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Número 801,

Saúde

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O contexto das descobertas

por Riad Younes publicado 26/05/2014 04h12, última modificação 26/05/2014 05h33
Livro mostra como os avanços da medicina se ligam aos grandes eventos da História mundial. Por Riad Younes
Natasha Montier/ GOVRJ
Medicina

Peritas trabalham no Instituto de Pesquisas e Perícias em Genética Forense, ligado à Polícia Civil do Rio. O DNA, descoberto nos anos 1950, é um dos principais avanços da Medicina no século XX

Na semana passada, li um livro recém-lançado sobre os avanços da medicina: A História do Século XX pelas Descobertas da Medicina (Editora Contexto), no qual os doutores Stefan Ujvari, infectologista do Hospital Oswaldo Cruz, e Tarso Adoni, neurologista da Faculdade de Medicina da USP, discutem as invenções e descobertas no contexto histórico e social que rodeava os gênios por trás desses avanços. Chama atenção a ínfima participação dos pesquisadores brasileiros nos momentos mais impactantes da história da medicina. O doutor Stefan fala a respeito.

CartaCapital: O livro enfatiza o impacto da História nas descobertas médicas.

Stefan Ujvari: Sim. Muitas descobertas do século XX foram possíveis graças a fatos históricos. As guerras mundiais, por exemplo, trouxeram a viabilidade da produção em massa de antibióticos, o desenvolvimento do ultrassom e da tomografia e esclareceram a causa do raquitismo.

CC: E hoje, a pesquisa ficou diferente?

SU: Bem diferente. Perdemos a fase romântica dos cientistas da primeira metade do século XX, que não dispunham de tamanha tecnologia, mas apenas da capacidade criativa e observacional.

CC: O foco da pesquisa é o mesmo?

SU: Não. No começo do século passado, a ciência voltava-se para as causas de morte à época (doenças infecciosas). Hoje, a expectativa de vida elevou-se e a qualidade de vida e de alimentação se deteriorou. Com isso, preponderam doenças crônicas e em idosos e as pesquisas se concentraram em tratamentos de diabetes, hipertensão, depressão, hipercolesterolemia, doenças cardiovasculares, neurológicas e câncer, dentre outros.

CC: Temos ouvido falar de “descobertas espetaculares”, que pouco depois se mostraram inúteis ou prejudiciais. Como tem visto a “comercialização” das novidades e as fraudes científicas?

SU: Boa parte das “descobertas milagrosas” vem ao encontro de uma população frustrada e descontente. Quanto às fraudes, são passíveis de ocorrer pelas mãos de pessoas inescrupulosas em qualquer profissão. Muitos se rendem às elevadas ofertas monetárias para fraudar resultados de pesquisas. Outros as realizam pela vaidade e ambição. Fora os pesquisadores fraudulentos por distúrbios mentais. Tais estudos forjados acarretam enormes problemas de saúde pública. Um trabalho publicado em 1999 associou a vacina contra o sarampo a casos de autismo. Os grupos contrários à vacinação se muniram desse estudo para alavancar campanhas contrárias à vacina. Conclusão: vivemos o retorno do sarampo em epidemias na América do Norte e  na Europa.

CC: No seu livro, notamos a ausência de participação dos cientistas dos centros brasileiros no século XX. Por quê?

SU: A ciência médica brasileira desde a segunda metade do século XIX voltava-se a copiar o modelo de atendimento europeu. Enquanto isso, Estados Unidos e Europa investiam em pesquisa. A Proclamação da República descentralizou a saúde, mas seguiu-se a copiar o modelo estrangeiro em detrimento da pesquisa. Na década de 1890 surgiram os institutos Bacteriológico e Vacinogênico aos moldes europeus, ambos no enriquecido estado de São Paulo. Em 1900, surgiram o Instituto Butantan e Manguinhos voltados à produção do soro contra a peste bubônica. Apesar de prestigiados, ambos se depararam com o crônico baixo orçamento. E as grandes universidades brasileiras, reduto das pesquisas, foram criadas apenas na década de 1930.

CC: Faltam cérebros no Brasil?

SU: Não. Carlos Chagas, por exemplo, que em viagem ao interior para o controle da malária suspeitou de uma nova doença e a investigou: descobriu não apenas a doença de Chagas, como também o agente causador e o meio de transmissão.

CC: Como está a ciência médica brasileira no século XXI?

SU: Apesar das dificuldades vemos descobertas de profissionais dedicados à pesquisa. A mídia frequentemente relata descobertas por cientistas brasileiros. Porém, a carência para alavancarmos as pesquisas e descobertas é a mesma: falta de recurso financeiro suficiente.

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