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Número 802,

Internacional

Ucrânia

Poroshenko, o camaleão

por Gianni Carta publicado 26/05/2014 12h33, última modificação 30/05/2014 17h30
O oligarca eleito presidente serviu a russófilos e a pró-europeus. Por Gianni Carta, de Kiev
Sergei Supinski / AFP

De Kiev

Biografias de Petro Poroshenko o descrevem como um político pragmático. Ele é antes de tudo um burocrata capaz de servir a quem estiver no poder, fato nada incomum até em sólidas democracias. Poroshenko foi ministro do Exterior sob o governo do presidente pró-europeu Viktor Yushchenko. Em 2012, ocupou o cargo de ministro do Tesouro e do Desenvolvimento Econômico do pró-russo Viktor Yanukovich, deposto em fevereiro pelos manifestantes da Praça Maidan, após ter se recusado a assinar um contrato de livre-comércio com a União Europeia, enquanto flertava com a Rússia. Mais pragmatismo? Poroshenko foi um dos fundadores do Partido das Regiões, legenda de Yanukovich. E é compadre de Yushchenko, padrinho de seus quatro filhos.

Nesse país dividido entre a Europa e a Eurásia, Poroshenko é um camaleão. Nascido em Odessa 48 anos atrás, o bilionário magnata das confeitarias, mais conhecido como o “Rei do Chocolate”, tem como língua materna o russo, embora domine o ucraniano, algo comum na ex-república soviética independente há 23 anos, na qual os 46 milhões de habitantes são bilíngues. Em seu primeiro discurso, após ter obtido 56% dos votos, em ucraniano, resumiu: “Escolhemos a Europa”. Deixou clara, porém, sua intenção de “dialogar” com a Rússia de Vladimir Putin. Seu discurso foi bem-recebido nos dois lados.

François Hollande, presidente da França, convidou-o para participar, em 6 de junho, do 70º aniversário do Dia D, data do desembarque dos aliados na Normandia durante a Segunda Guerra Mundial. Putin, es tá confirmado, jantará com Hollande. Será o primeiro encontro entre o presidente de um país da União Europeia e o líder russo, desde a anexação da Crimeia pela Rússia, em março.

Hollande quer ir mais longe: pretende organizar um tête-à-tête entre Putin e Poroshenko. Não será um diálogo fácil. Poroshenko não aceita a anexação da Crimeia e quer acabar com a guerra entre Kiev e a Ucrânia Oriental, onde regiões pró-russas em Donbass, o leste industrial, como Donetsk e Luhansk, se tornaram independentes com o suposto apoio da Rússia. Putin, por sua vez, argumenta que as manifestações na Praça Maidan, a favor do tratado de livre-comércio com a UE, foram financiadas pelo Ocidente. Se Poroshenko chama os separatistas pró-russos na Ucrânia Oriental de “bandidos”, Putin define os manifestantes em Kiev, na Praça Maidan, como “fascistas”. Facções dos dois lados merecem as alcunhas. Provavelmente vão ocorrer na Normandia outras reuniões “secretas”, entre elas um encontro entre Poroshenko e Barack Obama, ou dele com a chanceler alemã, Angela Merkel.

Na Ucrânia, a vitória de Poroshenko foi encarada como aquela do candidato menos ruim. “Era preciso um vencedor no primeiro turno para trazer estabilidade”, afirma o historiador Yura Radchenko. “Mas essa história de que a UE vai nos tirar do buraco, como pensa o povo, é um conto de fadas. Esse projeto começa com um acordo de livre-comércio, mas, efetivamente, vai levar muito tempo, 10, 15 anos, para nos integrarmos. Se isso de fato acontecer.”

Segundo o historiador, os 60% de comparecimento às urnas tornaram “legítimas” as eleições, especialmente quando considerado o fato de que na região de Donetsk, entre outras, não houve colégio eleitoral. Em um longínquo segundo lugar, a ex-premier Yulia Timoshenko, da legenda Pátria, também pró-UE, angariou apenas 13% dos votos.

O comparecimento às urnas é também importante quando se consideram as intimidações por parte dos milicianos separatistas pró-Rússia e não somente em Donetsk e Luhansk. Em Sloviansk, o fotojornalista italiano Andrea Rocchelli e seu intérprete, Andrei Mironovo, foram mortos. Dezenas de cidadãos perderam a vida em embates entre o Exército ucraniano e milícias separatistas na Ucrânia Oriental. Idem no aeroporto de Donetsk, que na quarta-feira 28 estava novamente sob controle das forças ucranianas.

Em Kiev, as eleições ocorreram tranquilas. Sob forte calor, no colégio eleitoral instalado no Instituto de Pesquisa de Fisiologia Bogomelets, no centro da capital, Ivan Plachkov, ex-ministro de Energia de Yushchenko, afirmou: “Votei no candidato que pode vencer no primeiro turno. A Ucrânia pode ser uma ponte entre a UE e a Rússia”. Plachkov discorre sobre sua vinícola, às margens do Danúbio: “O terroir, as uvas e a mão de obra são da Ucrânia. A tecnologia é italiana e francesa”. Um exemplo de integração.

Em outro colégio eleitoral de Kiev, o Clube do Exército, o calor foi anulado pelo ar condicionado. Tatiana Batyuk votou em Poroshenko. “Ele é empresário, acho que vai saber administrar o país.” Ela começa a chorar: “Não quero mais ver a imagem tão denegrida da Ucrânia mundo afora. Somos pobres, a Rússia nos domina, a mansão de Yanukovich virou museu para estrangeiros”. Seu companheiro, um sorridente jovem, a conforta. Eis Miroslava Kotorovich, violinista de grande talento, com a filha. “Votei em Poroshenko. Espero que ele saiba lidar com a UE e com Putin.”

Quem sabe tenha razão Kotorovich. Em um país pós-comunista, o segundo em número de habitantes da ex-URSS, empresários são tidos como aqueles a tomar iniciativas. São os oligarcas que, bem ou mal, influenciam políticos ou se tornam políticos.

Segundo a revista americana Forbes, Poroshenko valia 1,6 bilhão de dólares em 2013. No início da campanha eleitoral, era o segundo colocado, atrás de Vitali Klitschko, campeão peso pesado pelo Conselho Mundial de Boxe. Klitschko, herói na luta contra Yanukovich na Praça Maidan, abriu mão de sua candidatura presidencial para favorecer Poroshenko. Isso após um encontro na Áustria com o empresário Dmytro Firtash, o magnata do gás recentemente preso em Viena pelo FBI. Firtash é um grande lobista russo. “Há muitas especulações sobre esse encontro”, diz o jornalista Oleg Varfolomeyev.

O economista Andriy Novak também vê com bons olhos a vitória de Poroshenko: “Ele é bom empresário e, portanto, entende de economia”. Mas em um país com retração econômica de 6,5% neste ano, diz Novak, e 30% de desemprego, sua tarefa é no mínimo complicada. Poroshenko terá de cortar, entre outros, subsídios estatais e aumentar os preços da eletricidade e do gás. Novak pergunta: “Poroshenko é sincero quando diz que não aumentará os poderes presidenciais?” Desde a Revolução Laranja, em 2004, o raio de ação do Executivo foi reduzido. Mas de um pragmático camaleão espera-se qualquer coisa.

Gaide e os refugiados

Na Praça Maidan, onde, em novembro de 2013, foram iniciados os protestos contra a política anti-União Europeia e pró-Rússia de Viktor Yanukovich, uma tenda se destaca. Nela se lê: “Crimeia”, em cirílico. Em fevereiro, Yanukovich escapuliu para a Rússia diante da violência das demonstrações. Petro Poroshenko, um oligarca, foi eleito. Mas inúmeras barracas continuam de pé. Inclusive aquela onde lemos “Crimeia”.

Sua dona é Gaide, uma advogada crimeia instalada em Kiev desde maio. Gaide é tártara, tem pouco mais de 30 anos e instala em casas abandonadas conterrâneos da península, bem como aqueles do leste e sul da Ucrânia. “O Estado não faz nada, nenhum candidato falou de programas para alojar refugiados, então comecei a instalá-los.” Somente em Kiev há, estima ela, 10 mil refugiados. E o número deve aumentar, prevê. “Dormi aqui nesta barraca durante a revolução e continuo aqui.” Ela fugiu da Crimeia em maio, quando a península acabava de ser anexada e a forçaram a adotar um passaporte russo.

À nossa volta sentam-se homens para escutar nossa conversa. Outros dormem no chão. Vários são seguranças da legenda extremista Setor de Direita. Gaide explica que mal usa o quarto de hotel cedido porque sempre chega alguma família com filhos. Ela aponta para trás. “Veja, essa mãe com quatro filhos acaba de chegar de Donetsk. O quarto do hotel está vazio e vou colocá-los lá até achar outro lugar.”

Pelo fato de lidar com a questão dos refugiados, ao contrário do Estado, Gaide virou uma celebridade. Coragem ela tem de sobra. Vitali Klitschko, eleito prefeito de Kiev no domingo 25 e líder dos protestos em Maidan, agora quer varrer a praça de manifestantes e barracas. “Deixa ele tentar”, dispara.

Gaide entrou em contato com a segurança em Mezhyhirya, 20 quilômetros ao norte de Kiev. Aqui, a propriedade de 140 hectares de Viktor Yanukovich virou o “museu da corrupção”. No terreno há dois edifícios de luxo, as ex-moradias de empregadas e mordomos. Gaide disse ao chefe de segurança de Mezhyhirya: “Ou entramos em um acordo, e o senhor vai abrigar refugiados nessas casas abandonadas, ou vamos usar força”.

Assim 41 famílias de ucranianos, tártaros e até russos foram morar lá. Fui recebido por uma ucraniana, Tatiana, e seu filho de 2 anos. Seu marido colocou-a em um trem com o filho para Donetsk quando a Rússia invadiu a Crimeia, em março. Contra a vontade dos pais em Donetsk, pró-russos, Oksana Zinenko veio a Kiev. “Eu não poderia abrir mão de meu passaporte ucraniano e obter um russo.” O marido ficou na Crimeia, pois o pai de 87 anos sofre de mal de Parkinson.

“Minha vida era muito boa. Eu era paisagista, fazia jardins de resorts. Meu marido é ecologista, protege a fauna marinha. De nossa janela, no nosso apartamento no sétimo andar, víamos com binóculos os navios. Uma vida de sonho. Nunca imaginávamos que fosse terminar assim.”

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