Você está aqui: Página Inicial / Revista / Campanha eleitoral, a largada / A riqueza das dinastias
Número 807,

Economia

Análise/Paul Krugman

A riqueza das dinastias

por Paul Krugman — publicado 08/07/2014 05h06, última modificação 08/07/2014 05h19
As fortunas herdadas distorcem a economia política e contribuem para solapar a democracia

Várias pessoas me pediram para comentar a recente defesa da riqueza herdada feita por Greg Mankiw no New York Times. É um artigo estranho, estranhamente desconectado das preocupações reais sobre o capitalismo patrimonial. Mas deixem-me enfocar dois problemas-chave na análise de Mankiw, um puramente econômico, outro envolvendo a economia política.

Ele afirma que o acúmulo de riqueza dinástica é bom para todo mundo, porque aumenta o estoque de capital e, portanto, se transfere aos poucos para os trabalhadores na forma de maiores salários. Este é um bom argumento?

Bem, se há uma coisa que eu pensei que os economistas fossem treinados para fazer é serem claros sobre o custo de oportunidade. Deveríamos comparar o acúmulo de riqueza dinástica com algum uso de recursos alternativo, e não assumir, como Mankiw realmente faz, que, se não for transmitida para herdeiros, essa riqueza simplesmente desaparecerá. Talvez ele esteja supondo que a alternativa seria uma vida desregrada das pessoas atualmente ricas, mas essa não é uma alternativa política.

Na verdade, estamos realmente falando aqui da taxação da riqueza, e a questão é o que aconteceria com essa receita versus o que acontece se os ricos puderem guardar o dinheiro. Se o governo usar a receita extra para reduzir os déficits, então toda ela é salva, em oposição a apenas parte dela se for passada para os herdeiros. Se o governo usar a receita para pagar por seguridade social e/ou bens públicos, é provável que forneça muito mais benefícios para os trabalhadores do que a transferência paulatina do capital aumentado.

Os defensores só podem justificar a alegação de Mankiw de que a riqueza herdada é necessariamente boa para os trabalhadores, insistindo que o governo não faria nada útil com a receita dos impostos sobre heranças. Eu chamaria isso de assumir suas conclusões; em todo caso, é uma alegação que merece ser feita abertamente, e não contrabandeada sob a pretensão de que ele está apenas fazendo análise econômica.

Mas a maior crítica ao artigo de Mankiw é que ele ignora o principal motivo pelo qual estamos preocupados com a concentração de riqueza em dinastias familiares – a crença de que ela distorce nossa economia política; que ela mina a democracia. Você não precisa ser radical para compartilhar essa preocupação. Não apenas pessoas como Theodore Roosevelt falaram abertamente sobre esse problema, como também (como indicou o economista Thomas Piketty) Irving Fisher em seu discurso de posse na presidência da Associação Econômica Americana em 1919.

O curioso é que os economistas conservadores estão conscientes do perigo da “captura regulatória”, em que as instituições públicas são sequestradas por interesses velados, mas rejeitam alegremente (ou se recusam até a mencionar) o problema essencialmente equivalente de as instituições democráticas serem sequestradas pela riqueza concentrada. Eu levo muito a sério a captura regulatória, mas levo igualmente a sério a captura plutocrática. E essa não é uma questão com que você pode lidar afirmando que os benefícios do acúmulo de capital escorrem aos poucos para os trabalhadores.

Se Mankiw quer argumentar que os custos de qualquer tentativa de limitar a concentração de riqueza superariam os benefícios, ótimo. Mas “mais capital é bom” não é uma contribuição útil para a discussão.

O ex-secretário do Tesouro Hank Paulson escreveu no New York Times um editorial muito triste sobre a mudança climática. Declarou que devemos agir da mesma maneira feita para conter a crise financeira. É uma analogia duvidosa: a crise em 2008 foi rápida, e pessoas como Paulson podiam advertir que, a menos que os Estados Unidos agissem, a economia do mundo desmoronaria em questão de dias. Já a mudança climática é lenta, mas inexorável, com um ímpeto enorme, quando a crise se tornar inegável, será tarde demais para evitar a catástrofe.

O triste é Paulson imaginar que alguém no Partido Republicano o escute. As rédeas do poder estão nas mãos de homens que acreditam ser a mudança climática uma balela inventada por cientistas liberais para justificar o “grande governo”, e que se recusam a reconhecer ser justificada a intervenção estatal para corrigir as falhas do mercado.

A ação climática depende totalmente dos democratas. Com um na Casa Branca, tivemos algum movimento, se os democratas eventualmente recuperarem a Câmara dos Deputados, poderá haver mais. Se Paulson acredita poder apoiar os republicanos, enquanto ainda pede ação climática, está iludido.