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Número 802,

Cultura

O Som da Imagem

Entre o samba e a tarantella

por Oliviero Pluviano — publicado 31/05/2014 06h40
A caráter para homenagear a Azzurra, o gaiola Gaia viajará de Santarém a Manaus
Oliviero Pluviano
O Som

Vestido para a Copa, Gaia dará apoio ao time de Balotelli

Estamos no mês da Copa. Vivi 35 anos na Itália e estou há 25 no Brasil. Meu coração de torcedor está dividido entre a terra do samba e a da tarantella. Vou torcer pelo Brasil no jogo de estreia contra a Croácia, mas o destino quis que a primeira partida da Itália fosse em Manaus, em 14 de junho, contra a Inglaterra. Há dez anos tenho em Santarém uma gaiola batizada Gaia, aqueles barcos típicos de madeira de dois andares nos quais se dorme em redes. Gaia passou esse longo período para transportar a ONG Saúde e Alegria em campanhas de vacinação e levando o cinema às comunidades remotas do Rio Tapajós (se quiser, veja a reportagem do Fantástico na Globo em http://www.youtube.com/watch?v=nTLfCB3qWhg).

Foi assim que pensei em aproveitar esse evento futebolístico para levar o Gaia até Manaus, uma viagem de três dias de Santarém pelo Rio Amazonas. Mas será uma “gaiola” especial, vestido para a Copa, todo pintado na cor azzurra da camisa da seleção italiana e com a cabine de comando em verde, branco e vermelho, as cores da bandeira da Itália. Viajaremos com muitos torcedores vindos de São Paulo (a cidade mais italiana do mundo, com 6 milhões de oriundi: maior do que Roma e Milão), vestidos com uma polo azul, enfeitada por uma arara tricolor nas costas. Com este sentido, patrocinado pela Fiat e pela Cellini, quero dar meu apoio original e descontraído ao time de Balotelli, com um sabor típico da Amazônia.

A bordo levaremos um trombonista e outros pseudoinstrumentistas. Ao chegar ao Rio Negro improvisarão o hino italiano diante da concentração da seleção. Tudo regado a lambrusco, com muita alegria e uma quantidade enorme de espaguete. De todo modo, e sinceramente, como vários de meus compatriotas, não aprecio muito o hino de Mameli, apesar de ter sido composto em Gênova, minha cidade natal e de Mino Carta. Estou entre aqueles, e são muitos, que gostariam que o “italian anthem” fosse Va Pensiero, o coro do Nabuco de Giuseppe Verdi.

Ouviremos 32 hinos durante a Copa do Mundo. No topo do ranking dos mais bonitos estão o russo, o alemão, o inglês e o francês. O Deutschland, Deutschland Über Alles pode gabar-se de ter uma música de 1797 de Haydn, e o God Save the Queen dos ingleses, além de ser o hino mais antigo do mundo (1745), é sem dúvida uma das mais belas celebrações patrióticas, agora cantadas pela multidão nos estádios do mundo. Mas o Hino Brasileiro é certamente o mais pacífico e alegre de todos aqueles corais bélicos e marciais de meia Europa.

Dos países presentes na Copa, gosto do hino da Suíça (o Salmo Suíço, composto em 1841 por um monge cisterciense), o do Japão (Kimigayo = Reino Imperial), que é o mais breve de todos (apenas oito palavras), e o da Eslováquia, Nad Tatrou sa Blýska (Um Relâmpago Sobre as Tatra). Há quem considere esse hino, que começa com uma tempestade nos Cárpatos, excessivamente fúnebre, mas parece mais sintonizado com os tempos sombrios em que vivemos. Faltarão na Copa os fantásticos hinos da Escócia, executado pelas gaitas de fole, do País de Gales (o meu preferido) e, obviamente, o da União Europeia: ouça-o no YouTube em um flash mob, as aglomerações instantâneas que em local combinado realizam ações inusitadas (http://www.youtube.com/watch?v=GBaHPND2QJg) em Sabadell, perto de Barcelona. É o Hino à Alegria da Nona Sinfonia de Beethoven, e com isso desejo a todos uma ótima Copa.

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