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Número 807,

Sociedade

Europeia

Luta pela terra no Primeiro Mundo

por Francisco Colaço Pedro — publicado 16/07/2014 04h12
Ocupações contra projetos imobiliários e por ideais libertários proliferam na Zona do Euro
Annie Marie Chabod
terras-europa

O movimento contra o aeroporto de Notre-Dame-des-Landes aumentou com a repressão, no noroeste da França

À margem das instituições e da mídia, uma onda de ocupações de terras propaga-se pela Europa para reivindicar o direito à terra, deter a especulação imobiliária, implantar hortas comunitárias e centros de serviços públicos ou lazer, entre outras finalidades. Um dos casos de maior repercussão é o de Notre-Dame-des-Landes, no noroeste da França. Cerca de 40 mil pessoas entre famílias, jovens mascarados e agricultores da região ocupam 1,5 mil hectares pertencentes ao Estado e destinados à construção de um aeroporto. Elas estão determinadas a “lutar contra o avanço das obras, aprender a viver em conjunto, cultivar a terra e ter mais autonomia em relação ao sistema capitalista”. Há assembleias regulares, um jornal distribuído de bicicleta, padaria, biblioteca e até uma rádio pirata captada pelos usuários das autoestradas Vinci, a maior empresa de construção e concessões do mundo, responsável pelo projeto. Previsto para funcionar em 2017, o aeroporto foi adiado para 2020. Uma pesquisa mostrou 56% dos franceses contrários à obra, 24% favoráveis e o restante indefinido. Movimentos semelhantes brotam em outras regiões da França. Em Rouen e Dijon, terrenos são tomados para o cultivo de hortas comunitárias e bloqueio de projetos imobiliários. Em Avignon, uma manifestação contra a construção de uma autoestrada resultou na ocupação de casas e terrenos agrícolas.

Inspirados no Movimento dos Sem Terra brasileiro, na Via Campesina e em exemplos históricos do continente, jovens de toda a Europa se organizam desde 2007 na rede Reclaim the Fields (RtF), voltada para “o retorno à terra e a retomada do controle da produção alimentar”. Lutam contra megaprojetos e pela defesa das terras agrícolas e participam das mobilizações contra um projeto de trem de alta velocidade no norte de Itália, a expansão do aeroporto de Heathrow na Inglaterra e o projeto da maior mina de ouro a céu aberto do continente, na Romênia. O grupo se declara determinado a criar alternativas ao capitalismo através de cooperação, coletivismo, autonomia, produção em pequena escala e iniciativas em conexão com lutas políticas globais. “Há uma longa história de lutas pelo acesso e controle da terra na Europa. É importante partilhar a diversidade das experiências atuais”, afirma o RtF, expressão de contradições em uma Europa com áreas cada vez mais escassas e de propriedade crescentemente concentrada. Segundo o Trasnational Institute, 3% de proprietários controlam metade das terras europeias. A Política Agrícola Comum aprofunda as desigualdades ao beneficiar as grandes empresas agroalimentares em prejuízo dos agricultores.

As tentativas de debelar o movimento de Notre-Dame-des-Landes reforçaram a solidariedade entre ocupantes, habitantes da região e pessoas de todo o país. “Essa solidariedade dá uma sensação incrível de resistência à repressão. Há pessoas das cidades vizinhas e de toda a Europa”, diz Zou, um jovem participante de Paris. O total de 200 ocupantes hoje é superior ao de dois anos atrás. Em 2013, durante a jornada mundial das lutas camponesas e de luto pelo massacre de Eldorado dos Carajás, no Brasil, vários terrenos e quintas adjacentes foram tomados. “Há uma imensa quantidade de terra abandonada em toda a Europa. Faz sentido ocupar áreas coletivamente para nos alimentarmos, recuperar os usos tradicionais e proteger os ecossistemas locais”, diz Guillem, do Can Masdeu, área agrícola e centro social tomados há 12 anos na periferia de Barcelona, Espanha. Segundo o catalão, as tomadas de propriedades devem-se aos “tempos duríssimos da crise”, mas também ao número crescente de indivíduos dispostos a “construir alternativas, desde cooperativas de produção e consumo a núcleos habitados”. Há 2 mil aldeias abandonadas no país. Nas regiões de Navarra e Aragón, houve dez ocupações recentes. As aldeias de Artizkuren e Lakabe foram invadidas há 20 anos. Os projetos transcendem a ecologia e visam uma mudança social inspirada pelos ideais anarquistas de autogestão, apoio mútuo e funcionamento horizontal, sem hierarquia  nem discriminação. Na Andaluzia, o Sindicato de Trabalhadores retomou a ocupação de terras como forma de luta. Em 2012, 500 agricultores invadiram os 400 hectares da quinta de Somonte e, em maio do ano passado, outras três propriedades ociosas. “A ocupação põe em causa uma base de toda a sociedade: a propriedade como valor supremo”, diz Guillem. “O direito à propriedade não pode prevalecer sobre o direito a satisfazer necessidades básicas. Num tempo de crise civilizacional, essas experiências são exemplos de que se pode viver de outra maneira.”

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