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Número 802,

Saúde

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Amigos, um bem necessário

por Rogério Tuma publicado 01/06/2014 05h37
Eles melhoram a saúde física e mental e podem até ajudar nos negócios
Divulgação
Friends

Ter amigos facilita a vida. Vide as relações no seriado Friends

A revista New Scientist publicou um artigo de Lauren Brent, pesquisadora de comportamento social e de amizade da Universidade Duke, nos Estados Unidos, e da Universidade de Exeter, na Inglaterra. O estudo compila uma série de pesquisas publicadas que corroboram a ideia de que ter amigos é essencial à vida. Apesar de manter amigos gerar custos, já que o tempo gasto com eles poderia ser usado em outras tarefas essenciais, como trabalhar ou dormir,  os benefícios de contar com ajuda quando se precisa compensa o investimento. Para que ter amigos se tornasse uma necessidade básica, a natureza associou tal desejo a um circuito neuronal de reforço e recompensa, o qual, quando estimulado, provoca uma sensação de prazer e bem-estar.

A interação entre dois seres inicia-se quando o bebê suga o peito, e o estímulo provoca a liberação no cérebro materno de um hormônio, a oxitocina, que aumenta a produção de leite. Ela também estimula ações de defesa de grupo, senso de confiança no próximo e a generosidade.  As endorfinas, que causam sensação de bem-estar, por exemplo quando fazemos exercícios, também são liberadas no contato físico. Quando se rema em grupo, por exemplo, se libera mais endorfinas do que quando se rema sozinho. O trabalho fica mais prazeroso, mostra o estudo de Robin Dunbar, da Universidade de Oxford.

Para mantermos esse drive social é preciso ter informações sociais e identificar as figuras mais amigas: bebês quando nascem são mais atraídos por rostos do que por outras imagens, pessoas testadas em ressonância funcional demonstram maior atividade do núcleo cerebral accumbens, quando imagens de seus amigos de Facebook são apresentadas do que quando rostos de pessoas desconhecidas. Esse núcleo está relacionado também à formação de reforço e recompensa. Mas, se ter amigos é tão bom, por que passamos a vida colecionando tão poucos? A resposta vem com um estudo de Fowler e Christakis, que mostra que escolhemos para amigos pessoas como nós. A associação genética entre amigos os faz parecer primos de segundo grau, o que demonstra que a colaboração entre amigos é primordialmente para aumentar a chance de os genes sobreviverem. Os genes também determinam o quão amigáveis seremos. Gêmeos idênticos  têm um potencial de fazer amigos semelhantes entre si, mesmo se viverem em comunidades distintas. Com o advento das redes sociais digitais, era de se pensar que o conceito de amizade sofresse uma revolução, mas será que isso ocorreu?

Um estudo americano mostrou que, entre 1985 e 2004, a média de amigos próximos, isto é, pessoas que chamamos em situações críticas, reduziu-se de três para dois. Em paralelo, a média de amigos de redes sociais em alunos de faculdade subiu, entre 2006 e 2009, de 137 para 440. A questão maior é quanto nossos amigos digitais são verdadeiramente amigos. Os fenômenos de rolezinho ou as manifestações marcadas por internet, são situações que sugerem que a ligação afetiva pode ser tão intensa quanto a que é gerada pelo contato físico, e que a defesa de uma ideologia por grupos formados por rede social pode ser também fruto do instinto de preservação da espécie.

O modelo de amizade parece ser o mesmo, mas amplificado na rede social: amigos digitais tendem a convencer os outros a reverberar seus atos. Em estudo publicado na Nature, James Fowler e seu grupo da Universidade da Califórnia enviaram mensagens para 61 milhões de usuários do Facebook, incentivando que votassem nas eleições de 2010. Sessenta mil pessoas  mudaram sua opinião após o pedido e foram votar. Isso mostra o poder de interferência entre amigos virtuais. É reconfortante saber que os movimentos sociais estão mais independentes de lideranças não naturais, não escolhidas pelos genes.

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