. Apesar de serem súditos de segunda classe, obrigados ao pagamento de um imposto especial, não eram maltratados ou convertidos à força, praticavam seus costumes, resolviam seus assuntos internos por suas próprias leis e às vezes tiveram papéis sociais e econômicos importantes. A relativa tolerância dos muçulmanos medievais (à parte surtos ocasionais de “fundamentalismo”) é atestada pelo fato de importantes minorias judaicas e cristãs terem sobrevivido no coração do mundo muçulmano até hoje, enquanto judeus e muçulmanos foram erradicados das terras reconquistadas pelos cristãos na Península Ibérica e mesmo seus descendentes convertidos ao cristianismo foram perseguidos durante séculos pela Inquisição católica, que durou do século XII ao XIX.

Mas os conflitos políticos fragmentaram os domínios muçulmanos a partir do fim do século IX e, em meados do século X, uma dinastia persa tomou a própria Bagdá e reduziu o califado a mero símbolo, comparável ao imperador japonês na era dos xóguns ou ao soberano do Sacro Império Romano-Germânico após a Paz de Vestfália. Mesmo assim, era nominalmente acatado por todos os sunitas, cujos soberanos de fato se intitulavam “sultão” (autoridade) ou “emir” (comandante), jamais “rei”. Essa situação durou até 1517, ocasião em que o último califa abássida foi forçado a ceder o título ao sultão otomano Selim I, cujos sucessores o usaram até 1924, quando a revolução republicana turca de Mustafá Kemal aboliu o cargo e exilou seu último portador. Só então, soberanos árabes (a começar pelo rei do Nejd, depois Arábia Saudita, em 1927) adotaram o título de “rei”, antes aplicado apenas a cristãos e pagãos.

Durante esse período, a civilização árabe, acossada tanto por conflitos internos quanto por inimigos externos, tornou-se cada vez mais conservadora, até a derrota dos otomanos e submissão ao imperialismo europeu nos séculos XIX e XX. Aos olhos das massas empobrecidas, a ocidentalização das elites urbanas e seu abandono das tradições foi uma traição. Talvez isso fosse superado se as revoluções nacionalistas da segunda metade do século XX tivessem trazido mais prosperidade e igualdade, mas suas lideranças acabaram cooptadas ou esmagadas pelo Ocidente. Ao povo humilhado, restou se apoiar nos religiosos mais dispostos a denunciar as injustiças e condenar os opressores, ou seja, os mais intransigentes.

O Taleban, a Al-Qaeda e o Estado Islâmico são criações pós-modernas, tão fruto de seu tempo quanto o foi Hitler, a despeito de seu fascínio por arcaicos mitos “arianos”. O califado refundado por Al-Baghdadi, embora recorra a títulos e símbolos dos primeiros tempos do Islã e punições igualmente arcaicas (inclusive a amputação de mãos de ladrões e crucificação de inimigos), seria impensável na Idade Média. Nas formas de organização e propaganda, seu totalitarismo é mais que moderno. É tão eficiente na guerra moderna quanto no de técnicas de mar-
keting, financiamento e uso de redes sociais. Uma das medidas desesperadas do assediado regime de Bagdá ante o avanço do fundamentalismo foi tirá-las do ar, ante o receio de que Al-Baghdadi as use para promover um levante coordenado dos sunitas da capital e imediações.

É o lado moderno, não o “medieval”, que torna o Estado Islâmico e seu califa tão perigosos. Suas vitórias políticas e militares e seu discurso impiedoso o tornam poderoso catalisador da revolta de jovens sunitas no Oriente Médio e Europa e um polo de atração para militantes. Ganham mais forças à medida que se fecham as portas a formas mais razoáveis de rebeldia contra o imperialismo, como o nacionalismo, o socialismo e mesmo a Irmandade Muçulmana.

Estados Unidos e Israel humilharam o Fatah nos anos 1980, e o resultado foi o crescimento do Hamas. Hoje Tel-Aviv tenta esmagar o Hamas, mas, se tiver sucesso, isso só fará jovens palestinos aderirem cada vez mais ao autoproclamado califa. O apoio declarado de Benjamin Netanyahu à independência do Curdistão, que visa dividir ainda mais os muçulmanos e seduzir um fornecedor de petróleo, joga mais gasolina na fogueira que pode consumir seu país.

Os vizinhos Jordânia e Líbano são os próximos alvos da expansão do califado e o Egito, cuja explosão social foi apenas temporariamente reprimida, é terreno cada vez mais fértil para o extremismo. Nesse ponto, o mapa de seus entusiastas deixará de parecer tão absurdo e detê-lo poderá ser tão custoso quanto o foi derrotar as pretensões do Reich de mil anos.

*Reportagem publicada originalmente na edição 807 de CartaCapital, com o título "O califado do século XXI"

registrado em: , ,