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Número 803,

Cultura

Televisão

Nascidas ontem

por Francisco Quinteiro Pires — publicado 08/06/2014 08h23, última modificação 08/06/2014 08h38
As séries dramáticas norte-americanas adicionam a complexidade feminina a suas tramas de sucesso. Na foto, cena de Orange is the new black
Netflix
Mulheres

Orange is the new black, a diversidade em nova temporada

Quando terminou um levantamento sobre os criadores de seriados da HBO, Maureen Ryan sentiu um choque. Nos últimos 40 anos, apenas uma das 32 séries dramáticas do canal a cabo havia sido criada por uma mulher (Tell me you love me, de Cynthia Mort). “Eu sabia da pouca representação das mulheres na televisão norte-americana, mas a análise provou que os executivos desses programas ignoram histórias influenciadas pela subjetividade feminina”, diz Ryan, crítica de televisão do The Huffington Post. O público, acredita ela, pode com o tempo considerar normal a falta de interesse com uma perspectiva diferente.

A pesquisa de Ryan destacou a HBO porque o canal por assinatura acumulou prestígio ao lançar o padrão estético das séries dramáticas da década passada. Os críticos são unânimes em atribuir o início da nova era de ouro da tevê norte-americana à Família Soprano, criada por David Chase em 1999. “A HBO ainda domina a imaginação do público e os debates sobre cultura popular”, afirma Ryan. A escolha de dramas de cerca de uma hora se justifica porque com eles as audiências costumam “examinar a condição humana” e “consolidar o poder dos responsáveis por colocá-los no ar”. Outros canais se inspiraram no modelo da HBO e produziram séries de grande popularidade como Mad Men e Breaking Bad (ambos do AMC). Eles também seguiram a tendência de desprezo pelo ponto de vista feminino. Ao observar os números de criadores dos seriados lançados nos últimos anos por HBO, AMC, Showtime, FX e Netflix, Ryan descobriu apenas 12 mulheres entre os 97 autores de programas originais.

A divulgação do levantamento coincidiu com a exibição da primeira temporada de True Detective entre janeiro e março deste ano. Criado por Nic Pizzolatto, esse drama tornou-se o sucesso mais recente da HBO ao mostrar a relação entre dois detetives responsáveis pela investigação do assassinato de uma mulher. De acordo com a votação dos telespectadores no IMDb, uma base de dados virtual sobre programas televisivos e filmes, True Detective é o terceiro seriado dramático mais bem avaliado de todos os tempos. Suas notas são maiores que as de Família Soprano, The Wire (HBO) e Mad Men. A obra de Pizzolatto dividiu, porém, opiniões quanto aos papéis femininos.

Emily Nussbaum, crítica do semanário The New Yorker, afirmou que as personagens com as quais os investigadores Rust Cohle (Matthew McConaughey) e Marty Hart (Woody Harrelson) interagem seriam tão planas quanto uma folha de papel. “Esposas, prostitutas e filhas, nenhuma delas apresenta qualquer resquício de vida interior”, escreveu Nussbaum. Quando as mulheres da série sofrem, a dor delas seria “decorativa”. True Detective teria um roteiro raso, sustentado sobretudo pelo carisma de McConaughey e Harrelson, duas estrelas cinematográficas.

Crítica da revista online Slate, Willa Paskin descreveu Hart como machista, mas chegou a uma conclusão diferente daquela de Nussbaum. True Detective seria sexista para denunciar a discriminação contra o sexo feminino. O drama trata, segundo Paskin, “das coisas horríveis que os homens fazem contra as mulheres, coisas que usualmente passam despercebidas e impunes”. Embora se comporte como um pulha, Hart posa de protetor. “Ele usa o seu status de marido e pai para encobrir o mau comportamento”, escreve ela. Na sua opinião, Maggie (Michelle Monaghan), a esposa de Hart, tem “uma tridimensionalidade verdadeira”. Pizzolatto considera Maggie “a reserva moral” da série.

Maureen Ryan percebe somente diferenças pontuais nos personagens de True Detective, Mad Men e Breaking Bad (2008-2013). “Grosso modo, os protagonistas desses seriados têm sérios problemas com a verdade e são incapazes de manter uma relação franca com as mulheres, às quais eles costumam desrespeitar com frequência”, diz Ryan. “As narrativas sobre Walter White (Bryan Cranston) e Don Draper (Jon Hamm) revelam sobretudo como eles fazem para vencer as barreiras contrárias à satisfação pessoal.” Ryan afirma, porém, haver mais espaço para “as reivindicações femininas” em Mad Men, cuja sétima e última temporada estreou em abril nos EUA. A sexta está disponível no Netflix Brasil.

A denúncia do sexismo nos anos 1960 está vinculada à obsessão de Matthew Weiner, o criador de Mad Men, pelos detalhes históricos. O seriado mostra exemplos de discriminação no ambiente de trabalho contra Peggy Olson (Elizabeth Moss), redatora publicitária, e Joan Harris (Christina Hendricks), secretária que se torna sócia de uma agência de propaganda influente em Nova York. No “Discurso sobre o Estado da União” em janeiro, o presidente Barack Obama citou a série para se referir à necessidade de as mulheres receberem salários equivalentes aos dos homens. “É hora de abolir as políticas de escritório pertencentes a um episódio de Mad Men”, declarou.

A situação foi pior, de acordo com uma pesquisa de Martha Lauzen, diretora-executiva do Center for the Study of Women in Television and Film, da San Diego State University. A presença de roteiristas, criadoras, diretoras, editoras e diretoras de fotografia aumentou de 21% para 28% entre 1998 e 2013. A proporção de papéis femininos com falas era antes 39%, agora, 43%. “Os números representam um crescimento lento e modesto.” Quando pesquisou o trabalho das mulheres nos filmes de maiores bilheterias, Lauzen percebeu Hollywood menos receptiva à contribuição feminina. “A realidade das mulheres na televisão norte-americana gera um pouco mais de otimismo.”

O estudo de Lauzen mostra que, se uma série é criada ou escrita por uma mulher, a proporção de papéis femininos com falas cresce de 40% para 43%. Ao mesmo tempo, a maioria das personagens é branca e tem entre 20 e 30 anos. “Quando criadores e roteiristas escolhem as personagens mais jovens, eles as representam como impotentes. À medida que envelhecem, as mulheres adquirem poder pessoal e profissional, fato com o qual a cultura norte-americana ainda não sabe lidar.”

A exceção à falta de diversidade das personagens femininas é Orange Is the New Black, criada por Jenji Kohan para o Netflix, serviço de transmissão de filmes e séries pela internet. “Se me perguntassem há cerca de um ano se eu conseguiria imaginar um seriado cuja maioria das personagens é de afro-americanas ou ascendência latino-americana, nunca responderia sim”, considera Ryan. Orange Is the New Black, cuja segunda temporada estreia na sexta-feira 6 no Brasil, narra a história de Piper Chapman (Taylor Schilling), uma nova-iorquina branca de classe média presa como cúmplice de uma traficante de drogas. Na penitenciária, Chapman convive com mulheres de origens e escolaridades variadas.

Os executivos de tevê, acredita Ryan, devem se preocupar com a inclusão de personagens e roteiristas de diferentes raças e etnias, ou perderão dinheiro. Segundo o Censo de 2010, os brancos deixarão de ser a maioria dos residentes nos EUA até 2060, quando comporão 43%, em vez dos atuais 63%, da população. O conjunto das minorias vai crescer de 37% para 57% nos próximos 50 anos. Ryan sugere que as críticas não sejam endereçadas aos criadores das séries, mas aos responsáveis pelas decisões orçamentárias. “Eles alegam que contratam de acordo com o mérito. Mas o fato de os seriados não contemplarem pontos de vistas diversos deve-se mais às conexões pessoais do que à meritocracia. É mais confortável trabalhar com alguém fisicamente parecido e com as mesmas opiniões.” Ryan trata como nocivo o controle das histórias exercido por um gênero ou um grupo. “O progresso passa pela cautela com a voz única.”

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