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Número 806,

Política

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PSOL acumula problemas de velhos partidos

por Rodrigo Martins publicado 08/07/2014 05h04, última modificação 08/07/2014 05h19
Com dez anos de vida, o PSOL chega às eleições com desentendimentos locais e militância dividida
Reprodução / PSOL

Com apenas dez anos de existência, o PSOL chega à corrida eleitoral deste ano com uma barulhenta militância animada pelas manifestações de rua. O partido acaba de apresentar sua candidata à Presidência da República, a ex-deputada gaúcha Luciana Genro, de 43 anos, eleita por unanimidade na convenção nacional em 22 de junho. A imagem de uma legenda unida não está, contudo, estampada nas fotos do evento.

Algumas das principais lideranças não compareceram à festa, entre elas os deputados federais Jean Wyllys, Ivan Valente e Chico Alencar. O único senador do partido, Randolfe Rodrigues, também não deu as caras. E quem não prestou atenção ao noticiário político na semana anterior pode ter estranhado ainda mais a cena. O candidato não era justamente Rodrigues?

Era, mas o senador desistiu da candidatura nove dias antes da convenção. Justificou a debandada pela necessidade de dedicar-se à política no Amapá, por temer o retorno ao poder do grupo político ligado ao ex-presidente José Sarney. Não poupou, porém, críticas à direção do PSOL, a quem atribui o “equívoco” de abraçar a campanha #nãovaitercopa e “erros de avaliação” das demandas populares durante as jornadas de junho. Para complicar o cenário, a legenda deve seguir sozinha na disputa nacional. Não conseguiu fechar acordos com nenhum outro partido de esquerda. O PSTU e o PCB optaram pelo voo-solo.

Os desentendimentos locais também contribuem para dividir a militância. Em maio, o filósofo e colunista de CartaCapital Vladimir Safatle desistiu de concorrer ao governo de São Paulo. Sem alternativa, o partido optou por lançar o jornalista Gilberto Maringoni. No calor dos acontecimentos, Safatle não escondeu a insatisfação com a direção: “Não desisti, a candidatura foi abandonada”. Em carta aberta à militância, queixou-se da falta de estrutura e recursos. “Durante as várias vezes em que discuti a infraestrutura para a campanha, ouvi que 2% de votos estaria bom. Não penso assim, acho esse raciocínio completamente equivocado e, se pensasse dessa forma, não teria aceitado entrar no debate em torno da candidatura. Queria saber a quem interessa que o nosso partido continue pequeno.”

A despeito das ausências no lançamento da candidatura, Luciana Genro nega qualquer rusga ou divisão interna. “Houve um debate político acirrado, mas construímos uma unidade muito sólida. A ausência dos parlamentares na convenção não foi um sinal de desunião. Na verdade, não percebemos que isso poderia transmitir essa mensagem errada. Teremos um grande ato no Rio de Janeiro em 6 de julho, e lá estarão todos os parlamentares e demais lideranças.”

A presidenciável foi duas vezes deputada estadual no Rio Grande do Sul e deputada federal por outros dois mandatos. Filha do governador gaúcho Tarso Genro, do PT, ela aposta em uma ousada plataforma política, baseada na auditoria da dívida pública e uma ampla reforma do sistema tributário, incluída a taxação de grandes fortunas. A descriminalização da maconha, a legalização do aborto e a garantia dos direitos LGBT compõem os demais temas que a gaúcha pretende levar ao debate eleitoral. Segundo ela, é preciso vencer a hipocrisia e fazer um contraponto à onda conservadora que se alastra no País. “Sabemos que muitos deixarão de votar no PSOL por conta dessas posições, mas é preciso vencer os preconceitos e fazer as discussões necessárias.”

Ao desistir de concorrer à Presidência, Randolfe Rodrigues sugeriu ao PSOL lançar a candidatura de Marcelo Freixo, ex-deputado estadual do Rio de Janeiro. “Meu nome não conseguiu unir a esquerda, tampouco foi capaz de fazer frente ao avanço conservador no País. Precisávamos de um nome de peso, e o Freixo conseguiu ficar em segundo lugar na disputa pela prefeitura carioca”, afirma o senador. Esqueceu-se de combinar com os russos. Freixo recusou a oferta e disse estar mais interessado em ampliar a bancada estadual do partido.

Rodrigues sustenta ainda que o partido precisa fazer uma autocrítica. Primeiro, por ter abraçado a campanha contra a Copa. “Criticar os gastos abusivos com estádios ou a inversão de prioridades é correto, mas opor-se à uma festa que o povo ama é um tiro no pé”, sentencia. Além disso, reclama do “centralismo” e da “rígida hierarquia” existente no partido. “É um modelo de esquerda que remonta ao século XIX.”

Em resposta, Luciana Genro afirma que o PSOL jamais adotou o slogan #nãovaitercopa. “Em vez disso, o grande mote foi ‘Na Copa vai ter luta’. E isso está correto, como tirar a razão dos sem-teto ou dos metroviários que aproveitaram a exposição para reivindicar seus direitos? Essa crítica do Randolfe está absolutamente descontextualizada da prática do partido.” Ela não arrisca um palpite do porcentual de votos que pode obter. Na semana em que desistiu da candidatura, o senador do Amapá nem sequer conseguiu pontuar em uma pesquisa do Ibope. Ainda assim, a candidata aposta alto: “Hoje, temos três deputados federais. A expectativa é duplicar ou mesmo triplicar a bancada do PSOL na Câmara”.

Ao voltar-se para a política amapaense, especulou-se que Rodrigues pudesse lançar candidatura ao governo estadual. Ele mesmo admite ser remota a possibilidade, uma vez que a maioria dos partidos de esquerda fechou acordos locais para apoiar a reeleição de Camilo Capiberibe, do PSB. Mas pressiona o governador a liberar mais recursos para a prefeitura de Macapá, administrada pelo correligionário Clécio Luís, antes de declarar apoio. O acordo deve ser sacramentado após a assinatura de um convênio de 32 milhões de reais para obras de pavimentação na capital.

*Publicado originalmente na edição 806 de CartaCapital, com o título "Como nossos pais"