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Número 807,

Política

Análise/Wálter Maierovitch

A Costa Rica já é campeã

por Wálter Maierovitch publicado 05/07/2014 08h32
Uma Constituição exemplar, a ex-Castilla del Oro, pode ostentar o título de nação mais feliz do mundo, ou menos infeliz
ARIS MESSINIS/AFP
Costa Rica

Não é só do futebol que a Costa Rica pode se orgulhar

Em 1502, na sua quarta e última vigem à América, o navegador genovês Cristóvão Colombo imaginou ter encontrado um lugar com muito ouro. Daí, deu-lhe o nome de Costa Rica.

O ouro foi observado por Colombo nos adereços carregados pelos cordiais nativos de então. Daí, “chutou” e o escriba anotou sobre a abundância. Por volta de 1600 os predadores e sanguinários espanhóis, em livros escolares tratados como colonizadores, penetraram na apelidada Castilla del Oro, sem sucesso. Enfurecidos, constataram que o ouro buscado não brotava ali e deveriam buscá-lo em outras florestas da chamada América espanhola. A propósito e com base em dados atuais de setores secundários da economia, no subsolo da Costa Rica é modesta a quantidade de ouro, aliás, só encontrável em San Ramón. Nas exportações, setor primário, prevalece o café, a concorrer com o brasileiro.

Como os seus vizinhos da América Latina, a Costa Rica, após se tornar independente do México, em 1821, conviveu com militares golpistas. Até sob a roupagem presidencialista do general Tomás Guardia, que impôs um arremedo constitucional, a durar de 1871 a 1948, quando eclodiu a guerra civil. Esta serviu de alicerce à construção de um exemplar Estado Democrático de Direito, gerador de notável estabilidade política. Tudo isso materializado na Constituição de 1949, que ainda está em vigor.

Em 1948, o nacionalista Figueres Ferrer desalojou os militares do poder, tornou-se presidente transitório e fautor da Constituição de 1949. Para alguns historiadores não foi um golpista, uma vez legitimado pela vitoriosa revolução. Ferrer teve uma conduta única, ou seja, em curto período ele marcou eleições livres sem concorrer a elas, como convinha a uma democracia em construção. O eleito pelo povo foi Otilio Ulate, militante do Partido de Libertação Nacional. A pena capital foi abolida, as mulheres e os negros passaram a votar com cidadania plena à luz da nova Carta.

Para evitar novos golpes militares, a Constituição dissolveu o Exército, e até hoje a Costa Rica é um país sem Forças Armadas. Apenas a Polícia Civil está autorizada a portar armas, dividida em Polícia de Fronteira, Florestal e de Ordem Pública. Desde 1983, manteve a neutralidade nos conflitos internacionais, o que a habilita a desempenhar ações diplomáticas de mediação.

A Carta de 49 provocou uma profunda mudança cultural. A Costa Rica possui 27,9% de vigiada reserva florestal. Os serviços de saúde, com aplicados critérios avaliatórios internacionais, são considerados bons e 95% da população é alfabetizada. Em fevereiro de 2010, elegeu-se a primeira presidenta, Laurita Chinchilla Miranda, sempre por um mandato de quatro anos.

No território costa-riquenho estão sediadas a Universidade para a Paz das Nações Unidas e a Corte Interamericana de Direitos Humanos, estabelecida no Pacto de San José. O sistema Judiciário segue o modelo europeu e a Assembleia Nacional é composta de 57 parlamentares, número dado como suficiente. Ao contrário do Brasil, a Costa Rica possui um Prêmio Nobel, o pacifista Oscar Arias Sánchez.

A Costa Rica sempre teve atuações modestas em Copas do Mundo. Nesta, conseguiu um feito notável. Nos abiscoita outro título, mais importante do que qualquer outro, é campeã mundial da felicidade.

Segundo o Censo de 2012, sua população é estimada em 4.793.725 habitantes, majoritariamente de origem europeia e com 80% de católicos. Gente feliz, até por ter na sua seleção um técnico colombiano capaz de montar um time com meio de campo e que, ao contrário de Felipão, utiliza raramente a chamada “ligação direta” da defesa ao ataque. Os costa-riquenhos acham que a seleção nacional, com o primeiro lugar no chamado “grupo da morte”, disputado com campeões do porte de Uruguai, Itália e Inglaterra, só fez aumentar o desejo de conquista para quem ganhou três vezes a Concacaf.

Pano rápido. Cristóvão Colombo, de alguma forma, acabou por acertar, cinco séculos depois, ao batizar de Costa Rica a terra recém-descoberta.

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