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Número 802,

Sociedade

Protestos

MTST, o novo protagonista

O Movimento dos Trabalhadores Sem Teto cresce diante da especulação imobiliária e comanda os protestos mais relevantes do País
por Piero Locatelli publicado 09/06/2014 04:50, última modificação 10/06/2014 10:54
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Alex Silva/Estadão Conteúdo

Há cinco anos, Wilson Barbosa saiu de Oeiras, Piauí, para trabalhar em São Paulo. Na época, o então faxineiro pagava 350 reais para alugar a casa onde morava com a esposa e dois filhos no extremo da zona leste. Hoje, com 30 anos, trabalha como porteiro de um prédio e recebe um salário maior. Mesmo assim, não consegue mais pagar a locação de um imóvel. “Eu ganho 1.015 reais como porteiro, e 600 vão para o aluguel. Tenho de pagar uma pessoa para olhar um filho, aí são mais 200 reais. Além disso, tem a van para ir à escola. Assim fica difícil, mesmo com a ajuda da minha esposa, que trabalha em uma lanchonete.”

Espremido pelo aumento do custo de vida, Barbosa soube da ocupação de um terreno abandonado na zona leste da cidade pelo Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST). Lá, ergueu um barraco e agora tenta conseguir um lugar para morar. O piauiense é um dos milhares de cidadãos que tiveram contato com o movimento pela primeira vez no último ano. Nas ocupações, a reportagem de CartaCapital conversou com dezenas de desalojados em situações parecidas.

Com a adesão de desafortunados como Barbosa, o MTST fez as maiores manifestações na cidade desde junho do ano passado. Durante os rolezinhos, quando jovens eram impedidos de entrar em shoppings, eles protestaram diante dos centros de compra. Também interditaram ruas dezenas de vezes e realizaram marchas com mais de 20 mil militantes. E o Plano Diretor de São Paulo, a lei que regula como e para onde a cidade deve crescer, só caminha graças aos persistentes protestos do grupo em frente à Câmara de Vereadores. Além disso, milhares de famílias ocuparam cinco terrenos na periferia.

O movimento atribui o fôlego e a atenção sem precedentes a dois motivos: um diálogo constante com a população e o agravamento dos problemas urbanos. “Boa parte dos movimentos populares e organizações de esquerda deixou de fazer o trabalho pela base. E isso é o feijão com arroz, o que precisa ser feito para acumular força”, diz Guilherme Boulos, coordenador do movimento. “O crescimento econômico na década de 2000, na era ‘lulista’, trouxe um efeito colateral perverso: a especulação imobiliária.” Para Boulos, isso ocorreu pelo crescimento ter se baseado no crédito e em estímulos às empresas de construção civil, com o Minha Casa Minha Vida, e pesada, com o Programa de Aceleração do Crescimento. “Por não haver controle desse mercado, a consequência é o aumento da especulação, do valor dos aluguéis e a expulsão de moradores para lugares cada vez mais distantes.”

São Paulo é onde esse problema é mais agudo no País e, consequentemente, em que mais se concentram as ações do movimento. Dados da Fundação João Pinheiro, conveniada ao Ministério das Cidades, revelam que a cidade tem o maior déficit habitacional do País, de 700 mil unidades. A situação paulistana tem se tornado ainda mais crítica nos últimos anos. Segundo o Secovi-SP, sindicato patronal do setor imobiliário, o preço do aluguel em Itaquera, zona leste, subiu 140% nos últimos cinco anos. Naquela região, o movimento fez sua ação mais chamativa  onde Barbosa levantou seu barraco, a ocupação Copa do Povo, localizada a 4 quilômetros do estádio-sede da abertura da Copa do Mundo.

O movimento critica os impactos gerados pela Copa, as remoções, os estímulos às construtoras e as consequências das obras. As ações do MTST não usam o slogan Não Vai Ter Copa, mas sim Copa Sem Povo, Tô na Rua de Novo. O Mundial fez crescer a especulação urbana e a segregação na cidade. Seria, portanto, um momento para lutar por direitos dos trabalhadores.

A ideia de batizar a ocupação com um nome relacionado ao evento foi bem-sucedida. Hoje são 5 mil famílias no lugar, em sua maioria recém-chegadas ao movimento. O local é organizado seguindo regras de um regimento interno votado pelos moradores. Os banheiros e as cozinhas são coletivos, o uso de drogas e bebidas em locais abertos é proibido e brigas ou qualquer tipo de preconceito podem levar à expulsão. O comércio não é autorizado, o que faz vendedores de cachorro-quente e bebidas se instalarem ao redor da ocupação.

Os barracos da ocupação não devem se transformar em moradias permanentes, como aconteceu em antigas ocupações da periferia paulistana, onde as edificações resultaram em bairros precários e desordenados. Para o movimento, a ocupação do terreno com lonas pretas é um meio para obter moradia de qualidade no futuro e outros serviços, e não um fim em si mesmo.

O movimento visto em Itaquera é fruto de um trabalho iniciado há 17 anos dentro do MST, o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra. O movimento rural organizou uma ocupação urbana em Campinas e a batizou com o nome de um militante morto no massacre de Eldorado dos Carajás, Oziel Alves Pereira. No auge da mobilização, mais de 30 mil militantes moravam no local.

Zezito Alves, o Zito, teve contato com o movimento quando ocupou um terreno abandonado em Itapevi e buscou o auxílio dos acampados em Campinas. Hoje, com 42 anos, o ajudante de obras é um dos militantes mais antigos. Zito diz que a breve ocupação de um terreno da Volkswagen em São Bernardo do Campo, em 2003, foi o momento mais importante do movimento. No mesmo ano em que Lula assumia a Presidência, o MTST crescia e ganhava uma organização com características próprias. “Independente de quem for o partido no poder, nós vamos pra cima. E a gente sabe que o MST e outros movimentos têm um vínculo forte com o PT, apesar de não serem partidários”, diz Zito. “Com o PT no poder, a habitação não avançou muito, mas foi mais fácil dialogar. Somos críticos do programa Minha Casa Minha Vida, porque ele não resolve nossos problemas. Foi importante lançar esse programa? Foi. Mas precisamos de muitos mais ganhos para a população carente.”

Nesse período, o MTST não participou de eleições ou apoiou candidatos abertamente. Seus militantes também não integram conselhos e órgãos onde movimentos petistas ligados à moradia atuam. Apesar disso, o MTST está aberto ao diálogo. Este ano, já se encontraram com a presidenta Dilma Rousseff, o governador Geraldo Alckmin e o prefeito Fernando Haddad. “Quando você tem milhares em um movimento com uma luta concreta por um direito social, você precisa dar uma resposta para essas demandas, e é inevitável que você tenha de negociar”, justifica Boulos. “A diferença é se você negocia ajoelhado ou se dialoga de pé. Se vai por dentro da institucionalidade, você dialoga dentro da lógica do favor. Se você dialoga por fora, marchando e fazendo luta, você dialoga de igual para igual.”

À frente das negociações com agentes públicos, Boulos tornou-se o nome mais conhecido do MTST. Filho de Marcos Boulos, professor da USP, e formado em Filosofia pela mesma universidade, entrou para o movimento em 2002 e foi viver com os sem-teto. Boulos, porém, não gosta de falar do lado franciscano da sua história de vida. “A imprensa brasileira tem uma irresistível tendência à fofoca. Com raras exceções, boa parte do que se publica nos principais jornais poderia caber nas páginas da Caras ou da Contigo! Dessa forma, escondem-se as pautas e as razões fundamentais de um processo como o que estamos fazendo. Nós não queremos corroborar com isso.”

As pautas variam entre as demandas locais e mudanças mais amplas na política urbana. Com o Plano Diretor, a ocupação Nova Palestina, na estrada do M’Boi Mirim, pode ser destinada à moradia graças à mudança em seu zoneamento. No caso da Copa do Povo, o MTST reivindica a desapropriação do milionário terreno, da Viver Incorporadora, por causa da milionária dívida desta com a prefeitura.

Nacionalmente, o grupo pede a ampliação das faixas de renda atendidas pelo programa Minha Casa Minha Vida, para famílias com renda igual ou inferior a seis salários mínimos. Também luta pela expansão da modalidade Entidades do programa habitacional. Nela, em vez de o dinheiro ir do governo à empreiteira, o dinheiro é destinado ao movimento social ou outra entidade, responsável por decidir como será a construção e estabelecer quem ganhará a moradia dentro das normas do programa.

Em Taboão da Serra, na Grande São Paulo, o MTST mantém um empreendimento do programa onde são construídos apartamentos com mais de 60 metros quadrados, muito acima dos 39,6 metros quadrados do padrão mínimo do programa federal. O movimento alega que esse modelo gera eficiência maior, pois diminuir o lucro das empresas permitiria a construção de moradias maiores e melhores.

Ao menos 380 famílias receberão as chaves de casa até o fim do ano em Taboão. Manter mobilizada a militância que consegue uma moradia é um dos desafios do MTST. Ao contrário dos assentamentos rurais, onde casa e trabalho se confundem, nada impede que um integrante deixe o movimento após conseguir uma casa. Para Boulos, a educação é um antídoto contra a desmobilização. “Naturalmente, boa parte vai querer só a sua reivindicação e depois vai parar. E é legítimo. Agora, o movimento tem uma proposta para além da moradia, e uma parte dos manifestantes se convence dela. Lenin dizia que uma greve vale mais do que cem livros, do ponto de vista da formação do operário. Uma ocupação vale mais que cem livros para um trabalhador que participa delas.”

Por ora, a perda de militantes não parece ser um problema no caldeirão das grandes cidades, os sem-teto elevam-se na fervura. Se há um movimento capaz de chamar a atenção durante a Copa, este é o MTST.

*Reportagem publicada originalmente na edição 802 de CartaCapital com o título "Os novos protagonistas"

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