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Número 805,

Economia

Análise/Delfim Netto

Razões da desaceleração

por Delfim Netto publicado 24/06/2014 03h51, última modificação 24/06/2014 03h55
Há cada vez mais dificuldades para manter o desenvolvimento econômico e a distribuição de renda

A economia brasileira, desde 2002, foi beneficiada pela expansão do comércio mundial – devido em parte ao vigor da economia chinesa –, período que aproveitamos para crescer e para ampliar a inclusão social, criando um robusto mercado interno. Colhemos os efeitos de uma distribuição de renda facilitada pelos ganhos externos proporcionados, até recentemente, pela melhora de nossas “relações de troca”.

Tais sucessos esconderam a necessidade e a urgência de convencermos a sociedade a realizar as mudanças estruturais necessárias para a continuidade do crescimento econômico e social quando o ciclo de prosperidade mundial terminasse. A partir de 2010, o “vento de popa” que nos ajudou transformou-se em “vento de proa” e hoje encontramos cada vez mais dificuldades para manter o desenvolvimento da economia e dar continuidade ao processo redistributivo.

Na semana em que o assunto dominante foi a inauguração do campeonato mundial do jogo de bola, tive a oportunidade de participar – como em todas as manhãs das segundas-feiras – do Jornal Gente, da Rede Bandeirantes de Rádio, quando José Paulo de Andrade trouxe à pauta os resultados de uma sondagem do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) com a expectativa de queda nos investimentos de importantes setores da indústria este ano, em relação ao ano passado. A pesquisa mostra que a preocupação dominante é com os investimentos para aumento da eficiência produtiva e aponta três motivos para a redução das expectativas: a limitação de recursos; as incertezas quanto à demanda; e a brutalidade da carga tributária.

O investimento depende basicamente das expectativas; se o empresário tem uma expectativa de crescimento da economia que permite esperar uma taxa melhor de retorno do investimento, ele se dispõe a tomar emprestado; mas, se enxerga uma situação mais cinzenta, ele vai adiando a decisão.

Pela pesquisa entende-se, hoje, que o investimento não é para incrementar a produção; a indústria investe para aumentar a eficiência produtiva, o que significa a perspectiva de substituir mão de obra por um estoque de capital um pouco mais sofisticado. Esse resultado informa que o PIB vai crescer um pouco mais lentamente do que tem crescido.

As três questões estão relacionadas: a primeira resposta indica que tem havido menos lucro e menor taxa de retorno para o setor. Para manter seu valor na Bolsa a empresa tem de garantir o nível dos dividendos, o que é uma questão de sobrevivência, porque, se começar a ter suas ações perdendo valor, ela passa a enfrentar uma porção de dificuldades, tem problemas de financiamento e outros mais; o segundo fator é aquele que citamos antes, que leva à expectativa do empresário se a economia brasileira vai crescer mais vigorosamente e quanto à demanda particular de seu produto no mercado interno e às mudanças do comportamento do comércio exterior.

O terceiro item – o peso dos impostos – é o que concentrou a maioria das respostas justificando a retração dos investimentos na pesquisa: com uma carga tributária bruta de uns 37% do PIB (com “viés” de aumento, considerados os projetos em andamento nas duas Casas do Congresso), as decisões de investimento tornam-se mais penosas a cada dia.

Não é preciso buscar muitas explicações para a queda da taxa de crescimento do Brasil nas últimas três décadas: a soma da redução dramática dos investimentos públicos e privados na infraestrutura, com um aumento não menos dramático da carga tributária bruta. Há pouco mais de 30 anos, quando o Brasil crescia “a taxas chinesas”, acima de 7% de expansão do PIB, a carga tributária bruta era de 24% e o investimento público era de 5% na infraestrutura. Hoje, com a carga tributária de 37%, o investimento público na infraestrutura não chega a 3% do PIB, que, somados ao déficit significam que o governo está tomando da sociedade perto de 40% de tudo o que ela produz no ano. Com quase nenhum retorno.

É por isso que o crescimento brasileiro murchou. A possibilidade de retomarmos o ritmo mais acelerado de desenvolvimento e continuarmos a reduzir o nível de desigualdade ainda existente vai exigir uma profunda mudança de todo o sistema de apropriação e distribuição dos recursos pelos governos, começando com um “orçamento de base zero” que elimine os programas que subsistem por inércia, indo até a crítica cuidadosa da eficiência de todas as ações fiscais!

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