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Número 804,

Sociedade

Editorial

No galope das Copas

por Mino Carta publicado 13/06/2014 10h00, última modificação 13/06/2014 10h40
Bom manter o espírito crítico para entender que nem sempre o Brasil ganhou por merecer. Por Mino Carta
SCHIRNER SPORTFOTO ARCHIV/DPA/AFP
Seleção-1950

16 de julho de 1950: o Uruguai jogou melhor

Deu-se em 1950 minha estreia no jornalismo. Tinha 16 anos. De saída, escrevi meia dúzia de artigos sobre a preparação do evento para os jornais Il Messaggero de Roma e Il Secolo XIX de Gênova. Depois, fui intérprete e cicerone da delegação de jornalistas dos dois diários durante a disputa daquele Mundial. E fui testemunha do luto brasileiro no dia 16 de julho.

O mundo era então bem diferente daquele dos dias de hoje. A Fifa era uma entidade respeitada e, creio eu, sadia, e o campeonato realizou-se em perfeita paz e boa organização, como convém a um grande torneio esportivo, o maior de todos. O País inaugurava com justo alarde e muito orgulho o maior estádio do planeta.

Recordo que às entradas do Maracanã, no dia do último embate, decisivo, entre Brasil e Uruguai, desde a manhã ambulantes vendiam postais da Seleção Canarinho, apresentada peremptoriamente como campeã. Era o que se lia a encimar a garbosa imagem. De pé, ou agachados, de Barbosa a Chico, os heróis do triunfo exibiam a expressão do dever cumprido. O inescapável, merecido presente do destino.

À rodada final haviam chegado quatro times, Brasil, Uruguai, Suécia e Espanha. Todos haveriam de jogar contra todos, e a Seleção Brasileira encantou a plateia global ao derrotar a Suécia por 7 a 1 e a Espanha por 6 a 1, enquanto o Uruguai vencia os suecos e empatava com os espanhóis. Dia 16, ao Brasil bastava o empate. Como acabou a gente sabe e os postais vendidos à porta do estádio foram engolidos pelos bueiros.

O que me desagradou illo tempore foi a busca imediata do bode expiatório. Acharam dois: o lateral-esquerdo Bigode e o goleiro Barbosa. Diga-se que o Brasil tinha três craques excepcionais no ataque, Zizinho, Ademir e Jair, e dois no meio, Bauer e Danilo. Barbosa era bem melhor do que pretendiam seus acusadores, a defesa é que estava longe da perfeição, assim como o técnico Flávio Costa.

Deu-se apenas que o Uruguai dia 16 jogou melhor. Também contava com alguns craques e mereceu a vitória. Justifica-se a tristeza daquele dia. Em outras oportunidades foi claro, porém, que a nossa torcida não aprendera a lição. A procura de um culpado sempre ocorreu quando da derrota, a não ser que o responsável fosse o próprio Deus em dia de mau humor.

Tirante 1958, quando os canarinhos mudaram os esquemas do jogo no mundo todo, e 1970, com um time dos sonhos, não faltou a mãozinha de um juiz em 1962 (contra a Espanha). Logo começa a era Havelange, aquele que mudou o rosto e a alma da Fifa e fez seu sucessor na invejável investidura como capo-di-tutti-i-capi, Joseph Blatter. Em 1994, o Brasil foi campeão com méritos em relação à Itália, nem tanto por causa da decisão nos pênaltis, e sim por obra de uma campanha melhor do que a da Azzurra. A mazela, no entanto, aconteceu com a Argentina. Surgia como o time arrasador e Havelange cuidou de eliminar Maradona. Bons entendedores sabem que, ao mirar no El Pibe, preso em campo pelos agentes do antidoping, o chefão da Fifa cortava a cabeleira de Sansão.

Em 2002 a sagração brasileira não permite reparos. Manobra escusa houve, contudo, na fase inicial, anterior às oitavas. Espanha, Itália e Portugal foram eliminados por arbitragens inaceitáveis, destinadas a favorecer a ascensão das representações dos anfitriões daquela Copa. O juiz mexicano Moreno, impagável intérprete da tramoia e autor, entre outros lances, da expulsão por simulação de um atacante italiano ceifado em plena área coreana, foi retirado apressadamente do rol dos árbitros da Fifa e no momento passa dias e noites em uma cadeia dos EUA, condenado por falcatruas variadas.

O jogo de estreia no Brasil nesta Copa de 2014 não fugiu à regra, e o juiz apitou um pênalti inexistente, assim como já sancionara uma falta inexistente em Neymar, mestre em quedas espetaculares. Quando a presidenta Dilma se manifesta contra o pessimismo não creio que se refira ao futebol. Nesta matéria, aliás, bastante perigoso é o otimismo desbragado da patriotada. Dilma convida a nação a confiar no País e o convite é além de válido neste momento. Se a alegria ou a tristeza do povo dependem das trajetórias da bola, sejamos alegres, ou tristes, conforme o caso. Recomenda-se, contudo, manter o espírito crítico também neste gramado.