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Número 805,

Cultura

Artes Visuais

A fotografia revela o que os urbanistas latinos ocultam

por Francisco Quinteiro PIres — publicado 31/08/2014 09h40, última modificação 31/08/2014 10h39
"Urbes Mutantes", em Nova York, mostra as transformações e os problemas das cidades por fotógrafos de rua, artistas e fotojornalistas
Alberto Korda

Quinze minutos após iniciar um passeio pela Urbes Mutantes: Latin American Photography 1944-2013, o curador Alexis Fabry parou diante de duas fotografias de Miguel Rio Branco. Ele queria que os visitantes prestassem atenção ao conteúdo chocante das imagens do brasileiro. Colocadas lado a lado e com o título Mad Dog, Maciel (1980), elas exibem dois seres sujos e deitados no chão. “Esse díptico”, escreve o crítico David Levi Strauss, “relaciona um homem morto ou dormindo num pavimento com um cachorro, ambos na mesma posição e condição, a formar uma equação abjeta”. De acordo com Fabry, a representação fotográfica que equipara um ser humano a um animal revela a rua como um espaço onde a miséria não se disfarça.

Urbes Mutantes, em cartaz até setembro no International Center of Photography (ICP) de Nova York, mostra as transformações e os problemas das cidades latino-americanas em cerca de 200 imagens tiradas por fotógrafos de rua, artistas e fotojornalistas. Para Fabry e María Wills, responsáveis pela montagem a partir da coleção particular de Leticia e Stanislas Poniatowski, “cada imagem tem uma ideo-
logia” e, quando adicionada ao conjunto, é capaz de exibir a diversidade urbana do continente americano. As imagens selecionadas mostrariam as diferenças entre oito países da América Latina, apesar do passado colonial comum e da desigualdade econômica onipresente.

Os espaços urbanos de Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, Cuba, México, Peru e Venezuela foram, entre os anos 1940 e 2000, uma plataforma para protestos sociais contra governos autoritários, um palco para a cultura popular e a face pública da pobreza. As fotos preservam a memória fugidia desses lugares fadados à reconstrução inacabada ou à ruína cíclica, em contraste com “o moderno espírito público direcionado à criação de cidades como símbolos do progresso e do triunfo do capitalismo”, segundo Fabry e Wills.

O ensaísta uruguaio Ángel Rama (1926-1983) entendeu a urbanização latino-americana como um projeto de dominação justificado por ideologias que uma minoria de intelectuais formulou nos últimos cinco séculos. “Desde a remodelação de Tenochtitlán após a sua destruição por Hernán Cortés em 1521 até a inauguração em 1960 do sonho de urbe de Lucio Costa e Oscar Niemeyer, a cidade latino-americana tem sido um parto da inteligência”, escreveu Rama no livro La Ciudad Letrada (1984). “Ela esteve inscrita num ideal da cultura universal como a representante de uma ordem social e encontrou no novo continente o único lugar propício para se tornar realidade.”

Rama relata em La Ciudad Letrada que o plano oficial era substituir “as cidades orgânicas” da Península Ibérica medieval pelas “cidades organizadas” no Novo Mundo, onde a razão pautaria a distribuição do espaço e um estilo de vida. Uma paisagem urbana repetitiva e planificada demandaria de seus habitantes o cumprimento desse desejo de ordem. O projeto de colonização, sugere Rama, desrespeitou singularidades. A abstração, a racionalização e a sistematização defendidas pelas Coroas espanhola e portuguesa se oporiam à expressão criativa das culturas locais. Essa sociedade hierarquizada promoveu uma realidade à parte nas Américas. Desse esforço do Estado resultou a exclusão em termos de classe e de raça.

Fabry e Wills dedicaram The Forgotten Ones, uma das nove seções de Urbes Mutantes, aos excluídos das cidades latino-americanas. Fotógrafos como Héctor García (mexicano), Adriana Lestido (argentina), Sergio Larraín (chileno), Roberto Fontana (venezuelano) e Miguel Rio Branco representam o engajamento social iniciado por William Henry Fox Talbot (1800-1877), autor de retratos de trabalhadores e marginalizados. “A qualidade transparente do recurso fotográfico, desenvolvido no século XIX como uma ferramenta para a documentação objetiva, desafiou a hipótese de que a representação deveria estar vinculada a ideais clássicos de beleza materializados nas vidas das classes mais ricas”, dizem os curadores.

Os fotógrafos selecionados registraram os esquecidos. Essa atitude gerou discussões sobre a espetacularização da miséria, lembra Wills. “Na América Latina, vários colóquios abordaram essa questão e um dos pontos de vista mais fortes percebeu os fotógrafos que não eram ativistas ou participantes de movimentos sociais como exploradores dos oprimidos”, diz a curadora a CartaCapital.

Urbes Mutantes ignora os mais abastados. Os visitantes da exposição do ICP aprendem pouco sobre os hábitos e as fisionomias das elites latino-americanas. A mexicana Yvonne Venegas representa uma das exceções. Entre 2004 e 2010, Venegas acompanhou o dia a dia de María Elvira de Hank, filantropa e esposa do milionário Jorge Hank Rhon, para entender como os ricos aproveitam seus privilégios. “Por que não há mais imagens reveladoras das elites? Os fotógrafos dos anos 1960 e 1970, décadas às quais pertence a maioria das imagens, não estavam interessados em retratar os mais ricos. Por vezes, eles nutriam repulsa a essa possibilidade”, Wills explica. “As elites aparecem em Urbes Mutantes de maneira indireta quando Pedro Meyer (mexicano) fotografa as sobras de uma refeição feita por políticos num restaurante ou Pablo López Luz (mexicano) retrata as fachadas das casas dos bairros mais ricos. Incluímos uma visão mais representativa das raças e classes sociais nas Américas. Evitamos antagonizá-las.”

A primeira seção de Urbes Mutantes chama-se Living Walls (Paredes Vivas). “Aqui a câmera preserva momentos importantes da vida urbana, como protestos contra desmandos políticos, projetos urbanos inacabados e marcos arquitetônicos”, afirma Wills. Ao fotografar grafites, cartazes e placas, Fernell Franco (colombiano), Yolanda Andrade (mexicana), Sameer Makarius (argentino), María Cecilia Piazza (peruana) e outros transformaram esses escritos públicos em metáforas dos sentimentos dos moradores urbanos, como o cinismo, a frustração, a raiva e o humor. Rama associou a comunicação verbal do povo nas paredes citadinas a um desafio à autoridade das elites intelectuais como as únicas intérpretes da realidade.

Urban Geometries (Geometrias Urbanas) trata da organização espacial e estruturas físicas das cidades. Fabry e Wills escolheram trabalhos que exploraram luzes, sombras e reflexos para abordar de modo abstrato a expansão das metrópoles dos anos 1940 em diante. Segundo a curadoria, as imagens de Paolo Gasparini (foto ao lado) (venezuelano), Lázaro Blanco (mexicano), Armando Salas Portugal (mexicano) e Rosario López (colombiana) comprovam o ecletismo arquitetônico da América Latina, entre construções planejadas e desordenadas. Urban Geometries concentra o maior número de fotógrafos brasileiros: José Yalenti, German Lorca, Thomaz Farkas e Geraldo de Barros, todos pertencentes ao Foto Cine Clube Bandeirante.

“Na América Latina, a urbanização deu-se com muita rapidez, o que gerou as paisagens mais intrigantes. O Foto Cine Clube Bandeirante é um dos primeiros no continente a oferecer uma visão menos conservadora e mais autoral da fotografia”, diz Wills. Criado em 1939, o fotoclube paulistano percebeu a imagem como uma obra de expressão artística. “Urbes Mutantes não é uma exposição sobre fotógrafos de rua latino-americanos. Ela trata antes de tudo do impacto das diferentes culturas urbanas sobre o imaginário desses profissionais.” Novos ângulos e formas surgiram para capturar cidades cujas aparências mudavam, enquanto seus problemas essenciais se perpetuavam.