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Número 801,

Política

Redes sociais e eleições

A artilharia política no Facebook

Com quase 100 milhões de usuários no Brasil, a rede social ganha peso no jogo eleitoral e projeta novos protagonistas no debate. Mas, como em toda guerra real ou virtual, a verdade é a primeira vítima
por Renan Truffi e Rodrigo Martins — publicado 27/05/2014 08h39, última modificação 27/05/2014 17h42
Instagram / Palácio do Planalto
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Dilma Rousseff e Jeferson Monteiro no Palácio do Planalto, em setembro de 2013

Se a internet serviu de palco para importantes batalhas nas eleições de 2010, poucos duvidam de um papel ainda mais decisivo na corrida presidencial deste ano. A quatro meses das eleições, a movimentação dos partidos políticos nas redes sociais é intensa. A candidata à reeleição Dilma Rousseff, do PT, e os presidenciáveis Aécio Neves (PSDB) e Eduardo Campos (PSB) começaram a montar seus bunkers digitais, com uma previsão de gastos superior a 30 milhões de reais. Não é um tiro no escuro. Atualmente, 105 milhões de brasileiros têm acesso à internet, atesta o Ibope Media. Desse universo, ao menos 76 milhões desfrutam de conexão doméstica. É o mesmo número de cidadãos com contas ativas no Facebook, segundo o último balanço da companhia, divulgado em setembro do ano passado.

A rede social criada por Mark Zuckerberg é, por sinal, a menina dos olhos dos marqueteiros digitais. Não apenas pela impressionante expansão no País – em 2010, havia pouco mais de 8,8 milhões de brasileiros cadastrados no Facebook –, mas pelo inestimável patamar alcançado por determinadas páginas a partir de investimentos relativamente modestos. O fenômeno da TV Revolta é emblemático. Notabilizada por um disfarce de niilismo político cujo objetivo, no fundo, é atacar o PT, a página tem mais de 3,5 milhões de seguidores e alcança mais de 27 milhões de internautas.

O número varia ao longo do dia e está estampado no índice “falando sobre isso” do Facebook. Tal indicador mede, na prática, a quantidade de usuários que compartilham, comentam, respondem ou interagem de alguma maneira com qualquer evento ou assunto relacionado ao conteúdo da página. Por esse quesito, a TV Revolta supera de longe perfis como o do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (167 mil “falando sobre isso”), da presidenta Dilma Rousseff (215 mil) ou até do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama (715 mil). Além disso, um público de 27 milhões é superior àquele de muitos dos telejornais de maior audiência da tevê aberta.

De janeiro a abril deste ano, o Jornal Nacional, da Rede Globo, registrou média de 25,4 pontos no Ibope. Cada ponto representa 217.460 domicílios e 641.286 indivíduos no Painel Nacional de Televisão (PNT), amostra que estima a audiência em todo o Brasil. Ou seja, o telejornal é visto, em média, por 16,2 milhões de brasileiros diariamente, bem abaixo do número de internautas que, de alguma forma, têm acesso ao conteúdo do TV Revolta.

“É verdade que a exposição na televisão é de outra natureza, os indivíduos param para assistir ao telejornal. Mas não é uma comparação absurda, pois o Facebook permite a interação entre os usuários, e tem muita gente dedicando seu tempo à TV Revolta, seja para compartilhar, curtir seus conteúdos, seja para criticar”, avalia Fábio Malini, coordenador do Laboratório de Estudos sobre Imagem e Cibercultura da Universidade Federal do Espírito Santo (Labic). A pedido de CartaCapital, o especialista mapeou o espectro conservador no Facebook. Identificou mais de 1,1 mil páginas, com 56,4 milhões de seguidores. Juntas, somavam mais de 42,5 milhões de usuários comentando seus posts na quinta-feira 22. E a TV Revolta correspondia a cerca de 60% dessa interação.

O canal desenvolve uma estratégia peculiar: combinar humor de gosto duvidoso com militância política. Ao mesmo tempo que reproduz piadas toscas e vídeos apelativos, compartilha supostas denúncias, muitas vezes apócrifas, e ataques contra políticos. Os alvos preferidos são o governo Dilma Rousseff e o PT. Na TV Revolta são veiculadas montagens simples, com frases curtas, contra, entre outros, o Bolsa Família e o Marco Civil da Internet, além de chacotas sobre a prisão de condenados no “mensalão”. O perfil também elegeu um ídolo, o presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa.

Não são poucos os exemplos de frases falsas atribuídas a autoridades, além de informações adulteradas ou incorretas. Uma das montagens traz a imagem de Barbosa com o dedo em riste, como se apontasse para o internauta, acompanhada da seguinte frase: “Eu mandei cassar mandatos, mandei prender mensaleiros e apliquei punições aos criminosos. Agora, se você votar nesses tipos de malandros de novo, o problema é seu”. Recentemente, atribuiu a Lula a declaração de que o Bolsa Família é uma ferramenta para “controlar o povo”. Basta uma rápida pesquisa no Google para perceber a fraude. A TV Revolta usou um vídeo antigo do ex-presidente no qual ele fala sobre a compra de votos no interior do País, em uma época em que ainda não existia o benefício.

Apesar de mentirosa, a publicação fez com que mais de 22 mil internautas recomendassem a “notícia” aos amigos. Sem contar os mais de 600 usuários que “curtiram” o conteúdo e os outros 195 comentários raivosos deixados na página contra o ex-presidente. Ninguém da comunidade da TV Revolta parece duvidar da informação, mas o próprio autor da página admite sua “criatividade” na hora de publicar. “Entretenimento e informação trabalham juntos desde a popularização do cinema.”

O responsável pelo canal é João Vitor Almeida Lima. Radialista de 32 anos, ex-sonoplasta da MTV e TV Bandeirantes, Lima mora em São Paulo. Apesar de aparecer sem máscara ou trajes diferentes nos vídeos compartilhados pelo Facebook, diz interpretar um personagem fictício criado em 2009: o João Revolta. Nos vídeos, opina sobre política ou problemas atuais, quase sempre contra o governo ou algum projeto petista. “A filosofia de João Revolta é usar a linguagem informal para atrair o telespectador”, disse Lima ao site youPix.

Personagem ou não, a repercussão e o tom das críticas do radialista chamaram a atenção do exército de militantes do PT na web. Insatisfeitos com as mensagens disseminadas na página, os petistas fizeram inúmeros comentários no perfil da TV Revolta. E passaram a denunciá-la. “É evidente que estamos fazendo uma campanha contra o PT, já que 99,9% do nosso público apoia e quer a derrota do PT nas próximas eleições”, escreveu Lima.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O caso também alertou aliados do governo. Eles se impressionam com o crescimento exponencial da audiência do perfil. O portal Vermelho, do PCdoB, aliado de primeira hora do PT, publicou reportagem na qual afirma que não seria possível uma página subir tanto em audiência sem um investimento pesado. Um mecanismo criado pelo Facebook permite que empresas tenham suas publicações exibidas na lista de interesses de usuários comuns, desde que paguem por isso. O criador da TV Revolta assegura, porém, que a expansão da página é “orgânica”, gerada pela procura natural por um assunto ou conteúdo na internet.

Se é verdade, trata-se de um fenômeno único. De acordo com dados da Social Bakers, uma das maiores empresas na análise de dados de redes sociais, a TV Revolta foi a página na categoria mídia que mais cresceu na rede social no mundo na segunda semana de maio. Superou o próprio Facebook, segundo colocado na lista. Entre as páginas brasileiras figura no topo até mesmo na categoria geral, que inclui perfis de marcas, mídias, entretenimento, celebridades e esportes. É ainda o segundo perfil no Brasil que mais aumentou seu número de fãs no Facebook no último mês, atrás da página brasileira da Fifa na rede social.

É para fazer frente às campanhas difamatórias que os petistas justificam o elevado investimento em sua campanha virtual, cerca de 12 milhões de reais. A Pepper Interativa, que cuidou da campanha de Dilma em 2010, ficou responsável pelos canais do PT na internet e pela administração dos perfis da presidenta no Facebook e no Twitter. A agência dispõe de ferramentas capazes de rastrear robôs, perfis falsos e centrais de boataria. As informações são repassadas para a militância petista, encarregada de desfazer os boatos e denunciar o jogo sujo dos adversários. A coordenação da campanha de Dilma na internet, contudo, está nas mãos de Franklin Martins, ex-ministro de Lula.

“Esperamos usar as redes sociais para o debate de ideias. Se o outro lado apelar para o jogo sujo, vamos denunciar. A internet não é um terreno de bobos”, afirma Martins. “Em 2010, José Serra usou a internet para discutir religião, aborto, temas sem a menor relação com a disputa eleitoral, apenas para difundir o medo na população. E o que houve depois? Perdeu as eleições, não conseguiu nem se eleger prefeito em São Paulo.”

O jogo promete ser duro. Na noite da segunda-feira 19, Jeferson Monteiro, o jovem e talentoso criador do perfil satírico Dilma Bolada, com mais de 1,1 milhão de seguidores, revelou ter recebido propostas para atuar na campanha do PSDB. “Primeiro, fui procurado por uma agência de publicidade. Ela disse que a equipe do Aécio Neves estava interessada em comprar a página. Especularam que poderia ganhar 500 mil reais. Jamais tive a intenção de vendê-la, mesmo assim dei corda à negociação, para ver até onde ia a cara de pau desses tucanos. Foi quando fui procurado pelo Pedro Guadalupe”, resumiu a CartaCapital.

Profissional de marketing digital, Guadalupe tem dois sites registrados em seu nome para fazer oposição à presidenta (Dilma Mente e Muda Mesmo). Coleciona dezenas de jingles políticos que satirizam problemas na gestão petista, além de páginas no Facebook para repercutir o conteúdo. Assessorou ainda a Juventude do PSDB a montar o site PTbras, para explorar as denúncias contra o governo no escândalo da estatal petrolífera.  Apesar da longa lista de trabalhos prestados, Guadalupe alega ter feito tudo de graça, para agradar a um cliente em potencial. “Eu queria mostrar meu trabalho para o PSDB. Tinha um plano de bolar alguma coisa para trabalhar no marketing da campanha.”

Ele admite ter negociado com o criador de Dilma Bolada, mas assegura nunca ter falado em nome do PSDB. “Nunca nem vi o Aécio pessoalmente”, argumenta. Guadalupe já trabalhou na campanha do PT pela prefeitura de Belo Horizonte em 2012. Mas decidiu mudar de lado. “A comunicação do PT é todo estruturada na internet. Como eu vou competir com o Franklin Martins, o Sérgio Amadeu e o Marcelo Branco? Onde eu poderia conseguir espaço em campanha de internet? No PSDB.”

O projeto foi para o ralo. O marqueteiro de Aécio Neves, Paulo Vasconcelos, teve de apagar o incêndio e negou que a campanha tivesse incentivado qualquer aproximação com Jeferson Monteiro. Ficou o dito pelo não dito, para a paz de Xico Graziano, coordenador da campanha de internet de Aécio.

Gráfico 2

No início de abril, ao inaugurar o portal www.mineirobrasileiroaecio.com.br, Graziano não perdeu a oportunidade de atacar a militância virtual do PT.  “Eu monitoro as redes sociais e vejo o jogo sujo que existe. Perfis diferentes disseminam a mesma mensagem dezenas de vezes. A guerrilha do PT posta vídeos antigos e planta as mesmas infâmias de sempre.” Dias depois, teria o telhado de vidro exposto. Seu filho, Daniel Graziano, acabou convocado pela polícia para esclarecer os boatos que ajudou a difundir pela internet contra Fabio Luís Lula da Silva, o Lulinha. No afã de denunciar a “fortuna” acumulada pelo filho do ex-presidente Lula, Grazianinho atribui a Lulinha a propriedade de mansões e vastas propriedades rurais. Uma das áreas mostradas pertence, na verdade, à Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, de Piracicaba (SP).

No front tucano, calcula-se valor semelhante para a campanha na internet: 12 milhões de reais. Nas eleições anteriores, o PSDB gastou 7,9 milhões. A juventude do partido planeja reunir ao menos 5 milhões de militantes para atuar nas redes sociais.
A estratégia de Campos para a internet é a maior incógnita. Não há definição de como serão integradas as equipes da Rede Sustentabilidade, de Marina Silva, e do PSB. Coincidência ou não, Campos deu sua primeira patinada justamente nas redes sociais.

Na quinta-feira 15, publicou uma foto dentro de um jatinho, em meio à onda de violência no estado de Pernambuco gerada pela greve da Polícia Militar. Campos confia, porém, na adesão e na força dos “marineiros”. Isso porque a militância da ex-ministra do Meio Ambiente tem o mesmo perfil do “exército petista” na internet quando o assunto é engajamento. O coordenador de comunicação da Rede, Cassio Martinho, assegura: trata-se de apoiadores independentes. “Para quem está de fora, parece alguma coisa organizada por uma inteligência central, mas na verdade esse é o fenômeno da internet, a emergência de um ator coletivo sem coordenação.”

Isso não significa que o PSB não dê a devida atenção ao jogo eleitoral na internet. Estão previstos gastos de 8,5 milhões na área. Após investir em publicidade paga para aumentar o número de seguidores de seu perfil no Facebook, a equipe de Campos adotou a postura de responder cada comentário enviado ao ex-governador na rede social. Não passa um sem resposta. “Como posso ter certeza de que você não é o plano B do Lula se até bem pouco tempo você apoiava a Dilma?”, perguntou uma mulher identificada como Tânia Guerra, em 20 de maio. A resposta veio 30 minutos depois: “Sabe quando a gente se compromete com um propósito, mas que com o tempo não gera os resultados esperados? Essa é a nossa relação com o PT” .

O Facebook no Brasil está ciente dos desafios que terá pela frente e pretende manter uma equipe 24 horas por dia para analisar todo o conteúdo relativo a eleições que deve ser publicado pelos usuários nos próximos meses. “No ano passado, o termo ‘eleições’ foi o segundo mais falado na plataforma no âmbito global. Acreditamos que 2014 será o ano das ‘eleições sociais’ no Brasil”, afirmou a empresa em nota encaminhada a CartaCapital. A rede social diz estar preparada para acatar as decisões da Justiça Eleitoral, mas indica a disposição de não aceitar pedidos específicos de partidos. “O Facebook não age espontaneamente sobre conteúdo que esteja de acordo com suas políticas e termos. Neste caso, é necessária a determinação de uma autoridade que tenha a atribuição de avaliar se o conteúdo é legal ou não.”

Outra preocupação, não menos importante, é com a emergência do discurso do ódio durante o período eleitoral. “O debate político nas redes sociais anda tão hostil que cria um ambiente propício para atuação de grupos extremistas e neonazistas. Há células bastante ativas no Facebook e no Twitter, algumas com treinamento paramilitar e histórico de violência”, alerta Thiago Tavares Nunes de Oliveira, presidente da Safernet, entidade sem fins lucrativos que monitora e denuncia crimes na internet. “Esses grupos adoram se envolver em polêmicas eleitorais para chamar atenção, e dominam bem a linguagem de internet. Inclusive com a utilização de memes e vídeos apelativos para  difundir mensagens racistas ou homofóbicas.” O anonimato costuma servir de elixir aos covardes e conforto para os ignorantes. Resta uma pergunta: é possível construir uma democracia a partir do rancor e da desinformação?