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Número 805,

Saúde

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Pessoas boas fazem coisas ruins

por Rogério Tuma publicado 23/06/2014 04h13, última modificação 23/06/2014 04h22
Na abertura da Copa, Dilma foi vaiada e ofendida. A biologia pode explicar tal grosseria

No jogo de abertura da Copa, após cantar o Hino até o fim, a multidão presente fez coro no xingamento à presidenta Dilma Rousseff, momento, local e atitude não apropriados. Quais seriam os motivos que levaram pais, mães e filhos depois de um ato tão patriótico que uniu o estádio a bradar palavrões com tanta ênfase, sem se preocupar que o mundo inteiro os ouvia?

Com certeza não foi porque eram ricos e letrados, pois a fala não saiu só das áreas vip, mas de todos os lugares; até o o pipoqueiro e a moça da cerveja se somaram ao coro. Foram brasileiros de todas as regiões, e talvez alguns croatas que estavam por lá, inclusive nas tribunas ao lado da que hospedava a presidenta, os que consideraram Dilma alguém fora de seu grupo.

Quando pessoas estão agrupadas, como em uma torcida, coisas estranhas podem acontecer, principalmente a hostilização de indivíduos considerados adversários do grupo, desta vez um grupo gigantesco e bastante heterogêneo. Estudo a ser publicado na revista NeuroImage de agosto, assinado por Mina Cikara e Rebecca Saxe, do MIT, mediu a atividade de uma região cerebral que nos dá a percepção do “Eu próprio”, o córtex pré-frontal medial, em voluntários sozinhos e durante uma competição entre grupos, e notou que, quando é “nós contra eles”, os padrões de moral de cada um podem desaparecer e a vontade do grupo prevalece.

Antes da competição começar, os voluntários respondiam positiva ou negativamente a cada frase de uma série sobre comportamento ético e moral, algo do tipo “eu sempre peço desculpas quando esbarro em alguém”, enquanto a atividade do córtex pré-frontal era medida. Ao longo da competição, esses indivíduos precisavam apertar um botão quando frases sobre mídia digital do tipo “tenho muitos amigos no Facebook” apareciam na tela. Misturadas a elas,  frases de conteúdo ético e moral apareciam e novamente a atividade da região pré-frontal era medida.

Os resultados mostraram que, quando o teste era individual, as frases tinham o mesmo poder de ativação da área pré-central que o teste anterior, mas, quando os voluntários foram divididos em dois grupos que deveriam competir com quem identificava mais frases sobre mídia, algumas pessoas reduziam substancialmente a atividade dessa área, deixando as convicções de lado, tornando o interesse do grupo em vencer o único fator de importância. Os voluntários que “desligavam“ o seu Eu em prol do grupo apresentavam também maior agressividade. Quando solicitados a escolher fotos para elucidar o estudo, indicavam aquelas em que os adversários apareciam pior.

Para a doutora Cikara, da Carnegie Mellon University, as alterações funcionais do cérebro não são o único motivo para transformar pessoas a ponto de fazerem coisas que vão contra suas convicções. Múltiplos fatores fomentam a agressividade em grupo, como a diluição da responsabilidade sobre os atos e a sensação de anonimato, o que cria uma mentalidade de “bando” que libera a agressividade de cada membro.

Ficou claro no estudo (e na abertura da Copa) de que a turba não age tão conscientemente assim, e pode se tornar um perigo para quem está fora de seu grupo. Faço uma recomendação médica, de que a presidenta terá talvez dificuldade em aceitar: Dilma pode deixar passar a final e depois aparecer na tevê em cadeia nacional para falar a cada brasileiro sobre os feitos da “Copa das Copas”, evitando novo constrangimento não só para si, mas para todos os brasileiros, perante o resto do mundo. Uma coisa precisamos admitir, a presidenta representa, sim, o governo que aí está e, infelizmente, tem se transformado cada vez mais em uma estranha no ninho.

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