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Número 804,

Política

Vaticano

O papa dos pobres entre os lobos

por Wálter Maierovitch publicado 22/06/2014 08h43
Um livro aponta os inimigos de Francisco e ele incomoda até a máfia
Christophe Simon/AFP
Papa

O papa Francisco traz ao Vaticano Peres e Abbas para que orem pela paz

De Roma

O papa Francisco, sem se intrometer em questões geopolíticas, acaba de marcar internacionalmente um novo tento. O convite feito durante sua visita em 25 de abril à Palestina e a Israel produziu no primeiro domingo de junho um desarmado encontro, para orações pela paz, com Shimon Peres, presidente de Israel, e Mahmoud Abbas, líder da Autoridade Palestina. Não faltou a oração de São Francisco e uma oliveira plantada nos jardins do Vaticano.

Jorge Bergoglio fez os dois líderes esquecerem as ofensas do antecessor, Joseph Ratzinger, um trapalhão que ofendeu os islâmicos ao atacar, em citação proferida em aula magna, o profeta Maomé e, logo depois, reintroduzir a antiga missa tridentina, onde se pede a Deus a conversão dos judeus ao cristianismo.

Com o objetivo de colocar uma pá de cal na Igreja imperial, Francisco começou, logo após sua nomeação, em 2013, uma revolução. E para usar o título do livro do mais célebre vaticanista Marco Politi, passou a conviver tra i lupi (entre os lobos).
No livro lançado pela Editori Laterza, Politi lembra o fato de o eleito Bergoglio ter recusado, no vestuário destinado à troca de roupas, a mozzetta (o colete púrpura bordado em ouro), os sapatos vermelhos e o anel de ouro. E teria dito: “O carnaval terminou”.

O nome escolhido por Bergoglio foi uma homenagem ao pobre de Assis. E, alertou, seria só Francisco, pois numerações “eram coisas de reis”. Na sua primeira missa como papa, na qual usou a desgastada mitra de cardeal de Buenos Aires, recusou a genuflexão dos votantes. Usou ainda o seu antigo crucifixo prateado e o velho par de sapatos ortopédicos deformados pelo uso cotidiano. Mais ainda: permaneceu afastado do trono e abraçou a todos, como iguais. Em resumo, nada de hábitos imperiais, a se incluírem automóveis de luxo e o amplo e requintado apartamento papal. Preferiu um modesto quarto no hotel de trânsito de Santa Marta.

O papa utiliza o refeitório comunitário de Santa Marta e, ao perceber o torcer de narizes das “viúvas” do tempo de Ratzinger, costuma brincar ao dizer ser mais difícil envenená-lo em um almoço de vários comensais. No palácio apostólico de despachos, onde trabalha a partir das 10 da manhã, é comum sair da sala e, depois de catar moedas nos bolsos do traje branco, tomar café de máquina.
Esses gestos representam um escândalo para os conservadores e defenestrados da até então ingovernável Cúria. Também escandalizados ficam a turma apeada da lavanderia conhecida por Banco do Vaticano (IOR) e muitos daqueles que desfrutavam de uma carreira administrativa, com moradia grátis e remunerações agregadas, ou seja, penduricalhos pela acumulação de sinecuras. No momento, e depois de defenestrar, em outubro, Tarcisio Bertone, então chefe de Estado, poderoso mandachuva da Cúria e do IOR, padrinho da candidatura derrotada do cardeal brasileiro Odilo Scherer, Francisco determinou, por meio de uma comissão, a preparação de uma minuta de estatuto da Cúria.

Em sintonia com o estabelecido no Concílio Vaticano II, o papa pretende abandonar a forma piramidal de governo e implantar, na busca do equilíbrio do poder papal, a regra do colegiado, da horizontalidade e da responsabilidade compartilhada com o alto clero. Propostas, aliás, que empolgaram quando Bergoglio se pronunciou no conclave e venceu a eleição com mais de 90 votos. Fez o prometido até agora: trocou o comando do IOR, defendido por Scherer no conclave.

A cada tento, Bergoglio aumenta o número de inimigos. Nem os clérigos conservadores argentinos o poupam de críticas pelas inovações e destacam sua suposta teimosia (“um cabeça-dura”). A sua postura desagrada a Ratzinger, que de papa do serviço ativo virou um comodatário vitalício de imóvel no jardim vaticano, depois de alteração na sua destinação original para abrigar uma clausura de freiras de oração. E o jovem ex-secretário de Ratzinger, o atual arcebispo Georg Gänswein, teria dito que a forma de agir de Francisco expõe e desmoraliza os papas anteriores. Fora isso, Bergoglio, entre os conservadores e oportunistas, é visto como “um padre de aldeia”, sem bagagem cultural para ascender à condição de teólogo.

Ao demonstrar disposição para mudar a Igreja, o papa começa por não fugir, em entrevistas, a temas delicados para os católicos, do respeito aos gays à comunhão por divorciados. Tudo sem deixar de criticar políticos corruptos por ocasião de uma missa que contou com a presença de 492 parlamentares italianos.

Não demorou para o papa, entre aqueles que o criticam pelas costas, ganhar fama de demagogo. Como se avolumaram, as críticas preocuparam Dario Fo, ateu e Prêmio Nobel de Literatura em 1997. Em apresentação teatral na deslumbrante Arena de Verona, Fo louvou o papa Francisco com fervor. E condenou quem “pretende linchá-lo” por se posicionar contra um mundo preocupado apenas com os grandes negócios.

Na abertura do livro Francesco Tra i Lupi: Il segreto di una rivoluzione, Politi lista os inimigos de Francisco. E menciona a posição do procurador antimáfia calabresa, Nicola Gratteri: “A máfia financeira está sendo perturbada nos seus percursos por um pontífice que rema contra a corrente, contra o luxo, é coerente e tem credibilidade. E lança sinais contra o crime organizado que se nutre do poder e da riqueza”. Gratteri alerta: “Não sei se a criminalidade organizada fará algo em reação, mas, certamente, está refletindo, e isso tudo é muito perigoso”.

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