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Número 803,

Cultura

Brasiliana

No fio do bigode

por Rafael Nardini — publicado 13/06/2014 04h22, última modificação 13/06/2014 04h31
Um barbeiro paulistano torce por seu cliente mais famoso: Felipão
Rafael Nardini
Bigode

O estilo "marrento" lembra aquele de muitos dos jogadores da seleção

Roberto Realli virou barbeiro do técnico da Seleção Brasileira por completa obra do acaso. Há dez meses, Fabrício Scolari, de volta ao Brasil para visitar o pai, entrou no salão acanhado no espaço, mas engenhoso na decoração, no número 286 da Rua Desembargador do Vale, na Pompeia, proximidades do Palestra Itália, estádio do Palmeiras. “Rolou um papo legal, o menino gosta de rock e tudo. Dois dias depois ele trouxe o Felipão”, relembra Realli, entre as penteadeiras forradas com espumas, géis, tesouras, máquinas e até fungicidas.

Antes que você se pergunte: além dos parcos fios de cabelo na cabeça quase inteiramente tomada pela calvície, o treinador gaúcho apara o bigode com o auxílio da navalha de Realli. “Ele tem um cuidado especial”, revela o barbeiro. Scolari apareceu aqui nos últimos dias?, perguntei em nosso último encontro. “Ele está para vir. Ontem (21) ele passou, deu uma joia e tudo mais... Ele deve estar para vir porque na segunda-feira (26) ele se apresenta para os treinamentos em Teresópolis. Estou no aguardo.”

Realli parece um dos convocados por Felipão. É cheio de estilo e marra: exibe pelos braços tatuagens que lembram a profissão (navalhas, pentes e tesouras). No rosto, um bigode ao estilo Salvador Dalí e uma espessa barba cuidadosamente cultivada. O canto esquerdo da testa ganhou, há poucos meses, uma âncora, a mais recente marca de tinta sob a pele. O cabelo é aparado nas laterais e penteado para trás com pomada norte-americana. A barbearia reflete seu proprietário. Pelas paredes, um pouco de tudo: Beatles, James Dean, pin-ups, faixas de times de beisebol e uma porção de pôsteres com imagens de cortes de cabelo e de barba, tudo para simular uma barber shop nova-iorquina.

O pai também cortava cabelo, por hobby. Aparava o topete dos filhos e também o próprio. Foi ele quem anteviu o futuro de Realli e deu o primeiro empurrão para ele abraçar o ofício. Quando tinha 18 anos, o “barbeiro de Felipão” ganhou uma máquina Wahl. Com ela, a decisão de cobrar pelo tapa no visual dos amigos. Em 1999, superou a vergonha e pediu emprego em um salão de Pirituba, onde morou até novembro de 2013. “Cheguei, me apresentei e o dono do salão disse que poderia começar. Deu dor de barriga, medo. Tinha os apetrechos que meu pai usava quando cortava o cabelo dele, mas voltei só no dia seguinte.”

No terceiro salão onde trabalhou, aprendeu os truques do penteado masculino com o Mota, barbeiro conhecido em Pirituba. “Nessa profissão, se você trabalha sozinho, fica muito limitado. Corte masculino não é só derrubar o cabelo. O homem está cada vez mais exigente.” O salão na Pompeia foi inaugurado em 19 de março do ano passado. Realli atende de 10 a 15 clientes por dia. O corte custa 50 reais. A barba, 40 reais. Se o cliente, como faz o técnico da Seleção, optar pelos dois, desembolsa 80 reais. Em todos os casos, ganha um trato com talco especial na nuca antes de levantar da cadeira. “Meu negócio é transformar tudo isso em coisa boa. É um estilo de arte, não só uma profissão.”

A entrevista saiu depois da minha quinta visita ao salão. “Qual vai ser? Com a máquina ou na tesoura?”, repete Realli, à espera de um pedido diferente, um corte inédito. Mantenho a tradição (máquina 2). O barbeiro segue inquieto. Vez por outra, a conversa é interrompida pelo marceneiro que havia acabado de trazer um banco e duas cadeiras reformadas da década de 1930. “Tem até o selinho com a data, ó”, mostra orgulhoso. “Ganhei uns 15 centímetros de espaço livre no salão.”

Felipão não é o único boleiro a frequentar a barbearia. O lateral Douglas e o goleiro Denis, do São Paulo, também são clientes de Realli. O meia Fabrício e o zagueiro Rafael Tolói às vezes aparecem. Como funcionam as coisas com o cliente principal?, quero saber. O treinador, diz o barbeiro com certo cuidado, só gosta de falar de amenidades. “Ele não dá tanta abertura nem é a minha invadir a privacidade de ninguém.” Só?  “Ele brinca o tempo todo. Se ele chegou aonde chegou é porque merece.” O Felipão agenda horário como os demais clientes? “Ele sempre vem do nada, de repente. Para ele é ruim agendar.” Quanto a eventuais prioridades dadas ao técnico, Realli brinca: “Falei que todos são iguais, mas nem todos na mesma proporção”. Se der tudo certo para a Seleção, a próxima visita-surpresa acontecerá somente depois de 13 de julho, após a final da Copa do Mundo. Realli não se importa em perder o cliente ilustre durante esse período.

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