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Número 806,

Política

Copa do Mundo

Na Copa do Mundo, o pessimismo foi goleado

por Cynara Menezes — publicado 04/07/2014 03h56, última modificação 04/07/2014 09h21
A organização eficaz do mundial de futebol e o entusiasmo popular derrotam as previsões sombrias
Gustavo Andrade / AFP
Copa do Mundo

Verdadeira Zebra. Na mídia brasileira, apenas o jornal Zero Hora, de Porto Alegre, reconheceu o excesso de negativismo

A maior virada da Copa do Mundo aconteceu nos estádios, mas não exatamente em uma partida entre duas seleções. O fiasco previsto durante a fase de preparação do torneio não se confirmou e o evento surpreende até os mais otimistas, raros antes do início do Mundial. Os prognósticos do “desastre” e do “fracasso sem precedentes” deram lugar a um estado de ânimo completamente oposto. Talvez não seja a “Copa das Copas” como defende a presidenta Dilma Rousseff, tampouco desenha-se o vexame anunciado (e freneticamente esperado) por muitos.

De uma tenebrosa “epidemia de dengue” à “vergonha” antecipada pelo oportunista Ronaldo, falou-se de tudo contra o torneio. O ex-jogador é, aliás, um fenômeno. Apoiou a Copa, depois a criticou. No mesmo momento, por coincidência, declarou apoio a Aécio Neves na sucessão presidencial. Novamente voltou a elogiar a competição no papel de comentarista da Rede Globo.

A má vontade da mídia nativa contagiou os jornalistas estrangeiros a ponto de, nos últimos dias, vários meios de comunicação do exterior virem a público fazer um mea-culpa em relação ao pessimismo demonstrado nos meses que antecederam o evento. O espanhol El País disse com todas as letras: “Não era para tanto”. Segundo o jornal, esperava-se “uma espécie de apocalipse brasileiro, em que pouco ou nada ia funcionar como devia”.

“Havia quem pintasse uma imagem negra desta Copa do Mundo que se podia resumir assim: estádios sem terminar aos que se chegava por estradas inconclusas, rodeados de manifestantes antifutebol e policiais antimanifestantes em meio a gangues de delinquentes assaltando o torcedor desesperado, que se maldizia por não haver se conformado em assistir às partidas pela televisão de sua casa e que não podia fugir dali porque o metrô não funcionava por causa de uma greve selvagem que afundava a cidade em um engarrafamento monstro, escuro e pronto”, escreveu o diário madrilenho.

O francês Le Monde saudou “a improvisação brasileira” que “se revela à altura do evento” e falou em “milagre” ao elogiar uma Copa feita à imagem e semelhança do País: “Bagunçado e simpático, descontraído e acolhedor”. O New York Times fez um resumo sob o título: “Previsões apocalípticas viraram pequenos soluços”. O Washington Post ecoou o otimismo: “Copa é só cerveja, praia e futebol”. Os britânicos Guardian e BBC seguiram em idêntica toada. Com aeroportos e estádios em ordem e as estatísticas sobre os gols se multiplicando, alguns meios estrangeiros chegam a ecoar Dilma: a “melhor Copa do Mundo da história”. Verdadeira zebra.

Na mídia brasileira, apenas o jornal Zero Hora, de Porto Alegre, reconheceu o excesso de “negativismo” prévio. “Um balanço parcial do que aconteceu até agora livra o País da ameaça de um fracasso, fomentado pelos que, sob o pretexto de alertar para nossas deficiências, torciam contra o próprio país”, escreveu o diário gaúcho em editorial. E revelou o que muitos partidários da Copa perceberam desde o começo e que ficou evidente com o sucesso do evento. Havia críticas legítimas à realização do Mundial, mas muitos o atacaram com intuito meramente político. Resta uma pergunta: o Zero Hora integrava qual dos dois grupos?

Se o mau humor no jornalismo foi um fator decisivo para o pessimismo generalizado, a recíproca não se concretizou. Uma vez iniciada a Copa, uma onda espontânea de adesão surgiu e encontrou nas redes sociais o principal termômetro, motivado não só pela organização do Mundial em si, mas, principalmente, por um componente ignorado tanto pela mídia quanto pela oposição, o fator “boleiro”. Em outras palavras: a torcida se dispôs a colocar, ainda que brevemente, as insatisfações de lado para apreciar os jogos.

A força dos “boleiros” foi detectada em uma análise inédita feita pelo Laboratório de Estudos de Imagem e Cibercultura (Labic) da Universidade Federal do Espírito Santo. Os pesquisadores têm monitorado diariamente as redes sociais desde o início da Copa e chegaram a conclusões curiosas. A primeira delas é cromática: se durante as manifestações de junho passado a cor predominante nas imagens divulgadas pela rede foi o preto, com a Copa predomina o verde e amarelo das camisetas da Seleção, das bandeiras e dos gramados. Em termos de palavras, a frase “não vai ter Copa”, que se espalhava pela internet antes da abertura, diminuiu de forma abrupta à medida que os jogos empolgavam.

De forma pioneira, o Labic coletou em tempo real todas as imagens que apareceram no Twitter e observou um predomínio dos “memes” (fotos manipuladas com frases cômicas) nos posts mais compartilhados, o que reflete o bom humor atual em relação à Copa. Por trás dos “memes” estão os “boleiros”, ocupando os espaços midiáticos da rede à frente de quaisquer outros perfis.

“Mesmo sem deixar de lado suas convicções e de exercer a crítica quanto à forma com que a Copa foi organizada, o discurso ‘boleiro’ contaminou a rede de tal maneira que reduziu a visibilidade do público anti-Copa, ofuscou o discurso político”, avalia o coordenador do Labic, Fábio Gouveia. “O ‘não vai ter Copa’ permanece no dia seguinte à abertura, mas não resiste à repercussão dos primeiros jogos e cai de forma brutal. O verde e amarelo nas imagens prevalece, sobretudo pelo fato de as partidas serem disputadas durante o dia, com os estádios coloridos, mas também, de certa forma, pela alegria.”

Sobre o interesse dos estrangeiros, uma empresa de procura de hotéis, a Trivago, comparou as buscas de turistas do mundo por destinos brasileiros nos cinco primeiros meses de 2014 com o mesmo período do ano passado, e constatou aumento de 372%. Australianos, norte-americanos, holandeses e suíços puxaram as estatísticas para cima. Começam a surgir ainda pesquisas positivas que atestam a satisfação dos turistas com a Copa, como a realizada em Manaus pela Secretaria de Turismo estadual (80% dos ouvidos se declararam satisfeitos com quesitos como infraestratura urbana, equipamentos e serviços turísticos e 97% com a hospitalidade dos amazonenses).

A reviravolta na imagem do evento animou o governo. Nas pesquisas encomendadas pelo Palácio do Planalto, a reversão do pessimismo em relação à Copa do Mundo aparece de forma incontestável. A avaliação sobre a organização tem 58% de ótimo e bom, com a recepção aos turistas e os estádios no topo das análises positivas. Também a segurança pública e o funcionamento dos aeroportos derrotaram as previsões mais pessimistas. Não houve caos aéreo e jogadores e visitantes elogiaram o sistema. Transporte público e trânsito permaneceram, no entanto, com as percepções negativas de antes da Copa. Sinal de que o “boleiro” não é necessariamente alienado.

O recall de notícias feito pelo Planalto mostra que o noticiário esportivo passou a predominar sobre as notícias de manifestações e da organização do evento. A invasão dos torcedores chilenos ao Maracanã foi pouquíssimo mencionada pela mídia, apesar da tentativa, por parte de alguns veículos, de esticar um assunto menor. O engajamento é alto: apenas 16% dos entrevistados afirmaram não ter assistido a nenhum jogo, e 41% dos torcedores afirmaram ter assistido a todos os jogos que puderam, não somente aqueles da Seleção.

Outro levantamento, feito pelo PT, mostrou que os insultos à presidenta Dilma Rousseff na abertura da Copa do Mundo tiveram efeito contrário ao pretendido pelos torcedores presentes no Itaquerão. Desde 12 de junho, as menções negativas a Dilma, nas redes sociais, têm diminuído. Até o início da Copa, entre as 30 mil citações diárias à presidenta, dois terços eram negativas. Depois do espetáculo de grosseria no primeiro jogo, ela passou a ter 60% de menções positivas nas redes sociais.

Os torcedores brasileiros nos estádios são os atuais alvos das críticas da mídia especializada. No “País do futebol”, chama a atenção dos repórteres estrangeiros uma plateia desanimada e pouco criativa se comparada àquelas dos demais países, incapaz de vibrar com as vitórias da própria Seleção, a ponto de o atacante Neymar pedir aplausos após um de seus dois gols na vitória de 4 a 1 sobre Camarões. O máximo de empolgação demonstrada pela torcida é o Hino à capela. Ao contrário dos argentinos, não fizeram nem mesmo uma música para animar o time. Preferiram recorrer ao pouco original “sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor”. A turma que se esforçou para obter um ingresso anda desmentindo um surrado ditado: o melhor do Brasil é o brasileiro.

*Reportagem publicada originalmente na edição 806 de CartaCapital, com o título "O pessimismo goleado"