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Número 806,

Internacional

Espanha

Podemos: das calçadas para as urnas da Espanha

por Agnese Marra — publicado 08/07/2014 05h05, última modificação 08/07/2014 05h19
O Podemos, que ajuda a romper o bipartidarismo da política espanhola, foi uma das boas novidades das eleições europeias
Javier Soriano/AFP
Podemos-Espanha

O Podemos, apesar de jovem, obteve a quarta maior votação e elegeu cinco eurodeputados. Na imagem, o movimento de ocupação 15 de Maio

De Madri

Começaram a casa pelo telhado. Primeiro se apresentaram às eleições e agora buscam definir-se como partido, embora os termos lhes provoquem arrepios. Em apenas quatro meses, a “iniciativa”, como prefere chamar Teresa Rodríguez, eleita eurodeputada pelo Podemos, mudou o cenário político espanhol e rachou o dique do bipartidarismo instalado há décadas no país.

Se em várias partes da Europa os resultados das eleições significaram uma guinada para a extrema-direita, na Espanha a justiça social foi a escolha de 20% da população, a começar pelo 1,2 milhão de votos no Podemos.

Pela primeira vez na história da democracia espanhola, os partidos tradicionais, PP e PSOE, não somaram ao menos 50%. Perderam 5 milhões de votos em relação à disputa de 2009. Ao mesmo tempo, o Podemos colocou-se como a quarta força política nacional, a terceira em cinco estados, entre eles Madri. “As expectativas são enormes, pois eles chacoalharam o panorama político espanhol e demonstraram que dá para fazer política de outro jeito”, afirma o cientista político Jaime Pastor.

O Podemos surgiu em janeiro deste ano. Um grupo de ativistas de diversos movimentos sociais e outro a reunir professores da Faculdade de Política da UCM de Madri apresentaram o manifesto: “Mover ficha: Convertir la indignación en cambio político”. O resultado foi uma campanha ousada criada por uma equipe jovem (a maioria tem menos de 30 anos). Por meio de uma nova metodologia, uma linguagem bem escolhida e o domínio da mídia e das redes sociais, o Podemos conectou-se a um eleitorado que há muito se sentia desamparado e colheu resultados extraordinários.

O clima também é favorável. Após cinco anos de crise, a Espanha tem a segunda maior taxa de pobreza infantil da Europa, atrás apenas da Romênia. O desemprego atinge 26% da população ativa, e sobe a 55% entre os jovens. Mais de 400 mil espanhóis abandonaram o país em busca de um presente e de um futuro. A dificuldade para pagar os financiamentos e aluguéis provocou uma média de 500 despejos diários até 2013 e deixou na rua mais de 500 mil famílias.

O movimento de ocupação 15 de Maio, nascido em 2011, foi a primeira demonstração de descontentamento e frustração da sociedade espanhola. “O 15 M foi o nosso primeiro momento de indignação. Depois assentaram-se as bases para uma repolitização da cidadania. O Podemos foi a concretização política de tudo isso. Sem o 15 M, o Podemos não existiria”, explica Teresa Rodríguez. A nova agremiação tem tido sucesso em fustigar o principal inimigo. A palavra “casta” repetida à saciedade pelo líder do grupo, Pablo Iglesias, deixou aos partidos tradicionais o papel de verdadeiros culpados por uma crise na qual “se defendem os mercados financeiros e se maltratam os cidadãos”.

O Podemos não quer se definir como partido e foge da dicotomia esquerda-direita. “Criticamos a estrutura atual das legendas. A diferença está em nossa metodologia aberta, não exigimos nenhuma identidade política ou uma carteirinha de associado. Não queremos ser situados à esquerda ou à direita de ninguém. Estamos com os de baixo e defendemos as maiorias castigadas pelos recortes sociais feitos pelos de cima, pelas elites”, afirma a eurodeputada.

Influenciados pelas ideias do cientista político italiano Antonio Gramsci e pelos movimentos sociais latino-americanos, o Podemos almeja criar amplas maiorias de participação cidadã. O eixo do debate se produz por meio dos chamados “Círculos Podemos”, agrupamentos formados por qualquer cidadão disposto a participar na elaboração do programa. As candidaturas apresentadas nas eleições foram escolhidas em listas abertas, nas quais os integrantes de círculos votavam. Mais de 33 mil espanhóis escolheram os nomes em uma lista na qual os perfis dos candidatos espelhavam as ruas: professores universitários e de ensino médio, doutorandos obrigados a trabalhar como garçons ou sair da Espanha para procurar emprego etc.

A preocupação em refletir o desejo das ruas levou os cinco eurodeputados do grupo a rejeitar o salário de 8 mil euros. Os parlamentares decidiram não receber mais de três vezes o salário mínimo espanhol, um total de 1,9 mil euros. Na Europa, o grupo tem manifestado seu apoio à esquerda grega ligada ao Syriza. Na Espanha, defendem uma renda básica para todos e um forte controle fiscal dos bancos e se mostram a favor da imigração.

Seu sucesso tem provocado a multiplicação dos “Círculos Podemos”. Desde a eleição, o número de círculos triplicou e passa atualmente de 1,2 mil. A experiência serve de modelo em outros países, entre eles Argentina e Chile. Intelectuais como Eduardo Galeano, Naomi Klein e Slavoj Zizek acabam de assinar um manifesto a favor do nascimento do Podemos. “Perante o avanço da xenofobia e o fascismo na Europa, é alentador que surjam alternativas dispostas a lutar pela democracia, os direitos sociais e a soberania popular”, anotam os intelectuais no documento traduzido em cinco idiomas.

O desempenho eleitoral também atiça os adversários. Os meios de comunicação tradicionais tentam desacreditar a iniciativa, a direita os classifica de antissistema e os socialistas do PSOE alertam para a ameaça de uma “esquerda bolivariana”. Mas o futuro parece pertencer ao Podemos. Segundo uma pesquisa de opinião publicada em 8 de junho pelo Gabinete de Estudios Sociales y Gestión Pública, se as eleições gerais fossem hoje, o Podemos teria mais votos e abalaria de vez o bipartidarismo que se alterna no poder na Espanha desde o fim da ditadura.

*Reportagem publicada originalmente na edição 806 de CartaCapital, com o título "Das calçadas para as urnas"

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