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Número 804,

Saúde

Ciência

Pesquisa boa é pesquisa útil

por Riad Younes publicado 17/06/2014 03h48
Aplicar critérios para avaliar o impacto real da ciência é indispensável. Mas como fazer?
Wistechcolleges/Flickr
pesquisa

Milhares de trabalhos científicos, mas pouca aplicação prática e clínica

A pesquisa médica representa a única chance de continuarmos evoluindo na direção de um melhor conhecimento da prevenção e do tratamento das mais diferentes doenças. Mas a pesquisa é cara e os recursos, finitos. Se alguém tiver paciência e olhar um site que lista todos os trabalhos científicos publicados nas revistas médicas no mundo, como, por exemplo, o site PubMed, vai ver que, anualmente, os resultados de milhares de pesquisas são divulgados. Infelizmente, poucos têm aplicabilidade imediata ou relevância clínica. Em outras palavras, esforço e dinheiro estão sendo gastos de forma pouco útil para a sociedade.

Um recente editorial da prestigiosa revista médica Jama, de autoria do doutor J. P. A. Ioannidis, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Stanford, na Califórnia, discute exatamente a necessidade de a sociedade rever o modo atual de incentivar a pesquisa e o trabalho dos cientistas. Hoje em dia, os pesquisadores recebem reconhecimento público, fundos para pesquisa e até salários baseados no número de publicações por ano. Mas esse sistema tende a induzir a produção de muitos estudos sem a necessária qualidade e pertinência. Sugere o dr. Ioannidis um sistema inovador para avaliar o peso das pesquisas, seu impacto na prática clínica, a veracidade de seus resultados, o quanto cada estudo representou como semente para outros avanços e outras pesquisas, o número de citações que outros cientistas incluíram de cada pesquisa na hora de discutir seus dados, o quanto os fundos oficiais oriundos de dinheiro público conseguiram produzir em trabalhos completos de importância indiscutível, e, não menos importante, quanto cada estudo torna públicos todos os detalhes que levaram às suas conclusões.

O que parece óbvio, mas é raramente avaliado. Lamentável constatar que muitos estudos publicados não conseguem ser reproduzidos por outros centros ou outros médicos, deixando transparecer erros ou camuflagem dos resultados. Mais ainda, o autor sugere fortemente a inclusão de critérios que avaliem o número de inovações ou patentes, ou drogas novas, ou técnicas eficazes que foram produzidas por determinados pesquisadores ou centro universitário. Menos teo-
ria e mais aplicação prática.

Não é uma tarefa fácil, mas com certeza é totalmente imprescindível se quisermos racionalizar o uso dos recursos dedicados ao suporte da pesquisa, e empregar os cérebros dos cientistas de forma mais produtiva e honesta. Se não, arriscamos desviar a atenção dos pesquisadores da meta primordial da ciência, avançar a sociedade e o conhecimento humano, para preocupações meramente burocráticas, poucas vezes fundamentais, muitas vezes fúteis.

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