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Número 804,

Economia

Análise / Delfim Netto

Problema de oferta

por Delfim Netto publicado 18/06/2014 03h51, última modificação 18/06/2014 03h53
É importante entender a necessidade de harmonizar o crescimento do consumo com o do investimento

O aumento da inflação está entre os motivos desse clima de pessimismo que se criou na economia nos últimos meses. É desagradável, produz alguns efeitos complicados, mas o surpreendente é que está ligado a uma importante redução do ritmo de crescimento do País.

O último número do IBGE mostra que crescemos no primeiro trimestre deste ano, com relação ao último trimestre do ano passado, 0,2%, índice extremamente baixo que aumenta a preocupação sobre o resultado de 2014, a indicar a possibilidade de o Brasil crescer um pouco mais de 1% ou 1,5%, exceto se houver uma recuperação muito importante que não parece estar à vista.

O que deveria surpreender é por que o crescimento médio tão sem graça dos últimos anos não teve efeito visível sobre a taxa de inflação e por que a inflação não está respondendo (como se esperava) à política monetária em vigor há mais de um ano. O primeiro resultado do aumento da taxa básica de juros em 3,75 pontos é a redução do nível da atividade a que estamos assistindo. A taxa de crescimento do nível de crédito também se reduziu porque o tomador do crédito – o consumidor, o trabalhador – começou a ficar preocupado se amanhã poderá manter o emprego; ele reduz a demanda de crédito e o banqueiro diminui a oferta porque imagina que o tomador vai perder o emprego e pode se tornar inadimplente.

Um terceiro efeito é a valorização do câmbio, que reduz ainda mais as exportações de manufaturados e estimula importações que cortam empregos, tudo na direção que deveria acontecer, reduzindo a pressão da atividade sobre os preços.

A explicação é, sem dúvida, complicada, mas é possível resumi-la em alguns itens que podem ajudar a entender o problema (pelo menos em parte):

1. A política monetária é necessária para controlar a inflação, mas não suficiente. Se não houver apoio de política fiscal que reduza a demanda do setor público e de política salarial que compatibilize o consumo com o investimento, seu custo é politicamente inaceitável.

2. Existe um limite para a arbitragem do governo sobre a distribuição de renda a favor do trabalho numa economia de mercado. Quando ele é excedido, gera inflação, porque os empresários tentam transferir para os preços o aumento do salário real superior à produtividade física do trabalho. Na medida em que não tenham sucesso, reduzem os investimentos pela queda da capacidade de seu financiamento e o crescimento murcha.

3. É impossível fixar ao mesmo tempo o pleno emprego e o salário real numa economia de mercado. Quando o governo subsidia os setores em que a demanda está mais fraca para manter o emprego, ele atrapalha o funcionamento do sistema. O custo do subsídio transforma-se em pressão fiscal que deságua na dívida pública e pressiona o juro real.

4. A queda da inflação exige a redução de sua expectativa, o que é difícil quando preços controlados sugerem um aumento futuro.

A política monetária foi projetada para reduzir o nível da atividade e, portanto, reduzir a pressão sobre os preços. Ela está fazendo isso, mas a insensibilidade da inflação tem sido enorme porque as causas da rigidez das taxas são na verdade produzidas por um excesso da demanda pública e por uma política salarial que estimulou aumentos reais muito acima dos aumentos da produtividade. Isto é bom do ponto de vista distributivo, mas pode ser desastroso do ponto de vista produtivo.

O importante é compreender isso: precisamos harmonizar o crescimento do consumo com o crescimento do investimento, o que, infelizmente, não aconteceu. Os dados do IBGE sobre o crescimento informam que caíram os dois – consumo e investimento –, o que talvez mostre que estamos começando a sentir com mais intensidade os efeitos da política monetária. A surpresa não é nem a queda do nível da atividade, mas que essa redução não tenha afetado o crescimento dos preços.

Em resumo, temos um problema de oferta, cuja solução exige um constante aumento da produtividade, que depende das ações de governo e do empenho de todo o setor privado da economia.

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