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Número 806,

Política

Obituário político

Sarney joga a toalha e abandona a política

por Redação — publicado 27/06/2014 10h50
O senador desiste de concorrer a mais um mandato
Arte: Baptistão
José Sarney

Tudo para dar sobrevida ao poder do clã

Ao contrário de Antonio Carlos Magalhães, José Sarney nunca exibiu em público o mandonismo típico de coronel. Se ACM era um africâner da época do apartheid na África do Sul, Sarney comporta-se como um lorde inglês durante a ocupação da Índia.

A violência é a mesma, o método, diferente.

O estilo afável exibido em Brasília e no Centro-Sul do País e o ecumenismo das alianças políticas, sem nunca esquecer a origem do verdadeiro poder, fez dele um sobrevivente. Alguns ditos progressistas o amaram no início da carreira. Glauber Rocha filmou Maranhão 66, ode ao então jovem governador disposto a varrer do cenário um plutocrata que mantinha o estado no período das capitanias hereditárias. Pobre Glauber: nascia a mais duradoura oligarquia do Brasil, ainda de pé, para azar dos maranhenses.

Sarney serviu à ditadura com denodo, boicotou o movimento das Diretas Já, pulou do barco da Arena quando esta afundava, tornou-se presidente da República por acidente, o primeiro após o fim do regime, deixou o governo com os piores índices de popularidade já registrados e, quando tudo parecia acabado, se reinventou. Abdicou do trono no Maranhão em nome da filha Roseana e partiu para a conquista do Amapá. Aliou-se ao governo Fernando Henrique Cardoso e tornou-se conselheiro de Lula e Dilma Rousseff. Enquanto isso, nos quintais da família, seus apaniguados continuam a exercer o poder de forma desmedida. Perseguem adversários, usufruem a bel-prazer dos bens públicos e mantêm a maioria na miséria.

Aos 84 anos, o senador acaba de anunciar a aposentadoria da vida parlamentar, não da política. A decisão mira a sobrevida do poder de descendentes e aliados. Não deixa de ser, no entanto, o ocaso pessoal de um senhor de engenho. Mas, apressados, não comemorem. Diante da ascensão no PMDB de Henrique Eduardo Alves e Eduardo Cunha, chegará o dia em que o Brasil se lembrará, saudoso, da urbanidade de Sarney.

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