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Número 803,

Economia

Análise/Paul Krugman

O ataque do Financial Times

por Paul Krugman — publicado 09/06/2014 04h48, última modificação 09/06/2014 05h18
A crítica do jornal ao trabalho de Piketty é obra da indústria de negação da desigualdade

O economista Thomas Piketty respondeu extensamente à tentativa de derrubar seu trabalho em O Capital no Século XXI, feita por Chris Giles, o editor de economia do Financial Times, e o fez com muita eficiência. Basicamente, Giles tentou comparar maçãs com laranjas, e o resultado foi um limão.

O ponto central aqui é conhecido por qualquer pessoa que trabalhe há tempo em questões de desigualdade. Temos dois tipos de dados sobre distribuição de renda e de riqueza: as pesquisas, em que as pessoas são indagadas sobre quanto ganham ou possuem, e os dados do Fisco. Os dados de pesquisas são melhores ao descrever as famílias de renda mais baixa, muitas vezes não sujeitas a impostos; mas os dados subestimam notoriamente as rendas mais altas e a riqueza, grosso modo porque é difícil entrevistar bilionários. E também os dados de pesquisas começaram recentemente – depois da Segunda Guerra Mundial, e com frequência muito depois disso.

Então, Piketty trabalhou principalmente com dados fiscais, embora também tenha feito certo uso de dados de pesquisas; quando os combinou, fez ajustes para o conhecido viés descendente das estimativas de grande riqueza das pesquisas. Giles, entretanto, basicamente notou que algumas estimativas relativamente recentes de grandes fortunas são menores que algumas estimativas baseadas em impostos de períodos anteriores, e usou isso para alegar que não há qualquer tendência clara para a concentração de riqueza.

Bzzzzz! Errado! Isso deveria realmente resolver a questão, mas é claro que não resolverá. Os negadores da desigualdade vão aproveitar a má crítica do Financial Times e ela se tornará parte do que eles “sabem” que é verdade.

Está bem, eu não sei o que Giles pensou que estivesse fazendo – mas sei o que ele realmente fazia, e é aquela velha negação da desigualdade. Desde que ficou óbvio o aumento da desigualdade – lá na década de 1980 –, houve uma indústria de negação da desigualdade bastante substancial na direita. Essa negação não contava com nenhum argumento específico, nem continha objeções consistentes. Em vez disso, envolvia atirar na parede muitos argumentos diferentes, esperando que algum colasse: a desigualdade não está aumentando; está aumentando, mas é compensada pela mobilidade social; é cancelada pela maior ajuda aos pobres (que estamos tentando destruir, mas não importa); de qualquer modo, a desigualdade é boa. Todos esses argumentos foram defendidos ao mesmo tempo; nenhum deles jamais é abandonado diante das evidências – continuam retornando.

Veja o artigo que escrevi para The American Prospect há 22 anos, “The Rich, the Right, and the Facts” (“Os Ricos, a Direita e os Fatos”). Todos os argumentos falsos que identifiquei ali continuam sendo defendidos hoje. E sabemos perfeitamente por quê: tudo tem a ver com a defesa do 1% da ameaça de impostos mais altos e outras ações que poderiam limitar as rendas mais altas.
O que é novo na última rodada é o local. Tradicionalmente, a negação da desigualdade foi efetuada na página editorial de The Wall Street Journal e outros semelhantes. Vê-la expandir-se para o Financial Times é uma novidade, e é um sinal de que o FT pode estar sofrendo de uma paralisante “murdochização”.

Tive, recentemente, uma conversa com alguém que se sentia decepcionado com Barack Obama, essa pessoa se queixava pelo presidente não ter realizado as grandes esperanças de seus apoiadores. Minha resposta, ao que parece, foi uma surpresa: eu gosto cada vez mais de Obama enquanto ele prossegue em seu segundo mandato.

É claro que você está decepcionado se acreditou que a retórica grandiloquente poderia modificar nossa vida política, ou se acreditou que Obama poderia, por mera força de vontade, transformar direitistas malucos em centristas. Mas eu nunca acreditei em nada disso. Na verdade, sempre fiquei exasperado pelos discursos inspiradores, que para mim sugeriam que Obama não compreendia o que estava enfrentando.

O que importava eram as conquistas concretas, coisas que, com o tempo, modificariam os Estados Unidos para melhor. E, afinal, Obama produziu. A reforma da saúde está funcionando e a turma da rejeição se encolhe lentamente.

Agora, o meio ambiente. Sua recente proposta de cortar a poluição de carbono das usinas energéticas não é suficiente, por si só, para salvar o planeta, e, como a reforma da saúde, poderia ser desfeita se um número suficiente de juízes da Suprema Corte decidisse que sua lealdade partidária supera a lei e a política sensata. Mas se o plano entrar em vigor poderá ter enormes implicações.

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