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Número 805,

Política

Entrevista

“Eles sabem que a ponte é o certo e o túnel, para roubar”

por Fabio Serapião — publicado 23/06/2014 04h11, última modificação 23/06/2014 04h22
O especialista em pontes estaiadas, o engenheiro Catão Francisco Ribeiro, contesta a escolha por um túnel como ligação entre as cidades de Santos e Guarujá
Veronica Manevy
Catão Francisco Ribeiro

Para o especialista Ribeiro, o túnel submerso, além de mais caro, visa abastecer um esquema de corrupção

Especialista em pontes estaiadas, o engenheiro Catão Francisco Ribeiro contesta os argumentos da Dersa para escolher o túnel submerso como ligação entre as cidades de Santos e Guarujá. Segundo Ribeiro, além de mais caro, o projeto visa abastecer um esquema de corrupção.

CartaCapital: Por que o governador defende a inviabilidade da ponte?

Catão Francisco Ribeiro: O governador Geraldo Alckmin repete, como papagaio, o que o secretário dele fala. Saulo Castro não entende nada de ponte. Nem sabe o que está fazendo lá. O presidente da Dersa, Laurence Casagrande Lourenço, é outro incompetente, a experiência dele são 15 anos de investigações na Kroll e cinco anos de Febem. O projeto está nas mãos de técnicos da Dersa, que são corruptos, financiados e patrocinados por grandes empreiteiras. O patrimônio deles é incompatível com o salário mensal. Todos entraram como empregados e estão ricos. A corrupção das empreiteiras que sustentam campanhas políticas é que está atrás desses interesses, como é comum no Brasil. É investigação para a Polícia Federal e o Ministério Público.

CC: O governo argumenta que, no novo local escolhido, a ponte é inviável pelo fato de a altura ser superior aos 75 metros estipulados para navegação aérea do aeroporto local. O senhor concorda?

CFR: O melhor lugar para fazer a travessia entre Santos e Guarujá é onde está a balsa há mais de cem anos. A Dersa opera essa balsa há mais de 50 anos, e se essa área não fosse  ideal, ela teria mudado de lugar. O projeto da ponte feito pelo José Serra, do mesmo partido do senhor Alckmin, colocou a ponte nesse local, para acabar com a balsa. Eles colocaram a ponte em outro lugar, para manter a balsa operando. Com isso, a Dersa continua faturando com o pedágio.

CC: O senhor diz que a obra do túnel vai paralisar a entrada de navios no porto em determinados momentos. No caso da ponte, é preciso paralisar a operação do porto?

CFR: Não. O processo é de avanço sucessivo por cima, em altura grande. Só que
não dá para roubar, pois tudo está à vista, é feito às claras, não tem nada escondido, enterrado. Fica difícil para qualquer um ganhar dinheiro além do permitido pela lei.

CC: O senhor contesta a pesquisa de origem e destino feita pelo governo para saber qual ponto a população acredita ser ideal para a travessia.
Por quê?

CFR: Eles precisavam de uma pesquisa para justificar a mudança do local. Fizeram a pesquisa. É a única razão pela qual deixaram de fazer a ponte. Mas a razão verdadeira é que a ponte vai acabar com a mina de ouro, que é a balsa mantida pela Dersa.

CC: O senhor é um empresário e a escolha do túnel inviabilizou um projeto da sua empresa. Isso não faz com que sua denúncia seja pessoal e não de interesse público?

CFR: Qualquer ponte feita no Brasil tenho interesse. Eu posso me manifestar sobre pontes porque entendo de pontes e entendo de túneis. Nunca fui contra os túneis da Imigrantes, do Rodoanel trecho norte, da Serra do Cafezal. Evidentemente, se você perguntar por que não construíram pontes nesses locais? Não era necessário, o certo ali é túnel. Como técnico formado, sou obrigado a me manifestar quando vejo o governo em um caminho que, se não é honesto, também não é o certo. Não é o caminho da retidão também, pois a corrupção prevalece, a incompetência, também.

CC: O senhor não tem medo de prejudicar seus negócios?

CFR: O Brasil não é uma ditadura. Tenho obras em Santa Catarina, Ceará, Bahia, Sergipe. Em todos esses lugares faço minhas pontes e, às vezes, em substituição a outras pontes. Os empreiteiros são meus clientes? São mais clientes que o Estado e eu posso falar na cara deles, pois eles têm vergonha de pedir para eu desistir de lutar pela ponte. Eles sabem que a ponte é o certo e o túnel é só para ganhar dinheiro.

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