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Número 806,

Cultura

Entrevista

Na trilha do tio Edgard

por Tom Cardoso — publicado 05/09/2014 10h59, última modificação 10/09/2014 18h50
A teimosia, herdada de quem sustentou a família com música, engrandece a obra sem concessões de Egberto Gismonti
Pedro Garrido
Edgberto Gismonti

Edgberto Gismonti foi pioneiro ao comprar os direitos de comercialização de seus discos

Se existe uma linha evolutiva na música brasileira, Egberto Gismonti é o ponto fora da curva. O instrumentista e compositor jamais pertenceu a nenhum movimento, é daqueles músicos que não fazem qualquer tipo de concessão e tornou-se dono do seu próprio nariz e de sua obra. Foi o primeiro artista nacional a comprar os direitos de comercialização de todos os seus fonogramas, nos anos 1980. A ele pertencem 67 discos gravados em 42 anos de carreira, produção que só não é maior porque mantém na gaveta outros 20 gravados, a serem lançados “quando fizer sentido”.

Mestre na fusão entre a música erudita e a popular – Dança das Cabeças, de 1976, pela gravadora europeia ECM e com a participação do percussionista brasileiro Naná Vasconcelos, é considerado pela crítica mundial o ponto alto dessa mistura –, Gismonti recebeu CartaCapital para um almoço em seu apartamento no Jardim Botânico, na zona sul do Rio de Janeiro. Avesso a entrevistas, negou a fama de difícil, cultivada principalmente por rejeitar dezenas de convites de participação em discos todos os anos, seja de quem for. “A maioria dos convites eu recuso porque acho que não vou dar conta, que não vou saber fazer direito.”

CartaCapital: O senhor é um dos raros compositores brasileiros donos do seu próprio acervo. De onde vem essa consciência?

Egberto Gismonti: Do meu tio, Edgard Gismonti, também músico, lá do Carmo, onde também nasci. Ele conseguiu o impossível: viver de música numa cidade de 3 mil habitantes na época, tocando valsa para os aniversariantes da cidade. Com a música sustentou uma família inteira, mesmo sem ter direito sobre as suas composições. Fui estudar a fundo direito autoral para ter controle total sobre a minha obra, algo que nenhum músico brasileiro tinha. Nem era para ter...

CC: Por quê?

EG: A função de um músico como Tom Jobim não era estudar direito autoral, e sim transformar a música brasileira na mais executada do mundo. Ele tinha outras preocupações. João Gilberto também. Até pouco tempo, bastava ser músico no Brasil para ser perseguido pela polícia, e isso sem compor uma só música de protesto. É injusto, portanto, que se cobre da classe essa consciência.

CC: Mas o senhor teve...

EG: Sim. Antes de ir para a Inglaterra, conversar com a EMI, a minha gravadora na época, sobre a compra dos meus fonogramas, passei dois anos estudando direito autoral com o advogado João Carlos Eboli, especialista no assunto. A cada 15 dias, durante esse tempo, ele fazia uma sabatina comigo, perguntava determinado artigo na lei. Quando entrei na sala do presidente da EMI, ele estava pronto para me dobrar, mas não dobrou. Hoje, toda a minha obra me pertence.

CC: O senhor é famoso por não fazer concessões, por recusar muitos convites...

EG: Muitos. Eu tenho de acreditar naquilo que vou fazer.

CC: Essa fama de músico “difícil”, portanto, é justa?

EG: Não sou difícil. A maioria dos convites eu recuso por achar que não vou dar conta, que não vou saber fazer direito. A (Maria) Bethânia, minha grande amiga, ficou cinco anos me ligando, pedindo para eu participar de um disco dela. “Vou te mandar uma música para você compor o arranjo.” Aí mandava a gravação, eu ouvia e ligava para ela. “Desculpe, mas não posso fazer porque não sei tocar essa música.” Bethânia respondia: “Está certo, vamos esperar outro ano”. Resolvemos essa questão de outra forma.

CC: Qual?

EG: Eu recusei vários outros convites da Bethânia. Um dia ela me ligou e disse: “Olha, Egberto, vou gravar um disco comemorativo de 25 anos de carreira e quero que você faça parte dele. Dá um jeito aí, não tem conversa, se vira”. Eu podia escolher qualquer música. Fiquei dias pensando até que decidi fazer um arranjo para Canto do Pajé, do Villa-Lobos. Fazia sentido: a Bethânia é uma pajé.

CC: O senhor foi chamado para fazer parte da trilha de Parceiros da Noite, filme do diretor William Friedkin, com Al Pacino. E quase recusou. Como foi essa história?

EG: O Friedkin ligou lá em casa. “Olha, tenho um filme e gostaria que você fizesse parte da trilha”. Disse: “Ótimo, me manda o filme”. E ele: “Não posso mandar o filme para o Brasil”. Disse que não havia problema se ele me mandasse lá para vê-lo. E eu fui. Cheguei no hotel e estava lá um videocassete com uma fita em cima. Só havia algumas cenas do filme. Treze minutos no total. Liguei para a produção e disse: a fita está com defeito. Eles disseram que não, que só podiam mandar aquele trecho, a parte na qual a minha música entraria. Eu retruquei: sem ver o filme não tem como compor música nenhuma e informei que estava voltando naquele exato momento para o Rio de Janeiro. Aí chegou a fita, com o filme inteiro. O meu tio Edgard me ensinou a ser teimoso.

CC: Qual seu próximo trabalho?

EG: Os jornalistas sempre me perguntam e eu nunca tenho como responder.

CC: Por quê?

EG: Porque não sei. Tenho 20 concertos gravados, prontos, mas não sei ainda quando vou lançá-los. A Carmo (a gravadora criada por Gismonti) talvez lance um disco gravado em Tóquio, com a nova filarmônica de lá, e com a Corações Futuristas (orquestra formada por jovens músicos, comandada pelo compositor). Falo de um disco de música brasileira, tocada por músicos japoneses e brasileiros, que me deu grande alegria de fazer. E que, portanto, faz todo o sentido lançar agora.

CC: Foram raras as vezes que o senhor entrou num estúdio para gravar um disco. Eles são todos gravados ao vivo, no palco.

EG: Para que entrar no estúdio, se posso subir no palco e gravar tudo? Ah, mas e os erros? Está ótimo, não tem problema nenhum. Eu nunca quis seguir o modelo tradicional das gravadoras, só atrapalha. Quando fiz o disco só com músicas de Villa-Lobos, o Trem Caipira, de 1985, o Beto Boaventura, na época presidente da EMI no Brasil, disse que eu poderia rodar o Brasil com o disco que ele não tocaria em lugar nenhum, que a música era confusa, ninguém ia entender. Disse: “Vai ficar simples pra danar, você vai ver”. Deu no que deu: disco de ouro.

CC: E o que fez para vender tanto?

EG: Rodei o Brasil. Fui negociar diretamente com os caras, com os atacadistas. Aquele galpão enorme, cheio de caminhões, e o cara sentado comigo: “Me diz uma coisa, esse tal de Villas-Boas é bom mesmo?” E eu: “Villa-Lobos é uma beleza e o sujeito que está tocando sua música nesse disco, também”. E a atacadista: “Ouvi dizer que você é muito bom. Fulano, quantos discos estamos comprando?” Veio uma resposta lá do fundo: “Cinco mil”. “Então compra mais 10 mil.” Havia um preconceito do pessoal do Sudeste em relação ao resto do País, de achar que o Rio e São Paulo representavam o Brasil. Na verdade, é o pequeno Brasil, um pedaço, que acha que é tudo.

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